Liturgia Íntima - Diário do Vale
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Liturgia Íntima

Matéria publicada em 8 de dezembro de 2020, 17:34 horas

 


Calcei muito nervosa, este par de luvas negras, abri o guarda-chuva e, depois, andei léguas – muitas léguas, pra vir me despedir de você, com o significativo atraso de quase meio século. Despedida carregada de renúncia, resistência e celebração.

Demorei todo este tempo, porque estive garimpando as palavras, a assobradada e, a miúda, pra melhor usar a minha fala e não, sem antes, auscultar o tempo, a me desenterrar das dúvidas, a não perceber as minhas lágrimas e nem, a minha fibra já tão torcida!

Fiz-me garbosa, sobremaneira decorada e, batizei-me em nome do Espírito Santo e, do eco das opiniões que não quis ouvir, pra que, ficando entre parênteses, agarrada como a hera, eu não me deformasse com a adaptação.

Fiquei à beira, com o meu espanto inexplicável, concebendo admitir que foi grande e aparatosa a paixão que lhe dediquei, igual ao amor que você recusou como o brevíssimo resumo, de uma obra qualquer.

Ah… eu pedi tanto que você se detivesse por um instante, lembra? Pra que soubesse que eu podia ser augusta e solene, antiga e cerimoniosa, se quisesse… e, pra contar que, nada a minha volta, importara-me tanto, quanto o fato de você, lá nunca ter estado. De você não ter-me habitado.

Aprendi sua demora, palmo a palmo e, sem me corromper, nestes castos anos de extraordinário desencontro e solilóquio. E, ainda assim, guardei você no meu peito, despido de armadura, e você se me ficou colado, e recompondo-me para o inesperado, que não me fora, nem por um instante, consentido.

Este meu impossível sonho, repetiu-se cada noite, com pequenas árias e contornos, com pedidos que você me olhasse atento, que me interrogasse na rua, numa livraria, num lugar profano ou sagrado.  Ah… deitamo-nos sempre separados, deitamo-nos sempre por despirmos, nós – os desterrados – nós  – os sem nenhum coreto em alguma inusitada praça!

Fiquei este amontoado de anos entre gritar e não gritar e, por prudência, não gritei!

Este rosto que, por ora fito, no retrato, é o rosto que foi seu e, a moça que não foi sua mulher envelheceu!

Você sabia, ah, como você sabia, que se chegasse à minha morada, descobriria que eu podia ser a mãe de um pescador, que saiu mar adentro, sem temer a sorte. Pés descalços, toda de branco e longo, cabelos soltos, bonita. Bonita mesmo! Desculpas, mas quando atinjo o meu timbre, dá de faltar-me a modéstia!

Veja querido! Estão límpidas as minhas mãos, pra celebrar o que não vivi! Por falta ou por excesso de imaginação – eu não vivi!

Tiro as luvas negras, fecho o guarda-chuva, enrolo-me numa roupagem flutuante e pergunto: – Você acha querido meu, que ainda há tempo para tomarmos um chá com requintes? Para, assim, quem sabe, não sermos lembrados como seres de véspera, à espera de algum tipo de inauguração?

Arde-me esta despedida sem sentido e de dimensão mal calculada. Viemos para um sonho que não nos coube gozar. Estabelecemo-nos entre o que se antecipou e o que não terminou. E juntos, nós dois sabemos que, apreciaríamos um adagieto, que fosse!

Eis-me, aprontada para o meu juízo final, colocando em moldura oval, as fotos que não tiramos, os passeios que não fizemos, as valsas que não bailamos… Meu juízo final, eu digo, porque agora, setenta e nove anos já se me fazem demais e, há mais de uma década, num campo santo, você jaz!

Você – fluido- difuso – princípio e fim de tudo!

 

 

Martha Carvalho Rocha


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Um comentário

  1. Que linda crônica!!!
    Excelente escolha DV, parabéns!!!

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