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Guia de leitura: Uma tradução lamentável para a odisseia no espaço

Matéria publicada em 18 de novembro de 2019, 09:25 horas

 


Erros primários detonam com a versão brasileira da obra prima do Clarke

No ano passado a obra prima da ficção cientifica cinematográfica completou 50 anos. Foi em abril de 1968 que o filme “2001: Uma odisseia no espaço” teve a sua estreia cinematográfica, deixando o público e a crítica confusos e deslumbrados. Originalmente “2001” seria um filme muito didático, com uma narração explicando todos os detalhes da trama. Também teríamos um prólogo onde cientistas famosos nos campos da antropologia, astronomia e computação discutiriam os temas do filme. Tudo isso foi eliminado quando o diretor decidiu criar uma obra de arte onde a imagem substituiria as palavras.
Para consolo dos fãs Clarke explicou tudo na novelização do roteiro, que, independente de sua conexão com o filme, é um grande romance de ficção espacial. Talvez um dos melhores já produzidos. O livro saiu no Brasil em 1969 pela Editora Expressão e Cultura, em uma tradução impecável de Stella Alves de Souza. Que conseguiu captar todo o lirismo do texto original, sem mudar nenhum detalhe da parte técnico-científica.
Infelizmente a nova edição, da editora Aleph, teve uma tradução desastrosa, feita por um tradutor traidor que não sabe o básico sobre astronomia ou astronáutica. E, portanto, nunca deveria ter aceito esse trabalho. Na página 105, onde o Clarke reproduz um estudo do Serviço Geológico Americano sobre a cratera Tycho, onde fica o monolito, a tradução diz que Tycho tem 3600 km de profundidade! O tradutor não parou para pensar que se a Lua tem 3400 km de diâmetro não poderia ter uma cratera de 3600 km de profundidade. Na verdade, no texto original e na tradução de 1968, as medidas estão em metros!
Na página 239, onde Clarke descreve os anéis de Saturno, o texto que saiu pela Aleph fala em cristais de gelo com mil km! Seriam luas e não cristais de gelo se tivessem mil quilômetros. O texto do Clarke fala em miríades de cristais de gelo refratando a luz do Sol. Não cristais de mil quilômetros.
E na nova introdução que Clarke escreveu para a edição do milênio ele relembra o resgate do satélite Palapa pela equipe do ônibus espacial Discovery. E conta como o astronauta Joe Allen interrompeu a rotação do satélite com os jatos da mochila MMU. “To check” em inglês que pode ser frear ou verificar. Saiu como verificou na edição da Aleph.
E, por último, na tradução do conto Sentinela o personagem diz que não encontrou vida inteligente no nosso Universo. Clarke nunca diria isso, ele sabia que mesmo que tivéssemos naves como a Enterprise nunca chegaremos a conhecer uma fração minúscula do Universo. O texto original diz que não encontrou vida inteligente no nosso sistema solar.

 

Jorge Luiz Calife

 

Desastre: Clarke foi poupado de ver o que fizeram com seu livro


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