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Nos desvãos da memória

Matéria publicada em 3 de setembro de 2020, 14:44 horas

 


Se eu pudesse, numa ode, contar a nossa história, desfrutar com você das benesses desta manhã carregada de pólen, quando a terra murmura, tratando-me com deferência.
Se eu estivesse filiada ao gozo de recordá-lo nos desvãos da memória, nos acordes das palavras, na dor que um exibe e o outro recupera e disseca, no acanhamento natural da primeira ocasião.
Se eu pudesse oferecer-lhe provisões abundantes, os meus suspiros narrativos, a espontaneidade da minha escrita. Servir à literatura, ajustando-a à medida humana.
Se eu conseguisse emoldurar com a inesgotável inquietude de um artista, os sentimentos que rugem, versos que pra você eu compus, como se a vida lhe devesse reverências.
Se fosse possível ter esperança de uma coerência para os séculos vindouros, à salvar-nos a alma, à curarmos o corpo. Apostar no frágil da vida romântica, com igual grau de inquietude, nós que providos de ideias e crenças que, com temor, colhemos a ardência, ora da esperança, ora da angústia, ora de uma canção dileta.
Se eu não hesitasse em dizer-lhe quanto aguardou-nos as festas do infinito… Quanto apaixonei-me pelo cotidiano – o chão, o borralho, a secreta voz das lousas, o sol se destacando, a soberba tempestade.
Se eu amanhecesse sem entusiasmo, sem a vontade de enfrentar os problemas que enchem os meus dias compridos, com o galo solando melodioso, com as galinhas fanhosas. E eu, lerda, semicerrando os olhos, e o amor já fora do tempo, morto de sombra e peso, no recesso deste vale, com nada de novo pra nós.
Se eu estivesse estado com você em Veneza, no embalo das gôndolas, nos arcos góticos, nos mosaicos. O nada que se leva, o nada que fica… O eleito e a eleita em dias não vindos, e depois, o anjo anunciando a benquerença.
Se eu conseguisse trazer para cá outros cenários, outras casualidades, deixar ou não deixar a primeira voz – o eu, o eu!
Se eu tivesse herdado as características dos meus pais, o nível espiritual elevado de cada um deles.
Se eu tivesse percebido melhor o cântico nas capelas, o incenso humilde ganhando aromas, os círios consumindo-se mansamente.
Se eu pudesse descansar nas ribas de meu rio natal, ouvir sua voz queixosa e descrevê-lo num arpejo. Ouvir o badalar comovido do sino da Matriz da minha terra, almoçar na casa do tio Noelzinho!
Se eu pudesse voltar à Florença, aos ângulos, às curvas, às argamassas. Aos palácios, aos templos, ao casarão da família da minha mãe, esperando, com certeza, por, pelo menos, mais uma visita nossa. Ao ouro velho, à madeira rosa, à pedra polida, à transcendência do mármore.
Se fosse possível terminar esta escrita com as nódoas do sol em bruxuleio, painas à solta – e você de permeio!

 

Martha Carvalho Rocha


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