terça-feira, 13 de novembro de 2018

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O fim de um ciclo

Matéria publicada em 4 de novembro de 2018, 21:39 horas

 


A eleição presidencial de 2018 foi histórica em muitos aspectos e talvez seu resultado possa mudar o rumo da, ainda jovem, democracia brasileira.
O primeiro aspecto que devemos observar é que o Partido dos Trabalhadores (PT) participou de todas as eleições diretas para presidente desde 1989. Sempre foi uma participação de protagonista, ficando em 2º lugar em 1989, 1994, 1998 e 2018 e vencendo em 2002, 2006, 2010 e 2014. Isto não é de se desprezar, afinal o partido foi fundado em 1980 e sua estrutura surgiu de uma inusitada união entre intelectuais acadêmicos de esquerda e uma forte base sindical. Operacionalmente, para alcançar uma rápida capilaridade, usou, entre outras estratégias, a rede das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica (CEB’s). Com isso, tomou conta das periferias, sempre muito carentes, das grandes cidades. Na década de (19)80 o país já dava muitos sinais de cansaço e esgotamento do regime militar, instaurado em 1964. Além disso, na economia, a década de 80 foi conhecida como a década perdida, com baixíssimo crescimento. Há de se reconhecer, politicamente falando, que ninguém soube aproveitar melhor essas condições que o PT. Sendo oposição e perdendo, nas eleições de 1989, 1994 e 1998, chegou ao poder em 2003 permanecendo até o final de 2015, quando se iniciou o processo de impeachment da então presidente, Dilma Rousseff. Em 2018, o PT chegou mais uma vez ao segundo turno, mesmo em condições muito adversas, pois seu principal dirigente político está preso desde abril.
O segundo aspecto é que tivemos o improvável surgimento da candidatura de um ex-capitão do Exército que se tornou deputado federal em 1990 e sempre foi, em sua vida pública, um opositor ferrenho do PT. Destacou-se mais pelo seu tipo de comunicação, severo e autoritário, do que pelos seus feitos parlamentares. Na verdade, Jair Bolsonaro nunca usou uma estrutura partidária. Em sua vida parlamentar, já passou por oito partidos, o que prova que o sistema político brasileiro está desgastado, é anacrônico e não representativo. Com seu discurso de extrema-direita, de ordem e progresso e de liberalismo econômico, um parlamentar sem dinheiro, sem apoio partidário, sem tempo de televisão, sem apoio da mídia, baseando sua comunicação com os eleitores via mídias sociais, derrotou os maiores partidos brasileiros de forma inapelável. PSDB e PT, que protagonizaram as eleições por vinte anos, enlameados por muitos escândalos de corrupção e desgoverno, foram democraticamente rejeitados nas urnas.
A alternância de poder é saudável, mas infelizmente o poder corrompe. O PT, em certo sentido, foi vítima de seu próprio veneno. Encastelado no poder, esqueceu-se de suas origens, das periferias. Não promoveu nenhuma das reformas necessárias e seu populismo de esquerda levou o país à maior recessão de sua história. Paradoxalmente, o Partido dos Trabalhadores promoveu altas taxas de desemprego, um déficit fiscal gigantesco e a paralisia da economia. Parece que não queremos aprender com a história. As mesmas condições que levaram o PT do nada ao centro do poder, o derrubaram pela sua ganância, corrupção e distanciamento de suas origens. A história se repete. Esperemos, para o bem do país, que o fim seja diferente.

Celso Tracco é economista e autor do livro Às Margens do Ipiranga – a esperança em sobreviver numa sociedade desigual.


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3 comentários

  1. Mão Santa ex ídolo

    Guto abra seu negocinho que você sentirá saudades de mim.

  2. Governar é abrir empresas! Esse poderia ter sido o lema do PT no poder, pois em treze anos, a dupla criminosa Lula-Dilma, criou quarenta novas estatais no Brasil: de seguradora à empresa de logística; de laboratório de bio-tecnologia à canal de televisão…. Se funcionassem como empresa privada, que dependem apenas do próprio caixa para sobreviver, muitas delas teriam fechado as portas, pois operam no vermelho desde que entraram em operação!!! É o caso da SETE BRASIL, a empresa criada para produzir navios para a Petrobrás, que acomula prezuízos de 26 bilhões de reais e a TV BRASIL, a emissora pública criada em 2007, que acumula um rombo de 6 bilhões de reais!
    O Brasil apostou na velha idéia expansionista, usando investimento público, criando estatais, e aí houve um estímulo ao consumo como saída do país, ou seja, o país perdeu, pois além dessas empresas terem sido inviáveis, também aumentou o custo brasil, pois para funcionar, as empresas tiveram que contratar pessoas humanas, ou seja, o número de funcionários das empresas públicas nas estatais cresceu de 35 mil em 2002 para 67 mil em 2016, ou seja, quase o dobro! O gasto com salários no mesmo período subiu de 1,5 bilhão de reais para 7,5 bilhões! O inchaço da máquina se estendeu para o poder executivo federal: o total de servidores o país saltou de 810 mil em 2010 para 1.080 milhão em 2015! Entre concursados e cargos de indicação política o PT criou em média 20 mil vagas por ano… Aja imposto para sustentar uma estrutura tão grande! Isso tudo levou à crise de 2013, a crise econômica fez com que o PIB caísse e chegamos à Maior Crise Econômica que o Brasil já teve!
    Espero que o novo governo Bolsonaro trate com respeito o dinheiro público, e não o use para empregar milhares de bolsonaristas na máquina pública! O dinheiro púbico deve ser usado para os brasileiros, e não para sustentar partidários políticos!
    Como diria o jornalista Boris Casoy: “Isso é uma vergonha!”…

  3. A nova história não terá a abrangência da passada e contrariando todas as previsões pode levar a velha história.

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