quinta-feira, 13 de maio de 2021 - 16:41 h

TEMPO REAL

 

Capa / Lazer / Dupla francesa revisita em HQ o fim de líder soviético

Dupla francesa revisita em HQ o fim de líder soviético

Matéria publicada em 6 de abril de 2015, 06:36 horas

 


Por Folhapress

Em uma Moscou sombria e sombreada, notas de um concerto de Mozart e palavras em uma carta raivosa causam a morte do líder soviético Joseph Stálin (1879-1953). A União Soviética, aterrorizada, assiste então à disputa pelo poder.

Não foi bem assim que a história aconteceu de fato, mas o recurso narrativo dá força às primeiras páginas do gibi “A Morte de Stálin”, publicado no Brasil pela editora Três Estrelas, do Grupo Folha.

Para além de um retrato da época, os anos 1950, essa HQ traz uma discussão historiográfica. O posfácio, escrito pelo historiador Jean-Jacques Marie, elogia justamente os desvios feitos pelo roteirista francês Fabien Nury na hora de narrar à morte de Stálin.

Para Marie, há uma diferença entre a autenticidade dos fatos e a autenticidade do olhar. O olhar, escreve, permite recompor a história para revelar sua essência.

Nury acredita nisso.

– Tive de simplificar a maioria dos fatos. Me livrei de alguns personagens que eram muito insanos para serem críveis – diz em entrevista à reportagem.

– Mas nada foi inventado – acrescenta.

A carta recebida por Stálin, por exemplo, é real. Mas chegou em outro momento. O comitê que se reúne após a morte dele, por outro lado, tem oito membros, e não sete, como na HQ.

– Tirei um deles para simplificar o processo de votação – afirma.

– Eu escrevo ficção histórica. Não é um documento, o leitor está avisado. Tenho de ‘parecer’ real, e não ‘ser’ real – fala.

É mais sobre as emoções do que sobre os fatos, diz Nury. Por exemplo, a cena do concerto, que abre o gibi, é incluída porque lhe parece ser “a melhor maneira de mostrar o terror de obedecer a um tirano ou morrer”. Os músicos tocam, nessa HQ, para agradar ao ditador.

Exceto a pianista, que se recusa.

– Você não pode forçar alguém a fazer arte. Essa é uma ideia bonita. A arte é uma forma de resistência – diz.

O resultado da adaptação de Nury lhe rendeu loas. Foi bem recebido no mercado, vencendo o prêmio Châteu de Cheverny de melhor gibi no festival Encontros com a História, em Blois.

O jornal francês “Le Monde” escreveu que é “uma referência para os que são fascinados pela noção de ‘verdade’ à maneira soviética”.

O gibi é resultado também do traço pesado do artista Thierry Robin, que desenhou “A Morte de Stálin” em um eficiente jogo de sombras.

– Os tons escuros são importantes para dramatizar a história. É humor, mas é humor negro – afirma.

Mesmo antes de conhecer Nury, Robin vinha se preparando para o projeto. Havia começado uma biografia em HQ de Stálin, cujas páginas rascunhadas aparecem no fim do gibi como um extra.

– Foi um bom treino para decidir meu estilo. Mas era um projeto imenso, e parei – diz.

– Quando a editora Dargaud me convidou para este gibi, eu já conhecia os detalhes da época – finaliza.

 ‘A Morte de Stálin’

Autores: Fabien Nury e Thierry Robin

Tradução: Paulo Werneck

Editora: Três estrelas

Preço sugerido R$ 49,90 (150 págs.)


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)
Untitled Document