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Para falar de amizade

Matéria publicada em 29 de março de 2021, 14:44 horas

 


Em memória de Rafael Garcia Netto

Maurette Brandt

 

Não o via há muito tempo, mas era um amigo. E amigo é coisa pra se guardar, já dizia sabiamente o nosso Milton Nascimento, do lado esquerdo do peito. Quando vi seu nome escrito na mensagem de whatsapp de outro amigo, logo recompus o seu rosto na tela do coração: um cara engraçado, que vivia brincando, gente boa, comprometido, que toda semana – ou quase – batia ponto na Comunicação, meu local de trabalho na CSN.

Engraçado como lembro dele com o uniforme cinza, mais do que com o fashion conjunto de camisa cáqui e calça jeans, conquistado num concurso de estilistas. Fosse qual fosse o assunto – uma visita na sua área, notícias da imprensa, lides domésticas da Usina ou questões mais sérias, como acidentes e trâmites sindicais – lá estava ele, disposto a ajudar. E a nos alegrar também, levantar a moral, oferecer um braço amigo.

Olhei para o seu nome e revi, na memória, o rosto mais que familiar: o rosto de um amigo. De um camarada sério nos princípios, brincalhão no dia a dia, companheiro em todas as horas. Sempre que chegava, trazia algo de bom; podia até reclamar, discordar de alguma coisa da empresa, da cidade ou do país, mas ainda assim sabia, como ninguém, rir e fazer rir. Era daquelas pessoas que, só de olhar pra ele, a gente já esperava uma piada ou uma travessura. Sim, travessura – coisa de meninão que, mesmo quando vira pai, ainda sabe brincar.

A gente se acostuma a certas presenças, no ambiente de trabalho. Na CSN que conheci, ainda éramos irmandade; todo mundo se conhecia, dava pra lembrar os telefones de quatro dígitos de qualquer pessoa, sempre sabíamos a quem procurar para resolver praticamente tudo.  Se isso mudou de verdade, sinceramente não senti com muita força. Era amizade o que temperava o nosso dia-a-dia.

No dia 9 de abril, aniversário da companhia, havia o tradicional Almoço da Amizade, confraternização mais que concorrida, que acontecia sempre no mesmo  lugar: o Refeitório Central, que hoje abriga boa parte dos escritórios de Volta Redonda. Era simbólico: tinha briga por convite, todos os aposentados queriam participar, era uma confusão e, ao mesmo tempo, uma maravilha. Lembrei disso justamente pelo nome:  Almoço da Amizade. A amizade, portanto, era um valor, e todos nos reconhecíamos dentro dele.

Por isso mesmo, falo dele como um amigo que, com minha aposentadoria, perdi de vista. Mas não esqueci. Agora olho para o seu nome, penso em seu rosto, no sorriso e na confiança que ele me inspirava. Se desse qualquer problema que envolvesse a área dele, eu sabia que sempre teria com quem contar.

A mensagem de whatsapp trouxe tristeza e saudade. Rafael Garcia Netto, engenheiro e amigo, colega e amigo, uma pessoa de imenso coração e acima de tudo amigo, sucumbira à Covid-19. Uma perda muito grande para mim, que estava afastada do seu convívio, e certamente terrível para os mais próximos. Junto com a saudade, a tristeza e o inconformismo diante dessa doença, as lembranças que me vieram falaram de amizade, companheirismo e comunhão. Rafael era tudo isso.

Estou certa de que sua nova jornada, numa outra usina fervilhante de energia, esperança e harmonia, há de ser repleta da luz que ele sempre teve e que soube, como poucos, compartilhar generosamente.

Até um dia, querido amigo.

 

Maurette Brandt é jornalista e aposentada da CSN Volta Redonda.

 


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Um comentário

  1. Pessoa de um caráter e valores de uma lisura inquestionáveis. Privilégio ter lhe conhecido.

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