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Crônica: Miragens na cafeteria II

Matéria publicada em 11 de maio de 2015, 06:26 horas

 


– Manuel, por favor, o de sempre.

– Deixa comigo!

Sentei-me no fundo da cafeteria, na verdade essa é uma mistura de livraria, cafeteria e restaurante, chamado também como bistrô. Saquei da minha bolsa um livro e comecei a degustá-lo, esse que eu estava lendo era incrível, houvera sido escrito com sangue, sim, com sangue. Essas escritas são as melhores para mim, me tiram o chão, me obrigam a pensar por mim e sempre me trazem um desconforto amável.

– Aqui está!

– Obrigado! – Manuel, a propósito, sem querer te incomodar, mas posso lhe fazer uma pergunta?

– Claro!

– Por acaso já sofreste pela vida?

– Pergunta difícil essa em. Olha, vou ser sincero com o senhor, eu já sofri demais na vida. Minha infância foi dura, tive que começar a trabalhar aos 8 anos de idade para ajudar minha mãe em casa. Nós morávamos no interior, lá no sertão, sabe! Não foi fácil, mas graças a Deus nós vencemos. Depois de um tempo eu vim pra cidade grande, quando cheguei aqui a coisa foi preta no início, não tinha dinheiro pra nada e o pouco que arrumava, ainda tinha que mandar pra minha mãe.

Arrumei esse trabalho onde já estou há quase 15 anos, não penso em sair, apesar de não estar muito bom. Tenho dois filhos, consegui comprar uma casinha lá na comunidade e minha mulher agora conseguiu voltar a estudar.

Em meio as dificuldades da vida agente vai caminhando né! Fazer o quê?!

– Nossa Manuel, você é um guerreiro em! Cabra arretado! Parabéns pelas suas conquistas e sucesso.

Ele voltou todo feliz para o seu posto, talvez pelo fato simples de ter contado um pouco de si para outro. Mas eu queria mesmo saber de Manuel era se ele teria em algum momento sofrido pela Vida, ou seja: aquela sede por viver intensamente, de aproveitar a cada segundo de sua existência, sabendo que ela é curta e como um sopro.

Fiquei pensando nisso tudo por horas sentado ali e observando tudo e todos. Manuel que passava pra baixo e pra cima toda hora atendendo os clientes, sem nem um minuto poder descansar, ele pensava, farei isso quando chegar em casa!

As pessoas que entravam e saiam tinham em seus rostos uma felicidade estampada, bebiam, comiam e jogavam conversas ao vento e Manuel ficava no canto só observando e esperando ser chamado. Talvez ele ficasse a pensar: por qual motivo não estou eu também ali sentado, me deleitando também nesses prazeres. Pensamento interrompido lá se vai ele mais uma vez, e outra e mais outra.

As horas se foram e eu nem percebi, estavam se aprontando pra fecharem a casa, levantei-me daquele lugar e veio ele ao meu encontro e me disse: boa noite para o senhor, obrigado por me fazer respirar por pelo menos 5 minutos hoje, lhe aguardo amanhã em!

– Abraço Manuel, bom descanso! Aqui está um presente pra você. E dei a ele o livro que estava lendo.

Impávido ele me deu um abraço e sorriu como nunca o tivesse feito. Sai, e fui pra casa desejando toda a felicidade ao Manuel.

Geisler Vanil Alves da Silva/ [email protected]


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