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Simpathy for the Devil

Matéria publicada em 28 de julho de 2019, 05:43 horas

 


Série apresentada na TV fechada e depois em plataforma de streaming apresenta um Lúcifer humano e divertido

Um meme atribui uma certa “simpatia pelo Diabo” ou “simpathy for the Devil”, como no título desta coluna e da música cantada pelos Rolling Stones, a um padre conhecido por atrair multidões. O religioso-galã Fábio de Melo confessa no meme que “torce pelo diabo”, quando assiste à série “Lúcifer”, que teve três temporadas no canal fechado Universal Channel e mais uma na plataforma de streaming NetFlix. Aliás, a Netflix já avisou que só haverá mais uma temporada, provocando revolta nos fãs. Sim, o diabo da TV tem fãs. Apenas um dos grupos criados no Facebook para reunir admiradores brasileiros da série já conta com quase 200 mil participantes.
E antes que as pessoas que não conhecem a série comecem a ver nisso um sinal de que o anticristo estaria andando sobre a Terra e reunindo combatentes para o Armagedom através da mídia, vamos ao assunto desta coluna: explicar o motivo desse capiroto ser tão simpático.
Detalhe: pelo menos em uma ocasião, o colunista se lembra de outros diabos “bonzinhos”. Houve um personagem de quadrinhos, o Brasinha, criado para aproveitar a onda de simpatia pelo Gasparzinho, o fantasminha camarada. Brasinha era um capeta bonzinho que não ficou tão conhecido quanto seu colega fantasma, mas chegou às bancas nas décadas de 1960 e 1970.

Apresentando o Lúcifer da TV

O Lucifer da Netflix é bem mais divertido que o dos cristãos

O diabo da série se chama Lucifer Morningstar (uma referência a Vênus, a estrela da manhã, que certas lendas ligam ao arcanjo Lúcifer). Ele estava lá, no inferno, torturando almas, quando ficou de saco cheio e resolveu vir para Los Angeles, no Estados Unidos, onde montou a Lux, uma boate superbadalada.
Diferente da imagem apresentada pelo cristianismo, o diabo da série não é a encarnação do mal. Ele ficou entediado justamente porque torturar as almas dos pecadores não foi uma escolha dele: foi um castigo aplicado por um ser que ele chama de “pai” e com quem ele se desentendeu. E tem mais: quem cria os castigos são os próprios humanos, com base nos pecados que cometeram.
O Lúcifer da série se dá bem com alguns anjos que continuam fiéis ao “pai”, como Amenadiel, um negro com asas capaz de desacelerar o tempo, ao mesmo tempo em que trouxe para a Terra uma demônia extremamente sexy, a Mazekeen, que é seu braço direito.
E tudo ficaria na mesma se o pobre do diabo não se apaixonasse por uma detetive do LAPD (Los Angeles Police Department), Chloe Decker, que aparece na Lux para investigar um assassinato. Daí se desenvolve a série.

Por que amamos o Diabo

O primeiro motivo para o Lúcifer da série ser tão amado é que ele não é absolutamente mau, como o Diabo dos cristãos. Trata-se de um sujeito divertido, tolerante com “desvios de comportamento” como abusos de álcool e drogas, e manifestamente bissexual. Mas não tem planos para destruir a fé da humanidade, nem é inimigo daquele que chama de “pai”.
Além disso, o Lúcifer da série, embora seja extremamente poderoso (tem superforça, é à prova de balas e extrai confissões das pessoas olhando fixamente para elas), tem um ponto fraco: a presença da detetive – que só nasceu por causa de uma intervenção do anjo Amenadiel – deixa o diabo vulnerável.
Sendo mau em alguns momentos e tendo várias “recaídas” de bondade, o Lúcifer da série se transforma em um super-herói, ou melhor, em um anti-herói, como o Wolverine ou o Justiceiro.
Apaixonar-se e sofrer por amor humaniza esse diabo, e o deixa muito perto do que eram os deuses da era do politeísmo: seres superpoderosos, dualistas (nem totalmente bons nem totalmente maus) e vítimas de inseguranças, tentações e medos como qualquer um de nós.

E nós com isso?

Quando temos tanta gente (inclusive o colunista) admirando uma série em que o diabo se torna mais humano, talvez seja porque as pessoas o estejam vendo não como a figura de sua religião, mas como mais um personagem. Aliás, a série já trouxe alguns personagens bíblicos interessantes, como Caim e Eva. Ambos ficaram mais divertidos que suas versões “oficiais”.
Talvez estejamos amadurecendo e aprendendo a separar o que é declaradamente uma obra de ficção do que é a crença sincera de muitas pessoas. Fica claro que o Lúcifer da série nada tem a ver com o Satã dos cristãos.
E talvez por isso ele sirva para nossa diversão.


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Um comentário

  1. Avatar
    CIDADÃO VR - O Original

    Na verdade tudo isso serve para um propósito muito claro: gradativamente o mau se torna em bem, enquanto que o bem vai sendo gradativamente expurgado da vida das pessoas. Nós percebemos isso na arte e literatura em geral. Quando acompanhamos séries e filmes, onde instintivamente passamos a torcer para os vilões ao invés dos mocinhos, observamos o quanto os valores da sociedade têm sido colocados à prova. Para quem conhece a Bíblia Sagrada e a reconhece como sendo a Palavra de Deus, isso não é nenhuma surpresa. O mundo está sim sendo preparado para um nova era, na qual o diabo terá ainda mais influência do que já possui hoje. Mas isso será apenas por um curto espaço de tempo!

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