sábado, 19 de outubro de 2019

TEMPO REAL

 

Capa / Opinião / A identidade do país e do governo

A identidade do país e do governo

Matéria publicada em 13 de maio de 2019, 22:54 horas

 


Gaudêncio Torquato

 

A análise política trabalha com dois conceitos para interpretar fenômenos ligados aos protagonistas da política, sejam pessoas físicas ou jurídicas, políticos ou governos: identidade e imagem. O primeiro se refere à índole dos protagonistas, seu caráter, programas e ações, o que verdadeiramente representam; já a imagem é a projeção da identidade, significando a percepção que deles têm os cidadãos, a maneira como as pessoas vêem os integrantes da esfera política.

A identidade do Brasil, por exemplo, abriga um conjunto de elementos, dentre os quais o tamanho do território, suas riquezas naturais, a natureza de sua população, os ciclos históricos, as tradições e costumes, enfim, tudo que possa realçar o porte do país. Convido o leitor a construir na mente o mapa da identidade da Nação brasileira. Da mesma maneira, tente imaginar a identidade do Estado e município onde mora. Faça uma comparação com outros entes federativos. E pense na questão: os governos do Estado e do país correspondem efetivamente à dimensão dos territórios que governam?

Escolhamos, a título de melhor associação de ideias, o governo Bolsonaro. Sem intenção de diminuir seu peso na balança da análise política, cresce a percepção de que a identidade do governo é baixa em relação à altura do Brasil. É como se o país medisse um metro de altura e a administração Bolsonaro apenas cinquenta centímetros. Conclusão: falta muito governo para cobrir o real tamanho do nosso território continental.

O que causa tal sentimento? Vamos lá: a crise interna entre grupos, a ideologização que gera conflitos, o despreparo de perfis, a extrema relevância que se dá ao guru da família Bolsonaro e até mesmo o baixo nível na linguagem usada por protagonistas. Eis o que disse durante a semana a ministra dos Direitos Humanos: “a Funai tem de ficar com mamãe Damares, não com papai Moro”. Assim a titular da pasta de Direitos Humanos fez apelo para conservar sob sua órbita a Fundação Nacional do Índio. Já o horoscopista elogiado pelo presidente e agraciado com o maior galardão do Itamaraty é o recordista no uso de palavras chulas.

Ora, há uma liturgia do poder, que obriga participantes da esfera governamental a adotar posturas condizentes com o cargo, o que inclui o uso de expressão conveniente. O que se constata é a “infantilização” da linguagem (essa de Damares) ou os adjetivos sacados do pântano por figuras que posam de heróis. O próprio Bolsonaro faz afirmações que fogem à régua da liturgia presidencial.

A sensação de um governo menor deriva também do fato de se fazer trocas (ou criação) de áreas – Coaf da Justiça para a Economia, Funai em negociação, política industrial saindo da Economia para Ministério da Tecnologia, renascimento de ministérios – não por questões de escopo técnico, mas por conveniências de natureza política. Diminuir poder de um e passar a outro. Onde está o tão propagado compromisso de evitar o “troca-troca”, o “toma lá dá cá”?

Espraia-se a percepção de que a administração não é operada dentro de critérios técnicos. A taxa de improvisação é alta. Há ilhas de qualidade, como é o caso da equipe econômica comandada pelo ministro Paulo Guedes ou o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, mas o arquipélago governamental é povoado de perfis sem densidade/experiência na área em que atuam.

Qual é, afinal, a coluna vertebral do governo? O barulho maior se dá em torno da reforma da Previdência. Mas a questão fiscal-tributária assola os Estados e não há indicações de saída para equilibrar os entes federativos. O improviso está no ar. A principal embaixada do Brasil no mundo, a dos Estados Unidos, não tem titular. O chanceler espera que um conselheiro seu amigo seja promovido a embaixador para nomeá-lo ao cargo.

O “índice de coisas estabanadas”, que poderíamos designar doravante como ICE, tende a se expandir. E a esfacelar a identidade do governo Bolsonaro. Não à toa, forma-se em nossa cognição a ideia de que o Brasil tem um governo menor que sua grandeza exige.

 

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

8 comentários

  1. Avatar

    “…Diminuir poder de um e passar a outro. Onde está o tão propagado compromisso de evitar o “troca-troca”, o “toma lá dá cá”?”
    A política (no Brasil) é assim se quiser apoio. O jornalista está estranhando como qualquer outro que pouco entende de política.

    Interessante1 que não se toca no assunto da exigência de cargos por parte dos politiqueiros para votar nas reformas.
    Interessante2 é ele analisar o governo perdido nos critérios técnicos, mas o jornalista esquece que o Lula não teve nenhum. Ele não conhecia os critérios do Lula para estar surpreendidos agora.

    Menos curioso no assunto e mais Cientistas Políticos para análises políticas. Sem mais.

  2. Avatar

    Cada dia o autista demonstra o grau de alienação ao mundo real .

  3. Avatar

    Quem já votou no careca,colorido ,príncipe da privataria,santo duas vezes e no Aebrio,falar que o mito é o menos pior é uma constatação de uma mente com sinapses e bainhas de mielina em processo de putrefação.

  4. Avatar

    O menos pior, Kkkkkkkkkkkkkkkkk, então os outros …,…..

  5. Avatar

    Eu concordo sempre com Gaudêncio Torquato, pois faz análises muito pertinentes sobre o momento político brasileiro!
    Jair Bolsonaro pode não ser o presidente dos sonhos, contudo, com todos os candidatos apresentados para a disputa presidencial, ele era o menos pior!

    • Avatar

      Ele é jornalista. Sendo assim eu fico com o Paulo Moreira que se apoia em base melhor para os assuntos que escolhe.

  6. Avatar
    Carlos Magno de Oliveira

    O Brasil é o quinto maior país em extensão territorial, os quatro maiores que a nossa nação são potencias mundiais em avanços tecnológicos, segurança territorial, projetos em benefícios para a população e supremacia administrativa.
    Nosso Brasil deixou de avançar democraticamente, culturalmente e industrialmente a partir do entreguismo causado pela irresponsabilidade causada pelo golpe militar em 1964 com a destituição do governo João Goulart, que assim como hoje, usam desculpas fantasiosas de tendências ideológicas de esquerdas para afastarem a possibilidade de independência econômica e alcançarmos a verdadeira soberania como nação.
    Hoje, como no passado estamos sendo governado para atender interesses do sistema financeiro internacional que nada mais são do que agiotas que emprestam recursos, dominam governos, mídia e parques industriais e consequentemente corrompem e manipulam as mentes daqueles que infelizmente contribuem para manter a colonização da América Latina.
    Para que nosso país se desenvolva e se torne respeitável internacionalmente, precisamos de mudanças radicais no modo de pensar e agir de nossa população, precisamos eleger pessoas de caráter, capacitadas, corajosas e com projetos bem definidos para impormos um “NÃO” aos interesses dos banqueiros que nos extorquem com a impagável dívida pública que nos tira possibilidades de investimentos em saúde, educação, segurança, habitação humanizada e infraestruturas em geral, e isto nunca iremos conseguir com governos produzidos para atender nações que nos exploram há 55 anos, ou seja, nestas últimas 5 décadas este país foi totalmente desgovernado e dependente em tudo e agora pior ainda com este despreparado e atual presidente e seus assessores.

  7. Avatar

    Governo pequeno com pessoas pequenas .

Untitled Document