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Conto: A sociedade do espetáculo

Matéria publicada em 19 de maio de 2015, 10:22 horas

 


Por alguma obra qualquer do acaso caiu em minhas mãos a foto de uma festa de aniversário antiga, de meados dos anos 70 possivelmente. Um bolo singelo no meio da mesa, garrafas de 600ml de tubaína, docinhos, uns poucos salgadinhos e não muito mais do que isso.
Quanta diferença!
Não faz muito tempo levei meu filho em um aniversário infantil e me assustei com a mega produção! Equipe de som, animadores, vídeo games interativos, gincanas… parecia um Cirque du Soleil for Kids. Até vídeo institucional do menino tinha. O projeto de gente já tinha mais estrutura de marketing que muita empresa mequetrefe por aí.
As festas de casamento também estão virando super produções. Câmeras, gruas, drones, trombetas, tenores, flores, pirotecnia. O casal nem conseguiu ainda um teto pra morar e dizima uma montanha de dinheiro em quatro horas de festa. Tudo bem, o dinheiro é do casal e gastam com o que bem entenderem. Esse é o ponto que menos importa.
Estamos adentrando uma era onde tudo virou evento. Talvez porque todo mundo agora tenha uma mídia para veicular a si mesmo. E então qualquer tolice cotidiana vira plataforma de divulgação. Acordou? Taca no Face. Vai dormir? Avise o mundo desse evento imperdível.
Isso me lembra alguns dos hábitos mais esdrúxulos da Monarquia Francesa, cujos súditos eram incentivados a admirar o despertar matutino dos Reis, como se fossem a personificação do Deus Sol na Terra.
Mário Vargas Llosa escreveu um livro recentemente em que fala da civilização do espetáculo em que nos transformamos.
Ainda que num tom indisfarçavelmente ranzinza (e mais pessimista do que eu considero justificável), o autor alerta para o risco de desaparecimento da “Cultura” tradicional, dragada pelas novas formas de difusão da arte e do conhecimento, desprovidas de densidade e conteúdo. Segundo ele, a transformação da Cultura em mero entretenimento está afastando as pessoas da reflexão verdadeira, agravada pelo fato de que cada vez mais as pessoas evitam a reflexão profunda em busca do prazer rápido e fácil do fast food cultural.
Não posso concordar na totalidade com os argumentos do livro. Querer compartimentar a cultura ou a arte em um modelo hermeticamente fechado é uma afronta ao próprio conceito de arte ou cultura, que, aliás, não cabem em nenhum conceito. Só com o distanciamento necessário poderemos avaliar o que vai sobreviver ao teste implacável do tempo. Não dá para cair na tentação de dizer que um óleo sobre tela seja necessariamente melhor do que uma ilustração digital. Qualquer uma das duas pode ser uma obra prima ou o mais absoluto lixo, físico ou digital.
Mas o autor é sagaz o bastante para detectar algo mais profundo, que é a busca desenfreada pela fabricação do espetáculo e pela celebrização de si mesmo, cujo símbolo maior é a febre dos selfies. Velocidade e vazio viralizados. É como se só pudéssemos ser felizes após a chancela pública dos nossos telespectadores virtuais.
Eu até gosto de pirotecnia e invencionice de vez em quando, mas tem horas que toda essa espetaculização do vazio me cansa e sinto falta daqueles aniversários antigos, regados a inocência e tubaína.
Vazios de espetáculo, mas cheios de alma.

Alexandre Correa Lima
(Especial para o DIÁRIO DO VALE)


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