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Ensaio entrelaça vida e obra de Philip Roth

Matéria publicada em 9 de março de 2015, 06:38 horas

 


Por Folhapress   

 

“O que está sendo feito para calar esse homem?”, perguntava um indignado rabino de Nova York, em 1959, quando Philip Roth surgia com seus provocativos textos que expunham a vida judaica nos Estados Unidos.

– Os judeus estavam genuinamente assustados com o que Roth escrevia. Muitos tinham chegado aos EUA havia não tanto tempo e as feridas da Segunda Guerra seguiam abertas – conta à reportagem Claudia Roth Pierpont (sem parentesco), autora de “Roth Libertado”.

O ensaio biográfico cobre a carreira do escritor desde “Adeus, Columbus” (1959) até “Nemesis” (2010). A análise literária se entrelaça com a também novelesca vida de Roth, considerado hoje o mais importante autor norte-americano vivo.

Pierpont, que escreve para a “New Yorker”, conheceu Roth numa festa, em 2002. Começaram, então, uma relação de amizade que tinha a troca de escritos como principal mote.

– Sugeri gravar nossas conversas. Em pouco tempo, vi que já tinha um livro – fala.

Questionada sobre sua proximidade com o personagem, Pierpont disse que seu trabalho não é uma biografia autorizada. “Ele não viu nada antes de ser publicado.”

De fato, apesar do tom elogioso ao descrever grande parte das obras, Pierpont não se furta a fazer críticas ou ir ao detalhe em passagens biográficas mais sensíveis.

É o caso do trágico laço do autor com Maggie Williams. Para Pierpont, “o casamento literário mais destrutivo e influente desde Scott e Zelda Fitzgerald”. Para convencer Roth a casar-se com ela, Maggie forjara um exame positivo de gravidez usando urina tomada de outra mulher.

– A degradação dessa união teve reflexo no modo como se relacionaria com as mulheres e como as retrataria em sua obra – diz Pierpont.

 

PRAGA

 

Após o sucesso e o escândalo causados por “O Complexo de Portnoy” (1969), Pierpont conta que Roth quis afastar-se da fama de escritor obsceno. “Ele não queria que as pessoas continuassem a vê-lo como um pênis ambulante.” No romance, Roth conta a história de um adolescente judeu que se masturba de forma quase ininterrupta.

A busca o levou então a Praga, onde escreveu um ensaio ficcional que Pierpont considera fundamental para a fase seguinte de sua carreira. Em “‘I Always Wanted You to Admire My Fasting’; or Looking at Kafka” (sempre quis que você admirasse meu jejum; ou olhando para Kafka), Roth imagina o que aconteceria a Franz Kafka (1883-1924) caso tivesse sobrevivido à experiência nazista e, refugiado, fosse ensinar hebraico numa escola em Newark, onde Roth poderia ter sido seu aluno.

– A reflexão que fez nessa viagem foi fundamental para criar Nathan Zuckerman, ‘alter ego’ presente a partir de ‘O Escritor Fantasma’ (1979) – conta.

“Roth Libertado” ainda examina as fitas em que o então presidente Richard Nixon surge preocupado com seus escritos e o flerte que o escritor teve com Jackie Kennedy.

Revela, ainda, que apesar da imagem de rebelde e de “pirata literário”, Roth tem um senso de autoproteção tão grande que os amigos fazem troça do fato de não largar seu frasco de álcool gel.

Aposentado e às vésperas de completar 82 anos, Roth tem agora dado entrevistas ao escritor Blake Bailey, designado para escrever uma extensa biografia autorizada, prevista para ser publicada daqui a dez anos.

 

‘Roth Libertado’

Autora: Claudia Roth Pierpont

Tradução: Carlos Afonso Malferrari

Editora: Companhia das Letras

Preço sugerido R$ 52,90 (480 págs.)


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