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Conto: O país das cigarras

Matéria publicada em 28 de abril de 2015, 06:30 horas

 


Era um belo domingo de sol e procurava uma farmácia, um dos poucos estabelecimentos que permanecem abertos nesse dia. Demorou até que a ficha caísse: várias outras lojas estavam abertas naquele domingo, lojas de quinquilharias, bolsas, calçados, utilidades domésticas, papelaria e pastelarias. Todas as lojas de imigrantes chineses.

100% das lojas dos poucos chineses abertas. 0% das lojas dos muitos brasileiros fechadas.

Sendo pragmático, é provável que nem se justificasse a abertura das lojas naquele domingo de pouca gente na rua. Desinteligência econômica. Mas a constatação foi um choque cultural tão grande que não pude deixar de me lembrar da fábula da cigarra e da formiga, em que a primeira passa o verão cantando e depois no inverno, com frio e fome, bate à porta da formiga implorando por abrigo e comida, que esta estocou após trabalhar sol a pino.

Nem tanto ao céu, nem tanto à formiga. O trabalho é fundamental e cantar feito uma cigarra nas tardes ensolaradas do verão é importante também. A vida se completa na sabedoria do equilíbrio. Mas é preciso convir que nossa inclinação natural será sempre para o lado cigarra da vida, então é preciso deixar nosso lado formiga alerta.

No fundo, tudo se resume a uma velha questão filosófica, mas de profundo impacto na vida: aproveitar o hoje ou turbinar o amanhã?

No clássico “Inteligência Emocional”, o escritor e psicólogo Daniel Goleman narra um experimento com crianças, no qual elas se deparavam com duas situações. Poderiam ter acesso imediato a um pirulito ou então esperar o final da aula para ganhar dois pirulitos. O estudo demonstrou que as crianças que eram capazes de controlar os próprios impulsos, optando pela recompensa maior “mais tarde”, se tornaram adultos melhor resolvidos e profissionalmente melhor sucedidos.

Mas no Brasil varonil, nossa inclinação para o estilo cigarra é flagrante.

Adoramos uma compra parcelada com juros extorsivos. Poupamos pouco. Consumimos muito. Desconfiamos do trabalho e do sucesso (em alguns casos até justificadamente). Entre a iniciativa própria e a assistência pública tendemos à segunda opção. A própria derrocada econômica de sucessivos governos mostra muito dessa faceta. Nos anos de bonança e euforia nos esbaldamos comemorando, e depois não temos dinheiro pra pagar a conta da festa.

O passado nos condena. Quantas vezes já vimos esse filme no Brasil? Faz pouco tempo éramos incensados como a nova estrela da economia mundial. Celebramos feito cigarras e não fizemos o trabalho de formiga que teria nos deixado mais fortes e competitivos para um crescimento contínuo e de longo prazo. Agora chegou a conta pra pagarmos.

A gente não poupa, tem desconfiança da meritocracia, acha que trabalho é castigo e tem certeza que a culpa é sempre “dos outros”.

Festejar é bom, mas se não conjugarmos potencial com trabalho de longo prazo estaremos condenados (e condenando as futuras gerações) a sermos perpetuamente o país do futuro.

Um futuro que nunca chegará.

  Alexandre Correa Lima / www.alexandrecorrealima.com / [email protected]


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