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CONTO

Matéria publicada em 26 de maio de 2015, 10:18 horas

 


O diário de um magro

Nasci privilegiado. Não, não nasci milionário nem em berço de ouro. Nem tampouco lindo de morrer, talvez um pouco pelo contrário. Olhos e nariz grandes, queixo pequeno, um rosto redondo que não orna com um corpo comprido e magro. Pudesse manipular previamente os 23 pares de cromossomos que me deram origem e arrisco dizer que faria melhor, ou menos pior. Mas como não sou Deus, nem geneticista, e a vida real não tem photoshop nem “Ctrl+z”, a solução foi me acostumar logo com o projeto mal acabado que o espelho insistia em me mostrar toda santa manhã.
O fato é que na infância e sobretudo durante toda minha adolescência, fui magro, muito magro. Parecia que toneladas de Sustagem se transformavam inexplicavelmente em pele e ossos. Nada surtia efeito naquele teimoso corpo franzino.
Isso foi particularmente ruim na adolescência, quando nossa autoestima é um lixo, e queremos parecer fortes para disfarçar outras fraquezas e temores típicos da época. Para piorar, fui adolescente nos anos 80, quando não tinha havia a menor possibilidade de um magricelo ser considerado cool ou charmoso. Uma merda.
Mas vingança é um prato que se come frito. Porque eu amo comer… como, como, como e não engordo. Banana com mel? Manda pra dentro! Meia arroba de picanha no espeto? Tudo bem, desde que venha com um prato de maionese e outro de arroz. Feijoada de madrugada? Sussa. Tanto faz o que eu coma ou não coma, ou como coma, o resultado na balança é virtualmente nenhum. Bendito defeito glandular.
Tenho engordado em média 1,8 quilos a cada ciclo de 10 anos, o que projeta que eu vou ser um obeso mórbido lá pelo meu aniversário de 139 anos… ou seja, basta ligar o botão do dane-se e comer a vontade.
Tenho diversos amigos que enfrentam severas restrições alimentares por problemas com o sobrepeso, e sei que não é fácil a vida deles, tendo que se privar dos prazeres da mesa, sempre sob a ameaça assustadora da indomável balança.
E é por isso que hoje, desencanado do trauma de uma infância e adolescência esqueléticas, eu celebro ainda mais a minha abençoada magreza, principalmente porque eu amo comer. No meu caso, Deus deu asas pra quem é louco por voar.
Comer é uma das minhas principais fontes de motivação e prazer. E uma das raras coisas a abalar meu (quase sempre) estável senso de humor. Calculo que 83,7% dos maus negócios que já fiz na vida (e olha que não foram poucos), aconteceram entre meio dia e 2 da tarde, quando provavelmente meu estômago impaciente ditou a decisão. (Espero que meus clientes não estejam lendo isto!).
Nas minhas viagens, enquanto meus amigos acumulam postais e compras, eu acumulo almoços e jantares. Dentre o rol de momentos memoráveis nas minhas andanças, quase invariavelmente tem alguma refeição no meio deles.
– Alexandre, olha essa foto aqui que eu tirei daquele museu sensacional!
– Legal, então olha essa foto aqui que eu tirei daquela Moqueca Capixaba divina!
E não precisa ser apenas pratos exóticos ou sofisticados não (embora eu possa gostar de ambos), o que me atrai é a singularidade da experiência.
Olha, é mais ou menos isso aí que vocês leram, espero que tenham saboreado o que escrevi. Agora se me dão licença eu vou encerrar porque estou começando a ficar impaciente. É a fome, me chamando para o melhor momento do dia.
Bom apetite!

Por Alexandre Correa Lima
(Especial para o DIÁRIO DO VALE)

www.alexandrecorrealima.com
eu@alexandrecorrealima.com


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