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Mais um indígena infectado com coronavírus é levado para Centro de Referência Covid-19

Matéria publicada em 26 de junho de 2020, 18:02 horas

 


Ao todo 300 indígenas moram na Aldeia Sapukai na região do Bracuí, em Angra dos Reis
(Foto: Arquivo)

Angra dos Reis– O vice cacique Aldo Fernandes, da Aldeia Sapukai, na região do Bracuí em Angra dos Reis, foi levado nesta sexta-feira, dia 26, para o Centro de Referência Covid-19, após testar positivo para o novo coronavírus. A médica cedida pela prefeitura, responsável pelo posto de atendimento de saúde da Aldeia, Carmen Vieira de Moraes, pediu a transferência do vice cacique, que é diabético, e mesmo assintomático precisa ter o estado de saúde avaliado na unidade.
– Os pacientes com comorbidades estamos dando a prioridade de descer [para o centro onde fica o hospital] estão sendo monitorados, todos com testes positivos e hoje estou descendo mais um porque ele é diabético e a saturação está caindo – contou a médica que trabalha com indígenas desde 1996.
Já o estado de saúde do cacique Domingos, de 69 anos, apresentou melhoras nesta sexta-feira, porém o estado dele ainda é grave. Já o indígena Idalino está com o quadro estável. Os dois estão internados no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) do Centro de Referência para Covid-19, que funciona no Hospital da Santa Casa, no Centro de Angra dos Reis.

Situação da aldeia é preocupante, diz médica

Esses casos não são os únicos na Aldeia Sapukai. A doutora Carmen disse que mais há mais de 40 registros do novo coronavírus na comunidade indígena. O número divulgado pela prefeitura na quinta-feira, dia 25, era de 30 indígenas infectados. Todos eles estão sendo acompanhados e monitorados pelo Departamento de Saúde Coletiva, por meio do Programa Especial de Saúde Indígena e Vigilância Epidemiológica do município.
Para a médica, é preocupante a situação da aldeia. Ao todo são 300 indígenas que moram em japiguás, termo indígena dado às unidades familiares, que concentram muitas pessoas. A aglomeração dificulta o trabalho de contenção da doença no local.
– As unidades familiares aqui são muito grandes, temos japiguás e em cada existem, pelo menos, de 15 a 25 pessoas morando no mesmo local. Isso torna o isolamento muito difícil e daí as estratégias criadas pela equipe de Saúde. Toda síndrome gripal é notificada. Nós entramos com medicação para tentar uma profilaxia e todos os pacientes são monitorados e o teste é agendado como se preconiza – relatou.
– Uma pessoa infectada que entrar em uma unidade familiar com 25 pessoas, se um for contaminado, passa para os outros e vai ter uma contaminação em massa. Só nos resta pedir para os outros não visitarem aquele japiguá. Já tivemos japiguás aqui em que as pessoas foram contaminadas, foram tratadas e hoje estão bem – disse.

Resistência ao isolamento

Segundo a médica, como ocorre nas cidades país a fora, nem sempre as várias orientações dos profissionais de saúde, são seguidas. Os indígenas recebem máscaras, álcool em gel, produtos de higiene e limpeza, mas é uma dificuldade respeitarem o isolamento.
– A única coisa que não conseguimos, mas isso não conseguimos nem no branco, o juruá, é convencer a todos, o que é uma coisa impossível, de não sair. Temos pacientes que são etilistas, são psiquiátricos, temos os jovens que estão rebeldes e cansados de ficar em casa. Então, eles descem vão para bares para jogar sinuca ou para beberem, ou trazem familiares para cá. Isso a gente não tem como tomar conta, apesar de todas as orientações – falou.

Atendimento médico na aldeia

O atendimento médico na comunidade respeita as características culturais dos indígenas, que consideram o pajé, como médico oficial. Ainda que seja dada uma medicação para o paciente, a equipe médica não tem certeza se ela está sendo seguida e se quando a pessoa vai ao pajé se ele também está usando máscara.
– Não pode dizer para ele não ir ao pajé agora e ir para a unidade de saúde. Não pode. Isso é da cultura deles, se não respeitar, a gente perde o paciente. Às vezes tem que conversar com o pajé, que a medicação do juruá vai cuidar da parte física e a dele da parte espiritual para fazer as duas coisas juntas e poder tratar – observou.
Segundo a médica, o pajé Márcio não foi diagnosticado com a doença e passa bem. Ele tem sido monitorado pela equipe médica.
– O pajé é uma autoridade médica dentro da cultura indígena – completou, destacando que tem recebido apoio da Secretaria Municipal de Saúde, inclusive na comunicação, porque o sinal de telefone no local nem sempre é bom.


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