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Consciência Negra: Crianças que cometem racismo são vítimas de mau exemplo

Matéria publicada em 20 de novembro de 2016, 08:02 horas

 


De acordo com o professor e historiador Valmir de Almeida, público infantil apenas reproduz esse tipo de atitude

Sul Fluminense – “Eu quase não acreditei quando minha filha, de quatro anos, contou-me que um amigo, da mesma idade, havia dito que ela era ‘preta e feia’, mas o caso, infelizmente, foi confirmado pela professora deles”. Esse é o relato da mãe de uma menina negra, que preferiu não se identificar, e que, assim como tantas crianças, ainda sofrem com o preconceito racial no dia a dia, seja na escola, no clube e até em festinhas de amigos. Historiador e membro do Conselho Estadual dos Direitos dos Negros, o professor Valmir de Almeida destaca que, esse tipo de atitude, partindo de uma criança, é muito mais comum do que a sociedade imagina. “No entanto, nesses casos as vítimas acabam sendo as duas crianças”.

– Crianças que cometem racismo com outras também são consideradas vítimas. Elas são vítimas de um mau aprendizado e fazem isso porque, de forma negativa, espelham-se em algum adulto. No momento em que uma criança racializa uma agressão contra outra, ela está reproduzindo alguma atitude racista que ela captou. E, nesses casos, sempre devemos observar a máxima, de que “ninguém nasce racista” – destacou o professor.

E, justamente por acreditar na tese do professor, que a mãe da menina optou em orientar a professora da filha a conversar com os pais do aluno agressor. Para ela, é impossível acreditar que um menino, com apenas quatro anos, carregue esse sentimento sem que tenha sido estimulado por algum adulto.

– Eu não me importaria se ele apenas a tivesse chamado de feia. Mas o fato de ter associado isso a cor da pele da minha filha, foi a gota d´água. Certamente ele escuta pessoas do seu convívio fazendo esse tipo de referência e, por infelicidade, reproduziu com ela, na sala de aula. Pedi à professora que conversasse com ele e com os pais, pois acredito que, por ainda ser muito novo, tenha chances de evitar que cresça uma pessoa preconceituosa – disse a mãe.

De acordo com Almeida, sempre que esse tipo de agressão ocorre em uma escola, os responsáveis pela unidade e a família têm que conversar e falar claramente sobre a situação, alertando para as crianças que antes mesmo de ser crime, o racismo é uma grande ignorância. Este conceito, segundo ele, já foi apresentado em diversos congressos científicos universitários.

– No processo de aprendizagem o subconsciente não aceita coação. Então, o educador e a família, querendo desconstruir esse aprendizado racista, não devem partir da criminalização do racismo e sim ir mostrando o quanto é ignorância ser racista. De forma suave e sistemática, esse tipo de conversa deve ser introduzida no dia a dia das crianças – comentou o historiador.

Combatendo o racismo
na primeira infância

Para que casos como o da menina de quatro anos, vítima de racismo, sejam evitados, o professor Valmir de Almeida destaca que é preciso aplicar ações já na primeira infância, quando as crianças ainda estão livre dos preconceitos. Isso, segundo ele, pode ser feito com ações lúdicas, alto astral, bem elaboradas, sem “enegrecer e nem embranquecer” a escola, por meio de teatros infantis, momentos literários, confecção de material didático, entre outras ações.

Segundo o historiador, no processo de conscientização e combate ao racismo, também é muito importante que os pais não tratem a criança vítima de preconceito como coitadinhas, o que pode vir a fragilizá-las ainda mais.

– O ideal é adotar atitudes que estimulem sua autoestima, como também falar sobre a luta dos nossos antepassados, mostrar homens e mulheres que são referências, mostrar a incoerências dos padrões de beleza e procurar desconstruir paradigmas racistas, em uma ação serena e sem demonstrar rancores – orientou o professor, ao acrescentar que, em tese, se comprovado que crianças estão cometendo racismo contra outras, com base no comportamento dos pais, esses podem vir a ser punidos.

Sobre o Dia da Consciência Negra

Neste domingo, quando é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra, Almeida destaca que o próprio dia 20 de novembro já pode ser considerado um grande avanço. Isso porque, segundo ele, antes dessa data passar a se tornar feriado, em 1988 ela também marcou a Criação da Fundação Cultural Palmares pelo governo federal. Além disso, segundo o historiador, em outros anos, também foram criadas, em alusão à data, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, o Estatuto da Igualdade Racial, Plano de Ação de Durban do qual o Brasil é signatário, entre outras leis estaduais e municipais.

– Tudo isso já é uma vitória e um grande motivo para comemorarmos. Mas é importante lembrar que os desafios são muitos também como, por exemplo, as dificuldades em aplicar a legislação que promove a africanidade nas escolas. Essa inclusão requer uma ação sistemática, e ai viu-se que faltam educadores, que essa ação sistemática desprende recursos e que precisam ser bem aplicados e que a lei não se restringe a ações apenas nas datas alusivas a africanidade. Outro ponto, que ainda precisa ser observado, é que essa é uma tarefa para educadores e não necessariamente militantes que podem carregar um voluntarismo nada didático – finalizou o professor.


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3 comentários

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    Realmente, o racismo é “aprendido” pelas crianças. Elas reproduzem o discurso dos adultos.

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    Infelizmente hoje, quem nunca trabalhou a questão,apenas pelo fato de ser negro ou negra e interesse pessoal,pessoas estão sem nenhum escrúpulo querendo ocupar cargo público em nome dos negros..puro oportunismo… em volta redonda está assim, nos bastidores, esses inescrupulosos, estão se pegando para ocupar a direção memorial zumbi, lamentável..gente fantasiada de africanos..outros falando em nomes dos negros e com pouco ou nenhum conteudo ou formação. Só falácea

  3. Avatar

    Por baixo da pele somos todos iguais.

    Promover a Consciência Negra é causar a divisão entre as pessoas. Vamos promover mais o Ser Humano e não a Igualdade Racial. Isso nunca vai acontecer. Só se o “objetivo” for conscientizar os brancos, amarelos, azuis, marrons e outras cores de pele de que eles são tbm negros.

    “Africanidade nas escolas”? Por acaso isso não é destacar uma cor da pele da outra? Escola é lugar de aprender Língua Portuguesa e Matemática. Aprendendo isso bem, os estudantes estarão aptos para não se importarem tanto com a cor da pele.

    Aliás, muitos negros bem instruídos não se importam com a suas cores.

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