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O lado negro da força

Matéria publicada em 22 de julho de 2019, 16:26 horas

 


Aplicativos ‘engraçadinhos’ podem estar coletando suas informações para uso em marketing ou em ‘tenebrosas transações’

Recentemente, um aplicativo que pega uma foto de uma pessoa e mostra como ela seria daqui a alguns anos se tornou febre no Facebook, mas antes dele dezenas de outros programas se propunham dizer quanto tempo duraria seu atual relacionamento, ou quantos anos de vida restariam ao usuário.

Tudo isso aparece como uma brincadeira, e ninguém em sã consciência leva esses resultados realmente a sério, mas o leitor já parou para pensar no motivo de alguém contratar desenvolvedores de software e fazer um esforço de divulgação só para os internautas se divertirem?

A resposta é simples: geralmente esses aplicativos pedem ao usuário que lhes dê permissão para acessar seus dados na rede social. Mais interessado em brincar do que em preservar sua privacidade, o internauta clica apressadamente em “sim” e espera para ver “que bicho você seria na Idade do Gelo”.

Quando você faz isso, permite que o tal aplicativo veja seus posts, sua lista de amigos e uma série de outras informações. Isso cria um banco de dados que vale uma fortuna. Por exemplo, quanto valeria, para uma empresa que produz rações, uma lista de pessoas que revelaram gostar de animais, ou que explicitamente mostraram que têm um?

Falando especificamente do caso do aplicativo que envelhece fotos, ele é uma aplicação das tecnologias de reconhecimento facial, e quem o usa está cedendo os dados de sua face, de modo que teoricamente você pode estar possibilitando a empresas e governos do mundo inteiro saber onde você está a partir da comparação de seus dados visuais com imagens capturadas em qualquer sistema de câmeras de vigilância.

Se você não estiver sendo procurado pela polícia ou por outras forças de segurança, isso pode parecer pouco importante, mas dados na internet não ficam só nas mãos de empresas ou governos. Pessoas mal-intencionadas, uma vez que tenham a fórmula digital para que seu rosto seja reconhecido, podem fazer o diabo com isso.

 

Os ‘armazéns de dados’

 

A maioria das pessoas que teve algum contato profissional com a Tecnologia da Informação sabe o que é um “data warehouse”, ou “armazém de dados”.  É um conjunto de informações aparentemente desconexas, mas que, usadas de forma correta, podem trazer informações preciosas sobre indivíduos ou coletividades.

Imagine, por exemplo, que alguém tenha acesso a todas as compras que você fez com seu cartão de crédito ou de débito. É como se fuçassem seu lixo todos os dias, sem sujar as mãos. Essa pessoa ou empresa vai saber de que tipo de comida você gosta, se tem alguém doente em casa, qual ou quais são seus destinos de férias favoritos…

Essa infinidade de informações pode ser usada por especialistas para construir estratégias de marketing. Juntando dados de milhões de pessoas, é possível saber qual produto ou serviço mais gente estaria disposta a comprar, e por quanto, ou qual recurso seria mais decisivo na hora de escolher um smartphone.

 

O lado negro da força

 

Até aí, não há nada de tão grave assim. Ao autor, parece uma troca justa, ceder seus dados de forma anônima para pesquisas de mercado e receber diversão em troca. Mas o lado negro da força está logo ali.

As publicações de uma pessoa em uma rede social podem dar uma ideia bastante precisa do que ela pensa sobre os mais diversos assuntos, incluindo política. Aí, com os dados certos, é possível não apenas construir um discurso que vá agradar a maior quantidade possível de eleitores, como também ver quem seria mais suscetível a compartilhar informações que ajudariam a criar uma nova liderança política.

O problema é que, seja quem for que se valesse desse recurso, estaria na verdade falando o que as pessoas querem ouvir para poder ser eleito, não dizendo o que realmente pensa em realizar caso vença a eleição.

 

O perigo

 

Pior do que ter seus dados usados para construir uma liderança política artificial é ter as informações de suas postagens nas redes sociais usadas por organizações que nem sempre estão preocupadas em seguir a lei. Uma pessoa que se revele simpática à causa palestina – algo comum e nada criminoso – pode ser um alvo para alguém em busca de apoio para uma organização ligada a terroristas islâmicos.

 

A defesa

 

Afirmar que o ideal seria limitar as postagens nas redes sociais a assuntos que não gerem polêmica é bobagem. Quem vai deixar de usar esse meio de expor, clara e gratuitamente, sua opinião?

A forma de evitar ser cooptado por pessoas mal-intencionadas é a mesma de sempre: equilíbrio. Lembre-se de que as redes sociais são uma extensão da vida real, não um substituto para ela.

Se você realmente gosta dos animais, talvez seja mais útil você trabalhar com alguma ONG que cuide de cães e gatos abandonados do que passar horas por dia simplesmente curtindo com “amei” todas as fotos de bichinhos no Facebook.

Se é simpático à causa dos palestinos, ou quer acabar com a fome na África, procure fazer algo de verdade (e dentro da lei) a respeito, em vez de simplesmente esbravejar no Facebook ou no Twitter.


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Um comentário

  1. Avatar

    Não entendi a referência ao negro…
    Seria algo discriminatório se manifestando?

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