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O casamento da Mentira com o Azar e o nascimento da Política

Matéria publicada em 18 de outubro de 2018, 22:05 horas

 


Uma forte discussão sobre “em quem devemos votar?” domina as rodas de conversas dos brasileiros nos últimos dias. O Brasil está às portas das eleições presidenciais, em algumas regiões também para eleger seus governadores, e as conversas que envolvem o tema não diminuem com a aproximação do dia de votação, só aumentam. Como rabino, ao longo do ano é normal que eu fale sobre política, mas como estamos sob uma atmosfera eleitoral, é preciso se policiar ao mencionar o nome de um candidato, afinal não é função de um sacerdote se envolver com esse clima e sim do cidadão. E para desempenhar o papel de cidadania e votar com consciência no segundo turno, a literatura judaica nos inspira a seguir um caminho para escolher os futuros governantes.

Devido a origem judaico cristã do mundo ocidental, os relatos bíblicos têm uma riqueza muito grande nos ensinamentos éticos e morais, da infância a maior idade no Brasil. Um desses episódios, conhecidos por todos, é o do dilúvio e a arca de Noé.  A partir dessa história é possível descobrir a qualidade que deve guiar nossa escolha.

O relato conta que Deus teria cansado de observar a capacidade que o homem tinha de fazer o mal. De, ao invés de usar seu potencial para desenvolver o mundo e a sociedade, usava para travar o avanço e cometer crimes, desrespeitos e atrocidades, colocando em xeque a criação da humanidade. Neste período, apenas Noé foi considerado justo, sendo um exemplo para recomeçar a vida na terra em modelo pautado na ética e na moral. Por esses motivos foi escolhido para construir a enorme arca que garantiria a sobrevivência dos homens e dos demais seres vivos.

Noé ficou 120 anos construindo a grande arca. O objetivo da construção era simples: fazer com que as pessoas se questionassem sobre o que estava sendo construído e assim tivessem a oportunidade de serem salvas da destruição. O construtor não foi bem sucedido nesta missão, afinal, como todos sabem, na enorme embarcação só entraram a família do construtor e os pares de animais. Noé salvou mais animais que homens!

A literatura judaica ainda diz que, após conduzir todos os animais e sua família para dentro da arca, Noé ouviu alguém bater na porta do lado de fora. A esperança de ser bem sucedido em sua missão reacendeu: “será que mais alguém se arrependeu e vou conseguir salvar uma vida? Essa batida pode significar um grupo enorme querendo se redimir”. Mas encontrou somente a Mentira pedindo para entrar. O escolhido pensou que, já que foi entregue em suas mãos o trabalho de reconstrução do mundo, faria questão de impedir que algo ruim entrasse neste novo mundo. A mentira, ao ser barrada, o acusou de não ser misericordioso e por esse motivo não salvar mais ninguém. Constrangido com a mea culpa que tinha colocou uma condição para entrar na embarcação: todos dentro estavam em par, e ninguém poderia embarcar de forma diferente. Uma saída brilhante por parte de Noé.

A Mentira então saiu em busca de alguém para casar e não demorou muito para retornar acompanhada, exigindo que Noé a deixasse entrar. Assim, a Mentira casou com o Azar e entrou na enorme arca. E por 40 dias e 40 noites Deus trouxe o dilúvio, de acordo com o relato bíblico. Nesse tempo o casal indesejado teve um filho, que foi chamado de Política.

Esse conto da literatura judaica ensina que onde há azar já houve mentira. Eles estão sempre juntos. Infelizmente se assiste hoje um bombardeio do que chamamos de Fake News. Todos os candidatos jogando pesado com esta arma. Não sabemos mais se o que lemos e o que ouvimos são fatos ou se são construções de informações para estabelecer uma realidade. Não tem como dizer por quanto tempo a mentira se suporta, às vezes um ano, cinco, uma década, mas uma hora ela cai, e cai por meio do seu filho política.

A realidade é que não se sustenta nenhum plano de ação pautada na mentira, porque o azar casou com ela. Devemos ter em mente que o político que tem origem na mentira, traz o azar dentro de sua vida. Portanto, elegemos aquele que está mais comprometido com a verdade. Esse é o combustível que deve direcionar o nosso voto na urna. Esse, para mim, é o maior divisor de águas e que levo no momento que vou eleger alguém.

 

O Rabino Samy Pinto é formado em Ciências Econômicas, se especializou em educação em Israel, na Universidade Bar-llan, mas foi no Brasil que concluiu seu mestrado e doutorado em Letras e Filosofia, pela Universidade de São Paulo (USP).


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Um comentário

  1. O PT se diz vítima de ‘fake news’! Isso seria engraçado, se não fosse trágico! O PT não precisa ser vítima de ‘fake news’, pois o PT é vítima da sua história de destruição da democracia durante os treze anos e meio em que ficou no poder central!
    O Haddad se diz democrata, no entanto, Haddad não é democrata, pois já escreveu no twitter que : “A revolução que acontece na Venezuela, é sem dúvidas uma conquista que deverá ser exemplo para todos os países! Parabéns Maduro! Estamos juntos!” O Haddad escreveu isso em 13 de Outubro de 2014!

    Como diria o jornalista Boris Casoy: “Isso é uma vergonha!”…

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