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Estrangeiros

Matéria publicada em 21 de agosto de 2018, 07:50 horas

 


Há poucos dias, três brasileiros foram deportados ao chegar ao aeroporto de Boston, mesmo portando vistos, justificativas e comprovantes de hospedagem. Aparentemente não convenceram as autoridades americanas de que eram turistas em busca de diversão e não imigrantes em busca de (sub) empregos. É provável que isso já seja reflexo das políticas anti-imigração mais severas praticadas por Donald Trump.
Um dia antes de eu escrever este texto, uma multidão de brasileiros enfurecidos perseguiu e agrediu venezuelanos que há meses montam acampamento improvisado nas praças de Roraima, fugindo da derrocada de um sistema putrefeito que leva a alcunha de “Maduro”. O estopim da revolta foi o assalto a um comerciante brasileiro promovido por alguns desses imigrantes venezuelanos.
O tema é explosivo em todo o mundo. A Europa esperneia pra contornar os impactos de um fluxo massivo de imigrantes vindo da África e do Oriente Médio, seja fugindo dos horrores da miséria ou da miséria dos horrores da guerra.
Em casa onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão.
Quando a Economia vai bem, ninguém liga para os mexicanos defumados de hambúrguer nos McDonald’s da Flórida, para os bolivianos que varam a madrugada costurando roupas que compraremos por oito reais nas feiras do Brás ou para os brasileiros que cortam grama nos subúrbios de Boston. Seres invisíveis brigando pelas sobras do banquete.
Raspas e restos sempre interessam a quem não tem nem isso.
Mas basta uma crise econômica aparecer na esquina para a demonização do estrangeiro ganhar corpo.
Não deve ser coincidência que a palavra estrangeiro derive do latim extraneus, que significa o “estranho”, que vem de fora.
Os fluxos migratórios sempre existiram, muito antes de inventarmos aviões para nos mover pelos continentes. Aliás, alguns geólogos propõem que sequer havia continentes num passado remoto. A Terra era uma coisa só, chamada Pangeia. Ou seja, técnica e historicamente, somos todos filhos de uma mesma Terra.
Mas quem somos nós e quem são os estrangeiros?
Um dos mantras mais batidos nas escolas infantis é o famoso “quem descobriu o Brasil”, que quase por osmose respondemos “Pedro Álvares Cabral”. No mínimo uma falácia. Primeiro, porque alguns historiadores sustentam que o navegador militar Duarte Pacheco Pereira teria aportado por aqui dois anos antes, em 1498, em algum trecho entre a costa do Pará e do Maranhão. Segundo e mais importante, porque o país não apenas já tinha sido “descoberto”, mas já era inclusive habitado por milhares de índios, que foram caprichosamente aculturados, catequizados e exterminados pelos “descobridores” do país. Os estrangeiros éramos nós, os caras-pálidas, mas os “estranhos” eram eles, aqueles índios.
Estrangeiros provocam emoções que vão da admiração à fobia, dependendo de sua origem. Mas o mundo está coalhado de “estrangeiros” em todos os países e vai estar cada vez mais com os avanços da globalização, da comunicação e das facilidades de transporte. Ainda assim, o Brasil é um dos países com menor proporção de estrangeiros do mundo atualmente, quatro a cada 1000, contra uma média mundial de 34, e muito longe dos países campeões nesse quesito, como Estados Unidos, Alemanha e Arábia Saudita, onde mais de 15% da população têm origem estrangeira.
Apesar das fúrias irracionais que provocam, fluxos migratórios, quando adequadamente coordenados, tendem a ser proveitosos para os países. Geram diversidade, aumentam a população em idade economicamente produtiva, dinamizam a economia, geram novas demandas e oportunidades de crescimento.
Os Estados Unidos são o país com maior diversidade nesse quesito. Recebem os melhores cérebros do planeta para suas prestigiosas universidades e recebem também trabalhadores de baixa qualificação que aceitam fazer o trabalho mal remunerado que os americanos não querem.
E a Europa, com população envelhecida e com tendência de redução, precisa de imigrantes para manter a economia andando ou, no limite, de braços jovens para contribuir com os encargos crescentes de sua população de aposentados.
Os desafios dos fluxos migratórios existem e não são poucos. Roraima por exemplo, está com os serviços públicos ainda mais sobrecarregados. Mas é preciso enxergar o estrangeiro não apenas como o “estranho” que veio sugar recursos, mas também como um recurso valioso que pode ser utilizado para o desenvolvimento dos países e a redução das desigualdades regionais.

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