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Águas fortes regam a nobreza

Matéria publicada em 20 de julho de 2018, 22:41 horas

 


Artigo

Maurette Brandt

Cabelos esvaídos, sorrisos rebrilhados, lágrimas confundidas, ternos empapados. Um aguaceiro inesperado e muito típico de verões escaldantes varreu o Estádio Lujniki em Moscou, bem na hora da premiação final da Copa do Mundo 2018.

Se o campo fosse uma aquarela gigante, a chuva nada miúda teria o poder de talvez dissolver, ou pelo menos misturar, os sentimentos e emoções que aconteciam em cada quadrante da área. Gente que rebentava de felicidade e, logo adiante, olhos que pareciam ter parado no espaço-tempo de uma quase vitória. Gestos de uma beleza de dar orgulho, como os abraços sinceros do técnico francês Didier Deschamps em cada um dos integrantes do time croata. E sentimentos de nos fazer chover, como os que denunciava o olhar profundo de Zlatko Dalic, o técnico croata, de amplitude visível mesmo através das lentes das câmeras de TV.

Nas arquibancadas, como sempre acontece, tristeza e alegria são irmãs ariscas, uma em torno de quem vence, outra consolando o vencido. É assim no futebol e na vida, mas em Copa do Mundo dói mais para quem lutou até o fim, depois de atravessar bem mais que sete mares para disputar uma final dessa envergadura.

Os croatas trouxeram alegria e versatilidade ao campo, mostraram muita força e um espírito de equipe de dar inveja. A nobreza que os ensopa, neste momento, é mais forte que a chuva. E no meio deles está o menor e maior símbolo de luta, dentre tantos: Luka Modric, o valente capitão de olhos tristes e ar de desamparo. Olha para o chão enquanto o alto-falante o convida a subir ao pódio para receber a Bola de Ouro como melhor jogador da Copa. Passa pelos abraços com humildade e grandeza, aparentemente tão misturado quanto a chuva que manchou a mágoa, e recebe o carinho da presidente do seu país, Kolinda Grabar-Kitarovic, presença constante nos jogos da seleção.

Lembro do rosto de Modric diante da grande área, ao perder o pênalti contra a Dinamarca. Através dos seus olhos atônitos, enxerguei a Croácia inteira. Foi um instante, mas o que senti me pareceu durar anos. Não posso imaginar na pele o que aquele povo passou, durante os anos de conflito, e quão duras foram suas conquistas, mas o olhar do aparentemente frágil Modric me comunicou coisas indizíveis. De certa forma, me comprometi com ele ali – e passei a torcer pelo improvável que se confirmaria naquela e em mais duas partidas. Croácia elimina a Dinamarca, desfazendo a maldade do experiente Jorgensen, e dando a Modric a chance de marcar e comemorar a vitória. Croácia passa pela Rússia e vence a Inglaterra. Croácia na final. Surpresas de guerreiros, coisas do futebol, mas que bom ver a garra e a nobreza de mãos dadas, emoldurando aquele time.

Consagrado, estrela do Real Madrid, adorado por tantos,  Modric, na equipe croata, é mais um: luta ombro a ombro, coloca sua sabedoria a serviço de todos, não “soa” desigual. Modric é o seu povo, transfigura-se nele, vence e perde com grandeza – a mesma que salta aos olhos nos movimentos ritmados do goleiro Subavic, na defesa de um Vida, na agilidade de um Kalinic, só para citar alguns.

Enquanto a chuva abençoava os rostos radiantes dos franceses, vencedores com mérito e competência, a nobreza croata rebrilhava em meio à mesma água. Molhados e cheios do papel picado que se colava à pele e à camisa, os croatas demonstravam uma dignidade sob a tristeza, uma elegância interior incomum, principalmente num momento como aquele.

Hora das medalhas do segundo lugar. O time francês forma um corredor para que os adversários subam ao pódio, marca de respeito e reverência.  Mais chuva, mais lágrimas, mais beleza para guardar no coração, antes da entrega da Taça e da festa da França.

No futebol, assim como na vida, fica a certeza de que uma vitória ou uma derrota nem sempre são capazes de explicar tudo.


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