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Conto: Heranças

Matéria publicada em 12 de maio de 2015, 06:33 horas

 


A saga humana sobre a Terra é uma das histórias mais fascinantes que eu consigo conceber.

Teorias e teologia à parte, tudo indica que já tenhamos andado curvados, dormido em árvores, povoado cavernas e cá estamos, decifrando taninos de vinhos envelhecidos, compondo jazz, escrevendo poesia, decodificando sequências de DNA e descobrindo formas de povoar planetas distantes.

Mas o que nos trouxe até aqui?

O biólogo Richard Dawkins, no livro “O Gene Egoísta”, sustenta uma tese da Sociobiologia, de que somos máquinas programadas para passar nossos genes adiante e tudo o que fazemos está orientado para essa finalidade. Há evidências científicas dessa missão biológica natural. Muito do que somos hoje deriva dessa busca inconsciente. O pavão criou indumentárias cintilantes para passar seus genes adiantes. Animais inventaram rituais de acasalamento para passar seus genes adiante. Talvez não gostemos de admitir, mas é provável que muito do que façamos hoje guarde relação, ainda que inconsciente, com essa saga biológica ancestral.

Muitas evidências, poucas certezas. A biologia evolutiva ainda não conseguiu juntar todas as peças desse fantástico quebra cabeças. E é esse mistério que torna tudo ainda mais mágico. O fascínio da incompreensão.

Eu por exemplo, admito que cogitei seriamente não ter filhos.

Hoje tenho dois e não posso dizer o quanto minha vida ganhou em sentido e propósito depois da chegada desses dois pequenos que viram a casa do avesso.

A palavra transcendência ganhou um novo sentido. O futuro ganhou um olhar alongado. Eles são mais do que meus genes passados adiante. São a representação da infinidade da humanidade e do nosso poder ilimitado de renascer, evoluir e se perpetuar.

Mas conquanto seja quase inalcançável saber o que nos trouxe até aqui, é legítimo que nos perguntemos o que vamos deixar quando não estivermos mais aqui. A vida não pode, ou não deveria, se resumir a uma corrida por dinheiro, procriação ou prazer, mas a algo que tenha um mínimo de transcendência. A busca de um propósito maior é o que faz a vida valer a pena e o que nos diferencia das outras espécies (até onde sabemos).

O que faz alguém dedicar a vida a encontrar curas para doenças? A ajudar o próximo? A ensinar e a educar? A imaginar coisas que só o futuro verá nascer?

Qual o rastro de sua existência você irá deixar quanto partir daqui?

Vai deixar valores nos filhos?

Ou filhos que só pensam em valores?

Vai plantar uma árvore, escrever um livro, educar uma criança, viver um grande romance, salvar uma vida? Criar uma obra qualquer que sobreviva além da nossa limitada existência, nem que seja na memória de quem amamos?

Qual herança você pretende deixar?

Alexandre Correa Lima/ 

www.alexandrecorrealima.com/ [email protected]


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