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‘Toma Rock’: A bandeira em boas mãos

Matéria publicada em 30 de julho de 2017, 09:00 horas

 


Programa na rádio Transamérica, do Rio de Janeiro, será comandado pelo voltarredondense Bruno Azevedo

O dia 5 de agosto ficará registrado como um marco da resistência do rock no cenário nacional. Na contramão do que impõe o mercado, a Transamérica (101,3 FM) do Rio de Janeiro vai lançar o “Toma Rock!”. Com um detalhe: o programa será comandado por Bruno Azevedo, que sempre foi um fervoroso defensor do bom e velho rock’n’roll. Radialista que iniciou sua trajetória em transmissoras da região, Bruno tem boa parte de sua história ligada a Volta Redonda. Agora no Rio, mantém a origem roqueira com a mesma pegada com que fez uma bela carreira no jornalismo esportivo. Sem dúvida a bandeira do rock está em boas e conhecidas mãos na rádio.

 

DIÁRIO DO VALE – Quando começou sua ligação com o rock e quando ela se tornou uma paixão?

Bruno Azevedo – Eu tinha 13 anos de idade e na televisão o comercial de um show do Kiss me chamava a atenção. Eram aqueles caras mascarados, tipo história em quadrinhos, que iriam tocar no Maracanã. O ano era 1983 e decidi que iria ao show. Com a certeza de que meus pais não iriam permitir, arrumei o pretexto de ir para a casa de uma tia que morava na Rua Haddock Lobo, na Tijuca. Consegui autorização e, de lá, presenciei um show que marcou minha vida pra sempre!

Depois disso, fiz aulas de contrabaixo e toquei com algumas bandas em Volta Redonda. Cheguei a viajar para apresentações em cidades como Miguel Pereira, Angra dos Reis, Belford Roxo e Nilópolis. Era tudo muito amador, mas extremamente prazeroso!

 

DV – E sua história com o rádio?

Bruno – Convivo com o rádio desde minha adolescência. Meu tio, Dario Azevedo, é radialista e trabalhou nas rádios Siderúrgica, Nacional e Sul Fluminense. Em 1994, recebi o convite de um grande amigo, João Dalbone, para apresentar, com ele, um programa na Rádio do Comércio, chamado Arte na Geral. Tinha duração de uma hora aos sábados e tratava basicamente da biografia de roqueiros nacionais. Ao fim do contrato, pedi ao dono da rádio, meu querido Peninha, que me deixasse ficar na emissora. Foi quando ele me apresentou ao saudoso Jorge Farat, que chefiava a equipe de esportes. Foi ali que iniciei minha trajetória como repórter esportivo. Depois disso, fui para a rádio Sul Fluminense, onde fiquei por 13 anos, até aceitar convite do amigo Eraldo Leite para dirigir a Rádio Globo Macaé. Em 2012, o amigo Jorge Eduardo (ex-Rádio Globo Rio) me chamou para integrar a equipe da Bradesco Esportes (Band), comandada pelo Garotinho José Carlos Araújo, com quem migrei posteriormente para a Rádio Transamérica, onde estou até hoje.

 

DV – Como surgiu a ideia de montar o programa sobre rock?

Bruno – Na verdade, a ideia não partiu de mim. Estava na rádio em uma tarde de quarta-feira do mês de junho (não lembro o dia), quando conversava com o coordenador artístico Renato Edde. Dizia a ele que faltava na emissora músicas voltadas para o rock. Então ele me disse que a Transamérica de Brasília estava com um programa, autorizado pela Rede, chamado ‘Toma Roque’. Aí o cara vai e diz: “Estamos querendo trazer esse programa para o Rio, e você será o apresentador”. Era tudo que eu queria ouvir! Atirei no que vi e acertei no que não vi!

 

DV – Fale sobre a expectativa de unir dois de seus maiores prazeres com o novo programa?

Bruno – Cara, isso é muito louco! Como eu disse antes, cheguei a apresentar com um amigo um programa parecido, só que há 23 anos e sem o mínimo de preparo. Hoje, modéstia à parte, tenho uma estrada considerável, intimidade com o microfone e, acima de tudo, um amor incondicional pelo rock. Minha expectativa é a melhor possível, até porque o programa, mesmo sendo voltado para um rock mais tradicional, tem recebido apoio de gente amiga do rock nacional, como Evandro Mesquita, Rodrigo Santos, Fernando Magalhães, Toni Platão, George Israel, Arnaldo Brandão… Enfim, tem uma galera que está comprando a briga com a gente. E é essa pluralidade roqueira que vai fazer a diferença!

 

DV – O rock vive um momento de baixa nas rádios nacionais. Você está indo na contramão do que costumamos chamar de “gosto popular”. Por outro lado, pode se beneficiar por não ter tantos concorrentes no quesito ritmo. Pode falar sobre esses dois lados da moeda?

Bruno – Boa pergunta! O Rio perdeu recentemente a Rádio Cidade, que era segmentada para o público do rock’roll. Hoje a cidade é órfã de rádios de rock. Temos a Kiss, que é retransmitida de São Paulo, com sotaque paulista, jeito paulista, comerciais paulistas e notícias de trânsito das marginais Tietê e Pinheiros. Só que estamos no Rio, uma cidade com seus próprios e muitos problemas, suas casas de shows, seu jeito singular de boemia e, acima de tudo, uma infinidade de empresários do ramo dispostos a investir em um nicho carente na Cidade Maravilhosa.

 

DV – Em 2015 o sertanejo tinha 75 das 100 músicas mais tocadas no ano em rádios do Brasil. Das restantes, nenhuma era rock. Espera reverter esse quadro ou apenas criar uma trincheira entre os amantes do ritmo?

Bruno – Não tenho a pretensão de fazer o rock virar moda entre os cariocas, até porque moda vai na contramão de qualquer roqueiro. Em primeiro lugar, quero me divertir nessa empreitada porque amo essa coisa de guitarra, batera e baixo. Mas é claro que quero evoluir essa experiência profissionalmente. Em um futuro muito próximo, pretendo promover festas com a chancela do Toma Rock e da nossa casa, a Transamérica. Por mais que a galera se esconda ou esteja sem espaços, o público do rock é imenso e carente de bons programas, de rádio e de vida!

Bruno Azevedo: ‘Vamos revelar muita gente boa’ (Foto: Arquivo pessoal/Divulgação)

Bruno Azevedo: ‘Vamos revelar muita gente boa’ (Foto: Arquivo pessoal/Divulgação)

DV – Acha que é possível reverter esse cenário? Como?

Bruno – Não pretendo reverter nada. Quero apenas colaborar com um cenário esquecido pela mídia, mas que tem importância gigantesca na história cultural e política do Brasil. Quem viveu os anos 80 sabe como o rock contribuiu para quebrar tabus e ajudar uma galera que herdou um ranço pesado da ditadura no país. Se vier alguma coisa além, é lucro!

 

DV – O que o público pode esperar em termos de bandas e estilos de rock?

Bruno – Cara, o programa será uma espécie de leque do rock. A gente vai dar espaço para a galera antiga e para a turma que tem coisas boas para mostrar. Não quero engessar o trabalho. E fico feliz da Transamérica me dar essa liberdade. Aliás, rock sem liberdade vira fora Dilma sem fora Temer.

 

DV – Você reconhecidamente é fã de bandas clássicas, mas haverá espaço para novas bandas? Acha importante abrir esse espaço?

Bruno – Claro! Realmente minha pegada vai muito para bandas como Kiss, Iron Maiden, AC/DC, Led Zeppelin…, mas quero inovar. Desde que o convite para apresentar e dirigir o Toma Rock surgiu eu venho estudando coisas novas na internet e, confesso, estou me surpreendendo positivamente. Além disso, antes de setembro iremos iniciar um concurso de bandas cariocas pela cidade. Vamos revelar muita gente boa. Pode anotar!

 

DV – Há um certo preconceito entre fãs do rock com demais ritmos que dominam ou dominaram as faixas das rádios nos últimos tempos. Como vê isso e acha que esse fenômeno atrapalha um pouco a frequência do rock no dial?

Bruno – O roqueiro é exigente e geralmente ganha fama de arrogante por isso. Mas isso não atrapalha a divulgação do rock. No Brasil, boas bandas como Barão Vermelho, Titãs, Inocentes, Plebe Rude e muitas outras tiveram seu espaço porque isso interessava à mídia. Hoje o rentável é ‘Despacito’ e afins. O mercado não tem gosto, tem ganância!

 

 

Por Rafael Paiva

rafael@diariodovale.com.br


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