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Epitáfios inesquecíveis

Matéria publicada em 17 de agosto de 2018, 07:33 horas

 


Esta semana, não sei bem o porquê, bateu-me uma certa nostalgia, e com ela à memória abraçada a saudade de amigos queridos que se foram, nomes que tiveram uma representatividade em nossa Cultura de forma incrivelmente linda e talentosa.
Entre tantos nomes e imagens que me vieram à mente, lembrei do querido amigo, o ator André Valli, o eterno Visconde de Sabugosa, do Sítio do Pica-pau Amarelo, da adaptação para a televisão da obra escrita por Monteiro Lobato, novela que fez parte da infância de muitas crianças. André morreu, deixando um legado e a saudade em muitos fãs e amigos. Tive o privilégio de ter o texto de contracapa do meu primeiro livro, lançado em 1983, escrito por ele.
Lembrei ainda de Chico Tenreiro, com quem aprendi tantas lições oriundas da literatura e da música. Ator exemplar, que fez sucesso na TV, mas era no teatro que mostrava o seu melhor. Lupe de Gigliotti, a querida dona Escolástica, da Escolhinha do Professor Raimundo, irmã mais velha do humorista Chico Anysio, Lupe me deu a honra de produzir o seu primeiro livro.
Cláudio Cavalcanti, grande ator de novelas, outro querido amigo que me deu o prazer de produzir, assim como Lupe, o seu primeiro texto impresso. Além desses ícones, o mestre Grande Otelo, Cazuza, Neusinha Brizola, Carlos Zara, Henriqueta Brieba, Gualba Peçanha, o Plim Plim – Mágico do Papel da TV na década de 1970 -, Wilson Viana, o inesquecível Capitão Aza da TV Tupi. Tudo isso só para citar alguns nomes pinçados de uma galeria magistral com o qual convivi no dia a dia e aprendi muitas lições.
O que me levou a pensar detidamente nessas pessoas, mais do que a lembrança de bons momentos juntos, foi o esquecimento o qual muitas foram fadados a conhecer. Talvez, Cazuza e Grande Otelo sejam ainda nomes que felizmente não foram apagados da memória do grande público.
A minha viagem não teve fim, porque o fim, todos nós vamos encontrar mais dia ou menos dia, e muitas das nossas histórias, importantes legados acabam por se perderem encobertas pela poeira do tempo e a memória fraca do nosso país.
Ao longo de anos de profissão, no rádio e depois como editor, tendo lançado mais de 5 mil nomes, o que restará de toda essa minha história, que hoje soma 35 anos? Entro no Google e coloco o meu nome para dar uma busca orgulhosa, deparo-me com uma soma significativa de homônimos, e entre eles, apareço em algumas citações como escritor e editor. Nada de narcisismo e nem mesmo arroubos de cabotinismo, jamais, apenas e tão somente o orgulho de ter feito alguma coisa pela nossa Cultura tão combalida, que já não é de hoje, respira com a ajuda de aparelhos.
Não penso em deixar diplomas, troféus, medalhas pelo meu trabalho. O meu maior orgulho é saber que os livros que tive o prazer de fazer nascer não irão morrer comigo. Sendo assim, nada de obituário com texto solene e nem epitáfio com pensamentos incompreensíveis. Talvez, nem um e nem outro. Quero, literalmente, ser doado por inteiro. Se possível, da córnea ao coração, passando pelos rins, peles e até pelos, se caso servir para alguma coisa. Portanto, desejo justificar de verdade a minha passagem por aqui, para que não tenha sido banal, lugar comum, algo chato e sem tempero.
Assim como não foi com meus amigos ilustres da mídia que se foram, e vão a cada dia tendo suas memórias apagadas, o que é uma grande pena, pois gostaria de ver na morte a vida ser celebrada.
Parafraseando Monteiro Lobato, que certa feita disse que um país se faz com homens e livros. Como acredito nos homens, sobretudo, naqueles que plantam árvores para que outros possam colher livros, não posso deixar de crer no amanhã com ou sem a minha presença, porque o que deve ficar, certamente, é a história que escrevemos com apaixonada dignidade e amor.

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