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Crônica: O Molho

Matéria publicada em 6 de abril de 2015, 06:34 horas

 


Ela pegou a faquinha, amolou na beirada da pia e foi devagar para o quintal pegar um pouco de cebolinha e de salsa. O feijão preto já estava pronto. Feijão do bom deu um caldo de chocolate, comentou comigo. Era como ela costumava elogiar o feijão de boa qualidade.

Caldo de chocolate…

Cortou o cheiro verde bem fininho, colocou num prato bem fundo. Para mim, era prato, na minha visão infantil, para ela, molheira. Por cima acrescentou dois ovos bem cozidos, cortados em rodelas, uma colher de azeite.

O azeite daquele tempo cheirava longe, tinha muito sabor.

Pingou algumas gotas de pimenta de cheiro. Umas pimentas redondinhas, vermelhas bem perfumadas e pouco ardidas. Na sua terra tem nome de pimenta de bode.

Depois de tudo arrumado, feijão levemente socado com soquete de madeira para  engrossar mais, ela despejou três conchas do caldo fervendo, passando por uma peneira, sobre tudo e o molho ficou pronto.

O cheiro inundou a casa atingindo nossos estômagos que se não roncaram, ficaram excitados, eufóricos.

Agora, era só fazer o prato, tirando tudo das panelas de ferro, em cima do fogão à lenha: arroz, branquinho, cheirando suavemente a caldo de galinha, angu de fubá de pedra, o fubá feito em casa, couve cortada, mais fina impossível, por aquelas mãos de fada e o feijão levemente coberto com farinha torrada. Podíamos escolher farinha de milho ou de mandioca. E para coroar, o molho que estava fumegando e um pouco mais grosso por ter dissolvido uma pequena quantidade das gemas.

Não sei dizer o que era melhor, o cheiro, o gosto ou a alegria de minha avó materna, vó Leônia, me vendo comer. Gostava de brincar com ela inventando palavras e novos tratamentos: às vezes a chamava de dona Vovó. Ela ria muito.

Já havia começado, quando ela saiu com passinhos apressados, rindo muito de felicidade e dizendo para eu esperar, pois tinha esquecido os torresmos.

Voltou com uma travessa cheia de amor e brincou dizendo que eram camarões mineiros. Os mais secos e crocantes torresmos que já comi em toda minha vida. Eles tinham o tempero do amor de vó.

Nada mais especial.

Era tímida. Diante de qualquer elogio, abaixava os olhinhos, carinhosamente, como se dissesse sempre:

– Obrigado, meu neto. Não mereço tanto.

Depois do “banquete” o doce de cidra, ralada, levemente amarga, feito com rapadura no lugar do açúcar.

Agora, era correr para a cama e dormir gostoso, enquanto ela cochilava sentada, uma de suas manias.

Isto tudo acontecia, sempre.

Aconteceu hoje, num sonho de saudade. Delicioso como o molho de feijão com ovos cozidos e pimenta de cheiro.

A vó se foi para o céu fazer seu divino molho para os que merecem.

O cheiro da saudade ainda permanece comigo.

Vai permanecer para sempre no meu coração.

Ernani Mazza – [email protected]


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