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Christina Koch e a vida no espaço

Matéria publicada em 27 de fevereiro de 2020, 08:23 horas

 


Recorde mostra a diferença entre a ficção e a realidade; Koch passou 328 dias a bordo da Estação Espacial Internacional

O recente recorde espacial, conquistado pela astronauta americana Christina Koch, mostrou que a realidade ainda está muito longe dos filmes de ficção. Koch passou 328 dias a bordo da Estação Espacial Internacional. Vivendo em módulos fechados e abarrotados de instrumentos que lembram mais o interior de um submarino. E, quando retornou a Terra, teve que sair da nave carregada devido a longa exposição à ausência de gravidade.
Compare isso com a estação espacial mostrada no clássico “2001: Uma odisseia no espaço”, de 1968. Naquela época o diretor do filme, Stanley Kubrick, consultou especialistas da Nasa, a Agência Espacial Americana, para saber como seria a vida no espaço, no ano 2001. Que era o futuro distante no final dos anos sessenta. Uma olhada no filme, que está disponível em DVD e na internet, mostra como eles erraram feio.

Christina: A ceia de Ano Novo da estação internacional

A Estação Espacial Um, do filme, é um verdadeiro hotel espacial, dirigido pela rede Hilton. Ela tem a forma de uma roda que gira duas vezes por minuto para que a força centrífuga crie uma gravidade artificial a bordo. Chegando da Terra o visitante entra no salão de observação e bar, que é um luxo só. A decoração é toda branca, contrastando com as poltronas vermelhas. As “djinn chairs” que foram criadas pelo designer francês Olivier Morgue, em 1965. O local é amplo e espaçoso e os visitantes podem saborear um drinque em copos e taças de vidro.
Compare isso com a ceia de Ano Novo a bordo da Estação Espacial Internacional. Na foto aí ao lado Christina Koch (de cabeça para baixo) e seus colegas de tripulação flutuam sem peso enquanto a comida tem que ficar presa em cima da mesa para não flutuar. Líquidos só em tubos e garrafas plásticas. As comidas são papas e sopas acondicionadas em sacos plásticos. E nada de tortas ou bolos que podem esfarinhar e espalhar partículas no ambiente sem peso.
Os viajantes espaciais de “2001” podiam ver a Terra girando enquanto comiam “comida de verdade” em um ambiente igual ao de qualquer hotel da Terra. A Estação Espacial do filme é cheia de janelas panorâmicas. Já a ISS só tem uma apertada cúpula de observação que parece mais a torreta de um submarino. Arthur C. Clarke, que escreveu o roteiro da Odisséia no Espaço, dizia que a Estação Espacial Internacional é tão bonita quanto um depósito de carros batidos. E lamentava que ninguém tivesse construído uma elegante roda espacial como a mostrada no filme.
Em matéria de transporte espacial também estamos longe da ficção. Christina Koch foi ao espaço e voltou dentro de uma cápsula Soyuz. Projetada pelos soviéticos na época da corrida lunar dos anos 60. O espaço interno não é maior que o interior de um fusca. E os tripulantes precisam usar roupas pressurizadas porque a coisa pode perder pressão a qualquer momento. Como no acidente que matou três cosmonautas russos em 1971. As plateias que assistiram “2001” deslumbradas, no distante inverno de 1968, jamais acreditariam que no ano de 2020 o principal meio de transporte espacial seria uma antiquada cápsula Soyuz.
Em 2001 os passageiros da nave Orion 3 contam com cinema de bordo, em telas planas, uma cabine espaçosa e os serviços de uma comissária de bordo. E podem ir ao espaço usando as mesmas roupas que usamos aqui na Terra. Será que algum dia a realidade vai alcançar a ficção de cinquenta anos atrás? Talvez, mas não vai ser na nossa geração.

 

Jorge Luiz Calife


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