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Especialistas criticam falta de diálogo na reforma do Ensino Médio

Matéria publicada em 14 de janeiro de 2017, 17:00 horas

 


Em maior ou menor grau, educadores e dirigentes sindicais apontam medida provisória como caminho errado

Volta Redonda – A mudança que o Ensino Médio do país pode enfrentar a partir da proposta do Ministério da Educação divide opiniões dos profissionais em educação da região. De acordo com Sanger Amaral Alves Nogueira, professor de História dos colégios Benjamin Guimarães e Theodorico Fonseca, em Valença, a medida proposta pelo governo federal erra mais do que acerta.

Ele diz que o acerto da reforma está em seu diagnóstico: o atual modelo de ensino médio se esgotou. O professor aponta a alta evasão dos alunos e os fracos resultados nos exames internacionais como dois exemplos de tal esgotamento, mas diz que a forma como a reforma é estabelecida pode gerar problemas. A edição de uma medida provisória por parte do governo federal, lembrou Sanger, impediu a comunidade escolar de discutir os melhores rumos das mudanças..

– Muitos educadores se surpreenderam, negativamente, ao saber que o governo já tinha um modelo de reforma que não foi discutido com a comunidade. O aumento da carga horária (passando de 800 horas para 1400 horas até 2024) e a divisão do currículo em dois ciclos promoveram ceticismo pela comunidade escolar em virtude da atual crise econômica do Brasil – opina.

Divisão do ensino médio

Sanger disse que a reforma estabelece a divisão do ensino em duas etapas: o ciclo básico (com duração de 1 ano e meio), com o aluno cursando todas as matérias; e outra parte para a escolha dos alunos entre 5 áreas (linguagens, matemática, ciências humanas, ciências da natureza, ensino técnico). Português, Matemática e Língua estrangeira seriam componentes obrigatórios em qualquer escolha curricular. É a chamada flexibilização do currículo.

– Teoricamente, dar ao aluno o direito de escolher o seu currículo é uma excelente ideia. Entretanto, a reforma do ensino médio do governo não explica as condições de escolha dos alunos – disse Sanger, que emendou:

“O aluno ‘A’ da escola ‘B’ terá a possibilidade de escolher entre as 5 opções de currículo? Não sabemos. Outro exemplo: Suponhamos que o aluno ‘A’ da escola ‘B’ deseje se especializar no currículo de Matemática. Contudo, o currículo de matemática só seria ofertado na escola ‘C’. Logo, o aluno deveria mudar de escola. Isso pode aumentar ainda mais as desigualdades geográficas (escolas do centro oferecendo mais possibilidades e escolas da periferia oferecendo menos) – explicou.

Com relação ao aumento da carga horária do ensino, o professor acredita que é um elemento positivo para estreitar os laços do aluno com a escola. No caso do ensino integral, ele ajuda as famílias mais carentes e evita o contato dos adolescentes com a violência das ruas.

Em relação à divisão do currículo em disciplinas obrigatórias e disciplinas optativas, o professor de história acredita que em teoria será um avanço significativo dar ao aluno o direito de escolha. Todavia, a falta de informações da reforma do ensino médio (como isso se dará na prática, aumenta o ceticismo dos professores).

A importância da formação profissional

A formação profissional é um ponto positivo da reforma, segundo o professor Sanger.

– É muito comum, nas salas de aula, o aluno se perguntar qual é o sentido de se aprender diversos conhecimentos na escola. O ensino profissionalizante dialoga entre a teoria e a prática e facilita a entrada do aluno ao mercado de trabalho – opina.

Em relação aos créditos que poderão ser usados no ensino superior, o professor acredita que a medida pode facilitar o entendimento do aluno que a escola não é uma perda de tempo que ele é obrigado a estar. Permite também ao aluno compreender que a escola é um investimento que ele faz em si mesmo cujas consequências ele será o protagonista.

Medida Provisória: Falta de diálogo com a comunidade escolar foi criticada amplamente (Foto: Divulgação)

Medida Provisória: Falta de diálogo com a comunidade escolar foi criticada amplamente (Foto: Divulgação)

Representante do Sinpro discorda da nova reforma

O presidente do Sinpro (Sindicato dos Professores do Sul Fluminense), João Marques, é mais contundente nas críticas à reforma do ensino médio, que classifica como “desastre”.

Assim como o professor Sanger Amaral, Marques aponta a falta de diálogo como origem de todos os eventuais problemas que a reforma possa trazer. O professor e dirigente sindical ainda apontou que a reforma desconsidera pontos do PNE (Plano Nacional de Educação), que foi construído com a discursão de mais de três milhões de pessoas ligadas a educação.

– Acredito que a mudança no ensino médio vai prejudicar não só o aluno, pois ela limita o acesso às faculdades, como também os professores, quando retira algumas matérias que tem importância fundamental na formação do conhecimento. Como exemplo a sociologia e filosofia. Com isso, esta mudança está tirando o emprego de vários professores. Por outro lado, esta proposta cria a figura do notório saber, ou seja, qualquer pessoa poderá a vir a dar aula sem ter um curso das disciplinas excluídas. Um médico pode vir a dar aula de biologia ou um engenheiro poderá dar aula de matemática, sem estar devidamente preparado – destacou.

Segundo o representante do Sinpro, a proposta do governo é deixar apenas quatro disciplinas no quadro curricular comum (português, matemática, história e geografia) entrando como complemento educação física e artes. E ainda se estuda na possibilidade de se colocar um idioma.

– Já em relação à ampliação da carga horária, se ele for feita dentro da necessidade do aluno e as escolas estiverem adaptadas para que o aluno possa passar oito horas dentro da escola, com atividades lúdicas, tem todo o meu apoio, desde que esta mudança seja feita gradativamente e dentro dos parâmetros pedagógicos – opina.

Diretor do Sepe acredita que nova reforma irá prejudicar educação

O professor de português da rede municipal e estadual de educação e diretor do Sepe (Sindicato Estadual dos Professores de Educação), Thiago Ferreira, considera que a reforma do ensino médio proposta pelo governo será prejudicial aos alunos, educação e a sociedade como um todo.

– Primeiro porque o projeto foi proposto por uma medida provisória, sem antes consultar profissionais da área de educação e a sociedade. Em relação aos itens da proposta do governo, a LDBN (Leis de Diretrizes e Bases da Educação) prevê um núcleo de disciplinas básicas obrigatórias na educação. E esta reforma tira a obrigatoriedade de algumas disciplinas que anteriormente eram exigidas. Isso acarreta que quando o governo se desobriga a oferecer algumas dessas disciplinas, acaba lesando o direito à educação de qualidade – explica.

Como exemplo, o diretor cita as disciplinas de espanhol e ensino religioso, que não são obrigatórias na rede estadual. Em razão disso a maior parte das escolas do estado não tem estas disciplinas. “Em minha opinião esta reforma é uma maneira de sucatear a educação pública”, opina.

Em relação ao horário integral, a direção do Sepe se coloca a favor, porém destacando que deve existir uma estrutura física e de funcionamento dessas escolas. Outro problema, aponta Thiago, é que ao mesmo tempo em que a PEC-55(Proposta de Emenda à Constituição) foi aprovada em dezembro, delimitando os investimentos na educação, o governo quer aumentar a carga horária com ensino integral, ampliando mais gastos.

Ferreira: ‘Projeto foi proposto por uma medida provisória, sem antes consultar profissionais’ (Foto: Júlio Amaral)

Ferreira: ‘Projeto foi proposto por uma medida provisória, sem antes consultar profissionais’ (Foto: Júlio Amaral)

 

Por Júlio Amaral

(Especial para o DIÁRIO DO VALE)


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