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Conto: O dedo do destino

Matéria publicada em 5 de maio de 2015, 06:22 horas

 


As estatísticas não mentem (exceto quando os números são torturados) os homens vivem em média sete anos menos do que as mulheres. Dizem que é porque cultuam hábitos menos saudáveis. Há quem diga também que é porque homem é um bicho ogro que só vai ao médico quando não há mais jeito.

Não posso atirar a primeira pedra nos rins dos números.

Evitei o quanto pude, mas eis que o dia chegou. A gente faz quarenta, adia, faz quarenta e um esquece, faz quarenta e dois, deixa pra lá, faz quarenta e três, faz quarenta e quatro… até que um dia você não aguenta mais a mulher, a mãe, a empregada e a cachorrinha poodle falando na sua cabeça e então marca a fatídica consulta.

E ainda dizem que a vida começa aos quarenta. Começa a desmoronar.

Nos meus vinte anos achava a perspectiva disso cômica, dava risada e fazia piada. Lá pelos trinta comecei a nutrir uma esperança de que o avanço da medicina trouxesse, ao longo da década seguinte, a descoberta de alguma técnica menos invasiva de exame.

– Tome essa pílula que deixa sua próstata fluorescente para que possamos fotografá-la, Sr. Astolfo.

Lá pelos 36 eu comecei a vasculhar, como quem não quer nada, artigos médicos no Google, na esperança da redentora descoberta, mas nada.

Parece que esses cientistas indolentes se ocupam mais em descobrir vacinas contra pestes tropicais do que em mitigar um pouco a angústia e o sofrimento de milhões de homens de todo o mundo.

Na sala de espera uma legião de homens de cabeça baixa como quem vai para o abate, à exceção de um senhor com cara de escolado no assunto. Tento travar contato visual com esse veterano do ofício pra ver se consigo absorver um pouco de serenidade, mas sua fleuma é algo impenetrável. O terror está estampado no meu rosto feito tatuagem.

Três em cada quatro trazem a mulher a tiracolo. Ou talvez tenha sido a mulher que arrastou o bicho medroso até o consultório, esperando ao lado feito cão de guarda para que o covarde não pule em pânico pela janela da clínica.

Será que eu devia ter trazido minha mãe pra essa consulta?

A espera aumenta e a ansiedade piora. Passa pela sala um homem alto vestido de branco. Deve ser o médico.

A altura dele não é muito animadora. Preferia um anão com mestrado pela Faculdade de Medicina de Columbia. Os médicos altos deveriam ser encaminhados para a seleção de basquete da Unimed e renunciarem à Urologia, pelo bem da medicina.

Após mais de duas horas de atraso a recepcionista pede desculpas a todos, diz que surgiu um imprevisto e o doutor precisará se encaminhar ao hospital para uma cirurgia de emergência. Todas as consultas e retornos serão remarcados para a semana seguinte.

Respiro aliviado pela intercessão redentora do dedo do destino em minha vida. Se algum dedo tiver que interceder em minha vida, que seja o do destino.

De mais a mais, na velocidade da Medicina atual, que garante que não surge alguma técnica nova até a próxima semana?

 Alexandre Correa Lima  Www.alexandrecorrealima.com/ [email protected]


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