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A censura invade a literatura

Matéria publicada em 13 de setembro de 2019, 08:55 horas

 


Passados 55 anos do Golpe Militar de 1964, data que marcou o início da Ditadura no país e que durou 21 anos, este mês fomos novamente remetidos àquela época nefasta da nossa História, quando o prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, numa ação que, segundo ele, buscava preservar a família, sobretudo a família carioca, ordenou – ação típica de um ditador – que fiscais da Secretaria de Ordem Pública (Seop) da Prefeitura invadissem o pavilhão de exposições do Riocentro, onde ocorria a Bienal Internacional do Livro e recolhessem o romance gráfico, “Vingadores, a cruzada das crianças”, onde havia uma ilustração em que dois personagens masculinos se beijavam. A história, de autoria de Allan Heinberg e Jim Cheng, aborda a equipe dos Jovens Vingadores. Os personagens Wiccano e Hulkling, são namorados no HQ.
A patética ação voltou a se repetir no sétimo dia do evento, objetivando apreender livros de temática GLBTQ, quando, então, fiscais começaram a percorrer os estandes em busca de livros que figurassem na lista negra do prefeito do Rio.
Durante todo o período da ação dos fiscais, nos dois dias do evento, pude como expositor, presenciar de perto a tentativa de censura. O vetusto prefeito tentava, sem sucesso, impor a sua ação, argumentando que o objetivo era impor respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família, baseando-se no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que, por sinal, não faz a menor menção à homossexualidade.
A exigência, com a visita dos 12 agentes aos 150 estandes espalhados pelo Riocentro, era o de apreender livros “impróprios” que não estivessem em conformidade com o preconceito do prefeito, obras que deveriam estar lacradas, objetivando não chamar atenção para o seu conteúdo.
Mas nem só de questões sobre homossexualidade vivem os livros; uma das obras vendidas na Bienal – “Sobre histórias de sacis e outras histórias”, do escritor paulista Wagner Fernandes, publicada pela Litteris Editora, uma bem-cuidada obra que passa pelo universo de Monteiro Lobato – quase foi vítima da tal censura. Por se tratar de um personagem estranho, uma entidade fantástica, negro, de uma perna só, vestido de vermelho, fumando um cachimbo e com poderes de magia, não é de se estranhar que tenha atraído o olhar atento da equipe do “preocupado” prefeito.
Com isso, imediatamente a direção Bienal do Livro emitiu uma nota dizendo que dá voz a todos os públicos, sem distinção, assim como uma democracia deve ser. Tentava mesmo que sem sucesso, fazer ver a Secretaria de Ordem Pública a sua desinformação, pois esta não acompanhara as mudanças ocorridas no dia a dia da nossa sociedade, pois desde 2011 é reconhecida a família homoafetiva e nesse ano a homofobia se tornou crime.
O assunto foi muito além dos corredores da Bienal, e a partir daí foi parar na Justiça, chegando até o STF (Supremo Tribunal Federal), onde a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu que a Bienal funcionasse sem o risco de censura genérica do prefeito Marcelo Crivella. O presidente do STF, Dias Toffoli, tomou a decisão de suspender a ação judicial relativa à apreensão dos livros na Bienal carioca. Já em outra decisão, Gilmar Mendes ratificou a liberdade de discurso. E o decano do STF, ministro Celso de Mello, classificou a censura a livros da Bienal do Rio como um fato gravíssimo.
O assunto gerou um enorme manifesto por parte dos editores presentes no evento, onde me incluí, bem como de autores e do público, que, inclusive, promoveu um “beijaço” em repúdio à censura imposta pelo prefeito.
No dia 7, pela manhã, em um ato com ar de independência ou morte, o youtuber Felipe Neto, praticamente fechando o assunto, comprou e distribuiu gratuitamente, em um dos estandes da Bienal, 14 mil livros com temática LGBTQ, que até então estavam à venda no evento.
Esta história surreal me fez lembrar da obra “Fahrenheit 451”, em que, num futuro hipotético, os livros e toda forma de escrita seriam sumariamente proibidos por um regime totalitário, sob o argumento de que fariam as pessoas infelizes e improdutivas; ou ainda a obra “A menina que roubava livros”, a qual posteriormente virou filme, e que conta a história de uma menina alemã apaixonada por livros nos tempos em que Hitler queimava publicações que não agradassem aos nazistas.
O poeta judeu-alemão Heinrich Heine dizia, com muita propriedade, que onde se queimam livros acabam se queimando pessoas. Não muito diferente dessa ação promovida pelo prefeito Marcelo Crivella – de cercear a Literatura com ar de proteção à família, tentando atrair os olhares para sua ação às vésperas de uma nova disputa eleitoral – temos realmente que tomar cuidado com o imediatismo, que investe na desinformação, bem como na fragilidade da cultura e na consequente infantilização do debate público.


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2 comentários

  1. Avatar

    Pois é as revistas de mulher pelada (Play boy) tem que ficar lacrada nas bancas
    Homem beijando homem na boca pode ficar numa feira ao alcance de todos sem lacre.Vivemos em uma época que td agora é discriminação e ou homofobia.Bons tempos o do Regime Militar que alguns chamam de Ditadura.Se fosse Ditadura os Prefeitos seriam SARGENTOS e os Governadores seriam OFICIAIS GRADUADOSCOMO na China.Não foi isso que eu vi aqui no Brasil.Inclusive o Congresso as Assembléias Legislativas e as Câmaras de vereadores funcionavam a pleno vapor.

  2. Avatar
    Luciano Fernando Barata

    Bola fora do Sr Crivella.

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