ÔĽŅ Varandas e quintais - Di√°rio do Vale
quarta-feira, 15 de agosto de 2018

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Varandas e quintais

Matéria publicada em 10 de julho de 2018, 08:15 horas

 


Era para ser apenas uma corriqueira caminhada entre o escrit√≥rio e a padaria para aplacar a fome vespertina, mas acabou virando uma viagem hist√≥rica, social e arquitet√īnica.
Sei lá porque caixas d’água resolvi variar o caminho, o que me fez notar coisas que nunca tinha percebido. Sim, porque a gente não valoriza nem presta atenção no que está acostumado. Depois de um tempo, até Van Gogh vira paisagem. Aposto que a mulher do Pavarotti berrava todo dia pro barbudo parar de cantar a surrada Traviata de Verdi no chuveiro, não duvido que o marido da Angelina Jolie de vez em quando se enfade com o assédio voluptuoso da beiçuda mais adorável que Hollywood já foi capaz de parir. Não é só a renda que é mal distribuída neste iníquo planeta.
Foi por essa variação de rota que prestei atenção nos detalhes daquelas casas antigas ali enfileiradas. Todas com sua sobriedade vetusta, tão típica de uma época. Erguidas nos anos cinquenta eu chuto. Pós-guerra. Confortáveis o suficiente para celebrar um novo tempo, austeras o bastante para não afrontar o trauma recente.
Encantei-me com as generosas varandas de frente para a rua. Sim, porque a rua j√° foi o espa√ßo maior de conviv√™ncia p√ļblica. Imagino s√≥brias senhoras em seus vestidos estampados de viscose, sentadas em cadeiras de madeira e vime, fofocando com suas l√≠nguas l√©pidas trivialidades da vida que passava lenta.
Hábito moribundo, porque as ruas estão cheias de carros nos defumando com monóxido de carbono, e a difusão do crime em escala industrial não permite mais a prática desses ritos sociais entre vizinhos. Hábito quase tão moribundo, quanto a prática de cultivar aquelas samambaias ali penduradas, choronas, a segunda coisa mais démodée do mundo, só perdendo para o uso da palavra démodée.
E os muros? Todos baixinhos, batendo na altura do peito. Agora complementados por grades enormes e suas amea√ßadoras lan√ßas pontiagudas nas extremidades. Reflexo dos tempos. Saudade dos ladr√Ķes de galinhas.
Fico imaginando quem seriam os moradores dessas casas. Sargentos do exército, professoras do primário, relojoeiros? Não tenho como saber, mas webdesignerse disk jockeys eu tenho certeza que não eram.
Tomado por uma nostalgia incontida, fui at√© mesmo capaz de apreciar os bizarros detalhes em rococ√≥ no canto das paredes, contrastando com as linhas cada vez mais retas das constru√ß√Ķes contempor√Ęneas. Se hoje em dia est√° dif√≠cil achar um pedreiro competente e que entregue as reformas no prazo, imagine se tivessem que esculpir anjos, drag√Ķes, grafismos florais, parangolecos e cabe√ßas de le√Ķes nos cantos de toda parede. Minha casa teria virado a igreja da sagrada fam√≠lia de Barcelona e continuaria em constru√ß√£o at√© o final dos dias dos netos que ainda n√£o tenho.
N√£o pude deixar de perceber tamb√©m, escondidos sob pequenas protuber√Ęncias retangulares, met√°lico-prateadas, os pares de ganchos para armar redes nas varandas. O que aconteceu com elas? Ningu√©m tem mais rede em casa, somente rede sem fios, wireless. Heresia maior do frenesi contempor√Ęneo. Ningu√©m mais se balan√ßa em redes, o melhor neg√≥cio que j√° inventaram para chacoalhar o √≥cio.
Essas casas também tinham grandes jardins, quase todos sepultados no cimento sem lápide, em nome de uma garagem maior. Jardim dá muita despesa e trabalho, então melhor abrir espaço para os modernos SUV’s, monstrengos alcoólatras enormes para famílias cada vez menores. Tenho um amigo que tem uma camionete maior que o próprio apartamento. Qualquer dia vai perceber que é melhor dormir com a família dentro do carro pra ter mais conforto e justificar o IPVA mais caro que a escola do filho.
Outro mundo aquele. Vivíamos com mais tempo e mais espaço, confinados na nossa pueril imensidão analógica. Hoje vivemos espremidos, nas ruas, shoppings, estacionamentos e congestionamentos. Vivendo num Espaço-Tempo cada vez mais curto de uma banda cada vez mais larga.
O estoque de casas acabou e logo apareceu uma vitrine de blindex oferecendo tranqueiras chinesas fluorescentes de gosto (nada) duvidoso. O tour involunt√°rio acabara, mas n√£o a fome.
Entrei na padoca e pedi uma m√©dia com p√£o na chapa, como o faria um sisudo senhor sa√≠do diretamente do t√ļnel dos anos cinquenta.
Tudo ótimo, não fosse a profusão de hits moderninhos intragáveis sendo cuspidos pelo alto-falante. Por que raios será que esses DJ’s não tocam mais Lupicínio Rodrigues nem Vicente Celestino?

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