O Engenheiro Gessinger

Por Agatha Amorim
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Desde a chegada da internet que as possibilidades de informação aumentaram numa escala jamais imaginável. No período anterior você só saberia detalhes de um disco ou artista através das revistas, jornais, livros ou TVs. Os veículos tinham de ir atrás e fazer uma entrevista – o que não era garantia de que você saberia de tudo o que foi dito ali. Não foram raros os casos em que o que foi publicado não era o de mais valioso do papo.

Já na era dos sites, blogs, redes sociais, podcasts, a informação foi finalmente democratizada ao extremo. Hoje, para você ter informação de músicas e discos que marcaram a história basta “seguir” os perfis dos artistas, dos portais e produtores de conteúdo. Está tudo aí. A explosão recente dos podcasts em formato de vídeo provocou uma enxurrada de declarações que antes nem sempre chegavam ao nosso conhecimento.

E um podcast que vem se destacando pra quem gosta de música é o do Clemente Magalhães, o Corredor 5. Dedicado a ouvir não só artistas, mas produtores, empresários, ex-presidentes de gravadoras; em suma, pessoas dos bastidores da música. As entrevistas costumam render até três horas de papo. A recente que assisti foi a do Humberto Gessinger, ex-Engenheiros do Hawaii.

Gessinger detalha algumas curiosidades ocorridas entre os lançamentos dos dois primeiros discos dos Engenheiros do Hawaii. Pude vê-los ao vivo em 1987, no Ilha Clube, na ocasião do lançamento do segundo disco da banda, “A Revolta Dos Dândis”. Vieram no estouro de “Infinita Highway” e “Terra de Gigantes”, duas canções que marcaram parte da minha geração.

Era a estreia de Humberto do contrabaixo, assumindo o instrumento após a saída do baixista do primeiro disco, Marcelo Pitz. Era uma outra banda, não só pela entrada de Augusto Licks na guitarra, mas por uma mudança de instrumentos e na caraterística do som, pois no primeiro LP Gessinger ainda era o guitarrista.

Guardo boas lembranças dos dois primeiros discos. No de estreia, “Longe Demais das Capitais”, o eterno hit “Toda Forma de Poder” puxou a fila. Aquele rock acelerado, que falava de “Fidel e Pinochet” logo de cara e que tinha tudo pra não ser bem aceito, segundo o próprio Humberto. Havia influências do reggae “de branco” do The Police em “Segurança”, “Nossas Vidas”; havia rocks enérgicos e pós-punks como “Fé Nenhuma”, “Eu Ligo Pra Você” e a irresistível “Sopa de Letrinhas”.

A música título me remete ao show no Ilha Clube, nela Gessinger fez um trocadilho com o nome da cidade em que estava tocando, “Barra Mansa é tão grande e tão pequena”. Ele só não sabia que de “grande” a cidade não tinha nada. Mas fato é que a aura sonora do primeiro disco foi abandonada no segundo, uma mudança profunda.

Entraram violões, gaita, música sem bateria, música quilométrica (no melhor estilo Bob Dylan), a banda tentando aprender uma nova forma de se tocar em trio, já que seu vocalista migrou de guitarrista pra baixista e o novo guitarrista não estava tão familiarizado com aquele formato e estilo da banda.

O que não quer dizer que tenha feito feio no disco, pelo contrário. O destaque de Augusto naquele fica por conta de “Refrão de Bolero”, onde faz um solo bem interessante. Utilizaram uma microfonia de fundo durante toda a música pra cobrir um pouco o vazio de se ter apenas três pessoas tocando. Eles optaram por gravar o mais próximo possível de como soariam ao vivo, sem utilizar da tática dos overdubs.

Em “Terra de Gigantes” (a música mais bonita do disco) a banda não quis colocar bateria na gravação, apenas guitarras. Quando alguém da gravadora ouviu como estava indo esta gravação em São Paulo, entrou em contato com a direção no Rio de Janeiro e o presidente ordenou que se “colocassem bateria” na música imediatamente.

Humberto ciente de sua percepção de que a música não tinha porque ter bateria, bateu o pé e inseriu apenas uma virada quando a letra diz “Hey, mãe, tem uns amigos tocado comigo”, e nada mais. Na audição do disco pronto foi uma decepção pros diretores da gravadora, que viram ali que o disco não iria pra frente. Estavam enganados, pra variar.

A banda que sempre tentou fugir dos holofotes, estava definitivamente no caminho inverso, o do sucesso. Apesar de muito criticados pela imprensa naqueles primeiros discos, Humberto venceu a briga e está na ativa até hoje com um fã clube fidelíssimo de dar inveja a muito artista.

 

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1 Comentário

Alguem 14 de dezembro de 2023, 09:12h - 09:12

O problema do Humberto Gessinger eram muitos, era muito bonito, tinha um cabelo maravilhoso, tocava bem, cantava bem, compunha e o pior de todos eles, ainda pensava .

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