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Yesterday

Matéria publicada em 29 de outubro de 2019, 09:46 horas

 


O enredo é um bocado inusitado:
Jack Malik é um músico fracassado que compõe músicas que ninguém canta e faz shows que ninguém assiste.
Um dia se rende à abundância de evidências e desiste da carreira musical, mesmo com o incentivo incansável de sua admiradora nada secreta e paixão platônica, Ellie Appleton.
Só que um evento bizarro e inexplicado acontece. O planeta sofre um apagão elétrico no mesmo instante em que ele é atropelado por um ônibus.
Acorda numa cama de hospital. Tinha perdido os dentes da frente. Mas o mundo tinha perdido uma coisa muito mais valiosa: toda a memória histórica e musical dos Beatles, uma das maiores bandas de todos os tempos.
Lentamente ele vai percebendo que ninguém mais conhece as canções do grupo. Nem mesmo o Santo Oráculo Google é capaz de trazer qualquer referência ao grupo. Não conhecem mais a banda, mas as canções continuavam com a centelha mágica que embala corações e mentes há mais de meio século.
Jocosamente, também não havia mais nenhuma referência à banda Oasis. Afinal de contas, se não há milho, não tem como haver pipoca.
A única pessoa que lembrava das canções dos Beatls era ele, Jack Malik.
E então, cantando as canções do (não mais) famoso quarteto de Liverpool como se fossem suas, ele vai aos poucos substituindo a apatia pela euforia, o desprezo pelo interesse, até o ponto de se tornar uma celebridade instantânea mundial. Uma espécie de miojo musical, só que com propriedades nutritivas, já que não é possível falar mal do acervo musical de uma das maiores bandas do planeta.
Poderia dizer mais sobre o filme, mas não vou dizer, para que você possa ter o prazer de assisti-lo quando quiser.
Apesar do brilhantismo das canções, há um momento do filme em que não fica muito claro se o cantor conseguirá fazer sucesso, mesmo com um repertório tão absurdamente matador debaixo dos braços.
O ponto é: se John, Paulo, Ringo e George fossem lançar a banda em 2019, ainda fariam sucesso? Há espaço no mundo atual para canções despudoradamente românticas ou inocentes como a da fase inicial da banda? Ou algum sentido na fase piscodélica do grupo? Todo esse material valiosísimo sobreviveu ao teste do tempo porque foi lançado e digerido no tempo certo. Haveria espaço para uma banda como os Betles hoje?
É provável que sim, porque hoje há ainda mais espaço para você expor seu trabalho ao mundo e ainda mais tolerância e diversidade de produção artística do que numa época dominada por grandes gravadoras que decidiam o que devíamos ou não ouvir.
Sei que eu e outros saudosistas de plantão às vezes nos antecipamos em vaticinar o final dos tempos e a dominação abominável das músicas ruins e que bom mesmo era antigamente. Sim, o mundo está transbordando música ruim. E música boa também. Talvez precisemos sintonizar os canais certos ou alinhados às nossas referências.
Durante os (ainda cultuados) anos 80 os mais velhos diziam que bom mesmo eram os anos 60, e quando Elvis levou uma guitarra e seu rebolado pélvico para os palcos também disseram que a música estava morta.
Bom mesmo é o nosso tempo. Não por uma qualidade intrínseca do tempo em si, mas por ter sido “nosso”. Há uma memória emocional associada às canções (e às mudanças hormonais e situacionais da juventude) que não são possíveis replicar em outras fases e isso faz toda a diferença.
Além disso, na minha época música era um hobby não exatamente barato. Ou você ouvia nas rádios FM’s (e se sujeitava ao que a rádio decidia – ou recebia – para tocar) ou então tinha que gastar uma grana que rararmente tinha para comprar LP’s ou fitas K-7s. Hoje em dia você encontra tudo na internet. De sinfonias de Beethoven a apresentações obscuras dos Beatles gravadas por algum fã incondicional da banda e agora disponíveis no seu celular.
O que não dá para saber é se os Beatles seriam o mesmo sucesso arrebatador de público se fossem lançados hoje. Não sabemos. Talvez passassem despercebidos no meio da enxurrada de opções que temos. E quanto mais opções temos menos percebemos o ouro que escapa no meio do joio.
O filme está longe de ser uma obra prima cinematográfica, mas garante quase duas horas de alguma diversão e, sobretudo, muito boa música.
Portanto, toda vez que estiver reclamando que não existe mais música boa, aproveite que o mundo não sofreu um apagão elétrico e o Google não varreu o acervo dessa banda maravilhosa pra debaixo de algum tapete virtual. Pegue seu celular ou seu velho toca-discos de agulha e saboreie algumas das maiores canções que o gênio humano já foi capaz de imaginar.
Yesterday.Forever.

Alexandre Correa Lima é professor da FGV, escritor e palestrante corporativo. Ele está no YouTube, no Facebook, no Linkedin, no Instagram, no SPC e no Serasa. E não está no Tinder porque sua mulher não deixa.

 


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