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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

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Empreendedorismo de impacto social cresce no Brasil

Matéria publicada em 16 de julho de 2018, 10:18 horas

 


Startups agregam desenvolvem trabalhos destinados a falta de serviços básicos (crédito AB)

Bras√≠lia – Empreender para promover cidadania e resolver um problema social e ambiental. Este prop√≥sito tem motivado o surgimento de v√°rias organiza√ß√Ķes e startups, empresa de inova√ß√£o e base tecnol√≥gica, que conjugam os resultados financeiros √† gera√ß√£o de benef√≠cios para uma comunidade carente de servi√ßos b√°sicos, como educa√ß√£o, sa√ļde, moradia, emprego e outros.

O foco deste tipo de empreendimento, conhecido como neg√≥cio de impacto, est√° na base da pir√Ęmide social brasileira, composta, principalmente, por classes menos favorecidas. No Brasil, cerca de 168 milh√Ķes de pessoas integram as camadas com faixas de renda mais baixas, segundo o √ļltimo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat√≠stica (IBGE).

Foi com o olhar nesta popula√ß√£o que Kdu dos Anjos iniciou o projeto ‚ÄúL√° da Favelinha‚ÄĚ, no Aglomerado da Serra, maior comunidade de Belo Horizonte (MG), com 150 mil habitantes. Apaixonado por livros, o ator de teatro e cantor de rap montou inicialmente uma biblioteca popular em um pequeno espa√ßo, que acabou se transformando num ponto de forma√ß√£o educacional, cultural e gerador de renda para as fam√≠lias da comunidade.

No ritmo do passinho e com as rimas do rap, a organização cresceu promovendo eventos, oficinas, apresentação de artistas locais, palestras e vendendo roupas produzidas na região. Atualmente, cerca de 70 famílias têm renda a partir das atividades realizadas pela Favelinha, que também serve de apoio para encaminhar jovens para o mercado de trabalho formal.

‚ÄúPor que investir na periferia? Hoje, 65% das crian√ßas est√£o na periferia. Os resultados est√£o incr√≠veis, desde o resultado social, do amor, da crian√ßa que j√° reprovou tr√™s vezes e hoje em dia √© a melhor aluna da escola. Foi toda uma quest√£o de empoderamento e v√°rias fam√≠lias est√£o gerando renda, gente que s√≥ tinha o tr√°fico ou o subemprego como destino‚ÄĚ, relata Kdu dos Anjos.

Panorama

O Brasil tem 17 milh√Ķes de pequenos neg√≥cios, que representam 99% do total de empresas do pa√≠s, 52% dos postos de trabalho e contabilizam 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do pa√≠s, segundo o Servi√ßo Brasileiro de Apoio √†s Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Dentro deste universo, houve crescimento, nos √ļltimos dez anos, do n√ļmero de neg√≥cios de impacto no Brasil e no mundo.

Levantamento do Sebrae em parceria com o Programa das Na√ß√Ķes Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) identificou mais de 800 neg√≥cios de impacto social em todo o pa√≠s. Boa parte dos novos neg√≥cios que prestam servi√ßos sociais e geram desenvolvimento econ√īmico √© startups.

‚ÄúVoc√™ pode ter um neg√≥cio que j√° existe h√° anos, que tem um modelo de gest√£o tradicional, mas que ao mesmo tempo gera um impacto. Agora, os que est√£o surgindo hoje, a grande maioria s√£o startups, s√£o jovens que come√ßam a olhar para a base da pir√Ęmide como uma oportunidade pra tamb√©m atender um anseio de contribuir pra uma causa‚ÄĚ, explica C√©lio Cabral Sousa J√ļnior, gerente nacional de Inova√ß√£o, Tecnologia e Sustentabilidade do Sebrae

Os neg√≥cios de impacto social tem movimentado cerca de US$ 60 bilh√Ķes em n√≠vel global e registrado aumento aproximado de 7% ao ano, segundo levantamento da Ande Brasil (Aspen Network of Development Entrepreneurs), uma rede de empreendedores de pa√≠ses em desenvolvimento.

Ainda de acordo com a entidade, em outra pesquisa feita com a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), foram alocados US$ 1,3 bilhão em investimentos de impacto na América Latina em 2014 e 2015. O Brasil foi o segundo maior mercado da região.

Desafios

Com a premissa de gerar lucro e melhorar a qualidade de vida da população, os negócios de impacto tem crescido no Brasil sob vários desafios. Os principais problemas enfrentados pelos empreendedores sociais foram debatidos durante o Startup Summit, primeiro evento nacional sobre empreendedorismo de inovação e tecnologia realizado em Florianópolis, nos dias 12 e 13 de julho.

A definição de um modelo de negócio, a falta de um marco legal específico para o negócio de impacto social e a forma de atração e captação de recursos foram os principais pontos levantados pelos especialistas e empreendedores sociais.

‚ÄúEsta √© uma agenda nova, mas a gente quer muito mais empreendedores de impacto social no Brasil, seja pelos problemas que a gente visualiza todo dia, mas principalmente pra pensar como √© que voc√™s podem trazer solu√ß√Ķes inovadoras para resolver os problemas sociais no Brasil‚ÄĚ, disse C√©lia Cruz, economista e diretora do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), organiza√ß√£o que articula empres√°rios e investidores em torno de inova√ß√Ķes sociais.

A especialista apontou que os principais atores da oferta de capital do pa√≠s atuam por meio de doa√ß√Ķes ou investimentos diretos e defendeu que o movimento deve crescer com a l√≥gica de um neg√≥cio que gere impacto de forma inovadora e ao mesmo tempo tenha performance e sustentabilidade financeira.

C√©lia destacou ainda a import√Ęncia de atrair a popula√ß√£o-alvo para o desenho dos neg√≥cios e de mensurar por meio de indicadores o impacto real do investimento. A organiza√ß√£o atua ainda no fortalecimento de intermedi√°rios, que podem ser fundos de investimentos ou universidades.‚ÄúA gente acredita muito no papel da universidade para formar talentos que j√° nascem com essa cabe√ßa de impacto e performance financeira‚ÄĚ, afirmou.

O ICE formou recentemente a Alian√ßa pelos Investimentos e Neg√≥cios de Impacto, que gerou 15 recomenda√ß√Ķes para o Brasil avan√ßar no apoio ao empreendimento social. A Alian√ßa √© a representante brasileira na rede global formada por 18 pa√≠ses que tamb√©m est√£o atuando por pol√≠ticas de desenvolvimento do setor.

Educação política

Outra organiza√ß√£o que tem se destacado no empreendedorismo social no Brasil √© a ‚ÄúPolitize‚ÄĚ, que incentiva a√ß√Ķes de educa√ß√£o e cultura pol√≠tica. Idealizada por Diego Calegari, que se envolve com causas sociais desde os 17 anos de idade, a Politize atua desde 2014 com o objetivo de gerar conhecimento sobre pol√≠tica de uma forma f√°cil em diferentes canais.

‚ÄúSempre quis trabalhar com atividades que me conectassem com um prop√≥sito, que de alguma maneira me fizesse sentir que meu tempo, minha energia, minha hist√≥ria estavam sendo usados para uma causa maior. E escolhi uma causa que √© pouco comum, a pol√≠tica, uma √°rea bastante √°rida, que desperta sentimentos negativos na maioria das pessoas‚ÄĚ, conta Diego.

Depois de tr√™s anos no mercado, a Politize tem 14 milh√Ķes de usu√°rios, uma m√©dia de 2,8 milh√Ķes de acessos por m√™s e disponibiliza mais de 1,3 mil conte√ļdos educativos em podcasts, v√≠deos, infogr√°ficos, textos e cursos, entre outro recursos. A organiza√ß√£o desenvolve tamb√©m uma estrat√©gia offline, por meio da atua√ß√£o de mais de 80 embaixadores que visitam escolas, comunidades, universidades para falar sobre pol√≠tica e democracia de forma descontra√≠da e did√°tica.

‚ÄúA rea√ß√£o √© muito interessante, porque n√£o √© s√≥ uma transforma√ß√£o de conquista do conhecimento formal, mas de como a gente emocionalmente se conecta com pol√≠tica, deixando de ser algo feio, ruim, que se associa √† corrup√ß√£o, pra algo extremamente necess√°rio pra vida de cada um de n√≥s‚ÄĚ, explica.

O empreendedor se queixa que no Brasil ainda h√° confus√£o deste tipo de neg√≥cio com filantropia e que o retorno social ainda √© pouco vista como uma oportunidade de neg√≥cio. Ele tamb√©m critica a quest√£o jur√≠dica de defini√ß√£o das empresas que atuam nesta √°rea e a falta de profissionalismo do setor, que carece muitas vezes de metas, estrat√©gias de gest√£o e condi√ß√Ķes para capacitar e remunerar a equipe.

‚ÄúA gente v√™ um setor social muito informal ainda, muito na base da ajuda. Trabalho volunt√°rio √© sensacional, importante, mas existe um limite do que d√° pra fazer como volunt√°rio. As pessoas que est√£o se dedicando √† causa tamb√©m precisam viver. Esperar que todo o trabalho social seja feito somente por voluntariado √© um equ√≠voco e limita muito o impacto de organiza√ß√Ķes que tem um trabalho muito legal‚ÄĚ, analisa Diego.

Estratégia Nacional

Os principais atores do novo mercado se aproximaram do governo federal para conseguir apoio para o setor e criaram um grupo de trabalho composto por representantes de sete minist√©rios, entre eles o de Desenvolvimento Social (MDS), da Ind√ļstria (MDIC), do Planejamento, al√©m de organiza√ß√Ķes como PNUD, Sebrae e potenciais financiadores como o BNDES, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Caixa Econ√īmica, Banco do Brasil, entre outros.

O grupo elaborou a Estrat√©gia Nacional de Investimentos e Neg√≥cios de Impacto Social (Enimpacto), que pretende em 10 anos melhorar o ambiente de desenvolvimento das solu√ß√Ķes sociais e promover iniciativas de inclus√£o deste tipo de neg√≥cio na cadeia de valor das empresas.

Além de participar desta estratégia, o Sebrae desenvolve projetos em oito estados do país. A instituição oferece apoio aos empreendedores desde a concepção da ideia do empreendimento até a estruturação, validação do modelo de negócio e no processo de busca por investidor que possar dar o suporte necessário não só financeiro, mas também na gestão empresarial.

‚ÄúSe a gente compara o Brasil com outros pa√≠ses, o n√≠vel de investimento que a gente tem em neg√≥cios de impacto √© muito aqu√©m do potencial que a gente teria. Um Brasil com 200 milh√Ķes de habitantes, com uma base da pir√Ęmide formada sobretudo por comunidades de baixa renda, temos um volume enorme de pessoas que podem ser beneficiar disso, ou seja, o mercado √© enorme e tem muito a avan√ßar‚ÄĚ, afirmou C√©lio.

Segundo o gerente, o Sebrae tem um or√ßamento de R$ 45 milh√Ķes para aplicar em fundos de investimentos em startups. A expectativa √© que parte desses recursos sejam alocados diretamente nos neg√≥cios de impacto social e ambiental. O gerente afirmou tamb√©m que v√°rios fundos privados de investimentos tem demonstrado interesse na √°rea e tem desenvolvido linhas direcionadas para empresas com objetivo social.

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