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Crônica – O aniversário de Dona Mercedes

Matéria publicada em 4 de junho de 2018, 07:10 horas

 


Ontem, foi o aniversário de dona Mercedes. As cinco amigas mais chegadas resolveram lhe fazer uma surpresa. Chegaram às 5 horas da tarde a sua casa com muita coisa para a comemoração.

Quando dona Mercedes abriu a porta, ainda de papelote nos cabelos e com uma camisola velha, as “meninas” já começaram a cantar os parabéns meio desencontrado.

– Nossa, por que não me avisaram? Olha o estado em que me encontro. Não esperava nem os filhos que telefonaram dizendo que tinham compromisso e que não viriam. Mas entrem e fiquem à vontade, pois vou ver se troco de roupas e solto os cabelos.

E assim entraram dona Cleonice, com o bolo, já avisando que era light e diet sem perigo para nenhuma delas, pois tinha certeza de que pelo menos duas do grupo seriam diabéticas. Claro que, por um pouco de orgulho, nenhuma se manifestou. Era uma torta de frutas, mas sem creme nenhum e sem glacê, por causa da gordura.

Dona Nadir emendou:

– Eu trouxe torta salgada, mas com o mínimo de maionese e mesmo assim, maionese para idosos, queridas. Podem comer à vontade. Aposto que aqui tem mais de um banheiro. Sorriu meio amarelo, buscando apoio das outras que não acharam graça nenhuma.

Dona Jacira, a mais velha, viera com a empregada pois trouxera os refrigerantes e estes eram pesados para ela.

– Tudo diet também, só trouxe um normal , por via das dúvidas vai que alguma de vocês não tome estas drogas de refrigerantes zero.

– Põe lá na geladeira, que estou me arrumando. Vão sentando aí, ou preferem lá na varanda dos fundos?

Não, pode esfriar e estou meio constipada, respondeu dona Antonina que havia trazido os salgadinhos e acrescentou que todos eram assados. Não fizera nenhum frito para evitar problemas futuros. Ainda fez uma brincadeira comentando sobre o colesterol da turma que somado bateria um recorde qualquer…

Por último entrou dona Clotilde com a Bené e uma quantidade de coisas para se comer que parecia que iriam ficar abrigadas num lugar qualquer, por semanas, esperando algum furacão americano que tivesse desviado de rota e passasse por ali. Acrescentou:

– Como estou com tudo em cima, trouxe tudo normal para quem quiser enfiar o pé na jaca e sair destas horrorosas dietas pelo menos por algumas horas…

Dona Mercedes, que a esta altura já estava pronta, sem esquecer as duas rodelinhas de rouge que costumava fazer na sua face muito branca e enrugada, a recebeu dizendo:

– Você, Clotilde sempre hilária querendo ser pândega. Sabe que todas temos um probleminha qualquer. Só você esconde o seu. E assim colocaram a mesa com a ajuda da Bené, das empregadas de dona Jacira e a da casa.

Começaram a comer. primeiro, as coisas sem gosto, mas sempre dizendo umas às outras que aquilo estava supimpa, uma maravilha. Melhor do que as que elas faziam quando novas.

As idades variavam pouco: dona Mercedes estava completando 80, dona Jacira tinha 81, ou 79, ainda, como ela gostava de dizer, desde os 79 verdadeiros. Havia parado de contar. Dona Cleonice, 71, mas com rostinho de 50, dizia sempre exibindo a plástica que fizera com o dr Pitangui. Um acontecimento muito falado naquela época na cidade. Saiu até na coluna social do jornal local. Dona Nadir, professora de catecismo voluntária, tinha uma idade meio indefinida, mas todas juravam que beirava os 80 também, mas se recusava a falar disso. Achava deprimente e dona Antonina 70, redondinhos como dizia. O grande mistério era a idade de dona Clotilde que ela não dizia nem à força. Quase fizeram um bingo para descobrirem mas, em respeito à amiga deixaram pra lá.

Acomodaram-se. Dona Nadir propôs fazer uma oração pela amiga e algumas disseram que fosse coisa rápida, nada de terço, se não, não acaba hoje. Ela prometeu, mas não cumpriu e acabou fazendo uma reza quase metade de um rosário.

Começaram as conversas e era um caminhão de recordações que pareciam nunca mais acabar. Depois de beliscarem as coisas leves para a idade, caíram de boca nos quitutes de dona Clotilde sem se preocuparem com a diverticulite, a prisão de ventre, o fígado e outras envelhecidas e preguiçosas partes do corpo. Havia uma certa melancolia no ar, coisas da idade. Todas evitavam falar de assuntos como terceira idade, melhor idade ou algo parecido. Falavam de visitas a Aparecida do Norte, de bailes a que iam de vez em quando e outras histórias engraçadas. Cantaram os parabéns, fizeram as mesmas piadinhas de sempre, as da quantidade de velas, as de se no ano que vem estarão todas juntas, até mesmo qual delas partirá primeiro. E a noite caiu. Despediram-se e se foram. Dona Mercedes sentou-se meio feliz, meio amarga, olhando os restos de felicidade que ficaram sobre a mesa.

Enquanto Dalva ia limpando ela ia fazendo desfilar em seu pensamento, como um filme em 3 d toda sua vida. Muita saudade. Muita lembrança, mais lembranças que valeram a pena do que não. Ainda bem, concluiu. Tomou um banho, enrolou novamente os cabelos com seus papelotes e foi dormir, depois de tomar seu bromazepan noturno. Dormiu cedo. Acordará mais cedo que de costume, mais velha ainda. Amarga, com medo da morte, cada vez mais próxima, como pensava..

Ernani De Melo Mazza

MEMBRO DA ACADEMIA DE ACADEMIA DE ARTES, CIÊNCIAS E LETRAS DO BRASIL


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