sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

TEMPO REAL

 

Capa / Política / ‘Consciência Negra’: Vice-prefeita de Barra Mansa destaca políticas públicas contra o racismo

‘Consciência Negra’: Vice-prefeita de Barra Mansa destaca políticas públicas contra o racismo

Matéria publicada em 17 de novembro de 2019, 18:05 horas

 


Projeto ‘AfroSaberes’ é uma das iniciativas adotadas no município; Fátima Lima ainda mencionou que há um racismo estrutural no país

‘A sociedade precisa primeiro entender que existe preconceito para combatê-lo’, disse Fátima Lima
(Foto: Arquivo)

Barra Mansa– No mês da consciência negra, a vice-prefeita de Barra Mansa, Maria de Fátima Lima da Silva, em entrevista ao DIÁRIO DO VALE, destacou as políticas públicas contra a discriminação racial que vem sendo executadas no município, como por exemplo, o projeto Afrosaberes. Fátima, que é negra e professora de letras pelo UBM (Centro Universitário de Barra Mansa), acredita que é possível combater o racismo através da educação, dando visibilidade à cultura afro-brasileira através da ampliação e do conhecimento nas escolas. A lei federal 10.639/03 tornou obrigatório o ensino da história e cultura africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental ao ensino médio.
– A inserção da cultura afro-brasileira e da história dos africanos e afrodescentes, são obrigatórias, mas a lei por si só é fria. Preciso internalizar a lei em mim. Como gestora da educação, primeiro preciso trabalhar comigo mesmo porque se não a lei pode estar no conteúdo, mas não é trabalhada. Em Barra Mansa, com total apoio do prefeito Rodrigo Drable, nós temos trabalhado nas escolas, a partir de 2017 reativamos o projeto AfroSaberes, no qual desenvolvemos várias atividades, em parceria a Fundação Cultura e Gerência de Promoção da Igualdade Racial previsto no Sistema Municipal de Cultura – disse, acrescentando que o projeto Afrosaberes acontece durante todo o ano e oferta diversas atividades como seminários, debates, rodas de conversa com diferentes faixas etárias divulgando a cultura negra.
– Trabalhamos com os adolescentes e crianças, pois eles precisam olhar e se verem representados. Quando eles olham para a televisão eles conseguem enxergar alguém parecido com eles, isso melhora a autoestima. O processo de escravidão não somente atrapalhou a vida dos negros em todos os sentidos, mas principalmente no psicológico. A inserção de oficinas de tranças, de turbantes, tudo que é relacionado à cultura negra, é importante para eles entenderem que não pode ser contada a história dos negros só de um ponto de vista. Nós nem usamos mais o termo escravo, o povo negro foi escravizado. Ele não veio pra cá, ele veio trazido pra cá. Nós precisamos mudar esses parâmetros até mesmo a fala e a mudança que começa através da educação – disse.
A vice-prefeita comentou que há um racismo estrutural no país, que se reflete nos dias atuais por falta de elaboração de inclusão do negro na sociedade: “O que a gente vê hoje é resultado de uma não política para negros”, disse Fátima, ao comentar sobre os recentes casos de injúria racial na região. No mês passado na Vila de Trindade, em Paraty, um homem negro foi ameaçado de ser queimado vivo quando estava dormindo dentro do carro, ele chegou a ser agredido. Um casal é suspeito da tentativa de ataque à vítima, que é ajudante de padaria, e trabalha na Vila. A Polícia Civil de Paraty abriu inquérito para investigar o caso. A pena prevista para o crime de racismo e injúria racial é de três anos e não há fiança nem prescrição.
– Através de políticas públicas, principalmente educacionais, é que vamos combater o racismo. Nós temos que começar com as crianças a conscientização para que os pais se sensibilizem também. Acredito na educação para mudar essa pseudocultura da nossa história. Não foram elaboradas políticas públicas para a inclusão do negro na sociedade, simplesmente deixou a senzala e ocupou os lugares. O que a gente vê hoje é resultado de uma não política para negros. E como os negros foram trazidos da África escravizados somos vistos como inferiores, mas não somos. Muitos nos veem assim e desde essa época, esses olhares não mudaram, porque há necessidade de um trabalho muito sério. A sociedade precisa primeiro entender que existe preconceito, a sociedade é cada um de nós, quando fala que a sociedade é racista, mas eu não sou, nós somos a sociedade. Enquanto nós não olharmos o problema de frente não tem como combater, você vai combater uma coisa que não existe – refletiu.
Na opinião da vice-prefeita, a sociedade brasileira precisa aceitar a ancestralidade afro para virar a página do preconceito.
– No Brasil se a gente for fazer uma pesquisa científica não existe uma pessoa que não tenha a ancestralidade afro. Porque houve a miscigenação, mas o Brasil não se aceita miscigenado. O Brasil tem atitude que parece que estamos na Europa, parece que somos todos arianos. Se você não conhece a história do seu país, não tem como você formar uma opinião. Muitos não conhecem o processo de escravidão, o processo de abolição que está inacabado até hoje. Vocês não são mais escravos, mas não tem nenhuma política pública que garanta essa liberdade, ninguém é livre se não tem trabalho, comida, ninguém é livre se não tem moradia, não existe essa liberdade e no Brasil isso foi feito assim – comentou.
A representante da Gerência Promoção da Igualdade Racial (GEPIR), Deviane da Costa, comentou que a data do dia 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, se faz necessária para gerar uma reflexão em toda a sociedade.
– A reflexão dessa data é importante para uma sociedade antirracista e anti-discriminatória. Essa discussão não é vitimização como muitos dizem em seus discursos nas redes sociais. Em Barra Mansa percebemos que com a inserção do projeto Afrosaberes muitos já compreenderam o significado da representatividade da cultura afro-brasileira para o combate a discriminação racial – enfatizou a gerente da GEPIR.

Por Franciele Bueno

Pela primeira vez, negros são
maioria no ensino superior público

Fátima Lima comentou sobre o sistema de cotas para os negros na universidade, segundo ela, é uma medida paliativa e necessária para a inclusão do negro nas universidades. “Hoje eu falo da educação e muitos não compreendem porque a gente defende que haja cota nas universidades é uma política pública, é uma medida positiva, porque por lei nós fomos impedidos de entrar na escola, pois existiam leis para nos impedir”, falou.
A proporção de pessoas pretas ou pardas (que compõem a população negra) cursando o ensino superior em instituições públicas brasileiras chegou a 50,3% em 2018. Apesar desta parcela da população representar 55,8% dos brasileiros, é a primeira vez que os pretos e pardos ultrapassam a metade das matrículas em universidades e faculdades públicas.
Os dados estão no informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, divulgado na quarta-feira passada (13), no Rio de Janeiro, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A comparação foi feita com as informações do suplemento de educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – Contínua (Pnad Contínua), que começou a ser aplicado em 2016.
A pesquisa mostra que a população negra está melhorando seus índices educacionais, tanto de acesso como de permanência, apesar de ainda se manter bem atrás dos índices medidos entre as pessoas brancas.
A proporção de jovens de 18 a 24 anos pretos ou pardos no ensino superior passou de 50,5% em 2016 para 55,6% em 2018. Entre os brancos, a proporção é de 78,8%. Na mesma faixa etária, o número de pretos e pardos com menos de 11 anos de estudo e que não estavam frequentando a escola caiu de 30,8% em 2016 para 28,8% em 2018, enquanto o indicador para a população branca é de 17,4%.
Os que já haviam concluído o ensino superior somavam 36,1% dos brancos e 18,3% dos pretos e pardos, enquanto a taxa de ingresso no terceiro grau é de 53,2% entre os brancos e de 35,4% entre pretos e pardos. Na faixa de 18 a 24 anos que concluiu o ensino médio, mas que não estava estudando por trabalhar ou precisar procurar trabalho, 61,8% eram pretos ou pardos.
A taxa de analfabetismo para pessoas acima de 15 anos, entre pretos e pardos caiu de 9,8% em 2016 para 9,1% em 2018. Entre os brancos, a taxa é de 3,9%. Na frequência à creche ou escola, crianças pretas ou pardas de até 5 anos passaram de 49,1% para 53%, enquanto 55,8% das crianças brancas estão nessa etapa da educação. Nos anos iniciais do ensino fundamental, para crianças de 6 a 10 anos, não há diferença significativa, com 96,5% das brancas e 95,8% das pretas ou pardas frequentando a escola.

*As informações são da Agência Brasil


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

14 comentários

  1. Avatar

    A rica história invisível da escravidão e sua recriação cultural, são apenas parte do ser cultural brasileiro, onde tudo é estruturado para atender à necessidade de enriquecer os senhores, de controlar o escravo ou, depois, para consolidar e justificar as desigualdades.
    Principalmente a partir da promoção, pelo Estado, da imigração européia subvencionada para substituir a mão-de-obra negra, da criação de status superior de cidadania para os imigrantes recém-chegados em relação aos negros, das promessas do Estado de embranquecer a nação, da participação periférica dos afro-brasileiros no processo de industrialização, da fraca representatividade política, da desqualificação de suas referências culturais, estruturou-se o que pode ser chamado o sistema de exclusão racial informal.
    O desejo, a quase que necessidade brasileira de ser uma democracia confundiu-se com o mito desmobilizador longamente cultivado.
    Mas, que processos culturais permitirão as imensas possibilidades humanas de valorizar suas diferenças? Que processos transformarão o imaginário social que manifesta perversamente o racismo envergonhado, e se justifica com a afirmação de que aqui não se pratica racismo como lá …, aqui temos excelentes programas de inclusão e distribuição de renda, as pessoas afro descendente tem acesso o todos níveis de emprego ?
    Logo, fica a pergunta quem somos nós neste processo democrático evolutivo, mas para quem…, onde parece que ainda combatemos as desigualdades sociais e políticas com lanças e flechas, a arma utilizada hoje são as CANETAS que estão em poder de uma minoria, que protegem SUAS CASTAS a todo custo na manutenção do PODER EM TODOS OS NÍVEIS E ESFERAS DA SOCIEDADE.Portanto nossa discussão não está mais no campo das idéias, mas sim discutirmos um PROJETO POLITICO DE PODER,que atenda realmente nossas necessidades já que somos +/- 65% da população brasileira.

  2. Avatar
    Brancaiada pira pra se explicar rs

    CIDADANIA

    Negros no Brasil: mais desemprego, menos renda, menor presença parlamentar e principal vítima de homicídios

    Brancos ganham sempre mais, independentemente do nível de instrução, e predominam em cargos gerenciais, diz IBGE. Chance de negros serem assassinados é praticamente três vezes maior

  3. Avatar
    Morador de Volta Redonda

    Se um negro(a) disfarça seu cabelo com outros artifícios (rastafari) é porque está negando a própria raça. Isso é preconceito.

  4. Avatar

    A professora está certa. Se sem políticas públicas, os casos de injúria racial e racismo continuam a ocorrer diariamente, imaginem se não houvesse.
    O brasileiro inventou essa de “ain, não sou negro, sou pardo, sou marrom bombom, sou bem moreninho”. Conversa. Tem uma gota de sangue negro? É Afro descendente, sim.
    Se aceita, cara.

    • Avatar

      Afrodescendente não é necessariamente ser negro, mas sim ser descendente de negro. O próprio termo é autoexplicável… Por que aceitar uma mentira falaciosa? Só para parecer cidadão politicamente correto?… Tem um monte de “negro” sendo barrado no sistema de cotas do Enem, mas aí vc vai querer desconstruir a sua verdade falaciosa para encaixar outra: o colorismo…

    • Avatar

      Mais um do “Dia da Consciência Humana”, “Não existe racismo no Brasil”, “Somos todos iguais”, “O negro é o maior racista”, “É só deixar de falar do racismo, que ele acaba”, “Não sou racista, tenho até amigos negros”.
      Explique aí por que motivo o topo da pirâmide socioeconômica brasileira é branca e a base é negra (por favor, não me venha com “ain, conheço louros pobres e negros ricos”)

  5. Avatar

    Eu não sei qual o critério o IBGE usa para dizer que no Brasil tem a maioria negra. Pardos não são negros. podem ser misturados, mas negros não são totalmente.

    Eu sou misseiro. Vá em qualquer missa ou culto de qualquer outra religião popular e reparem quantos negros no meio. Não chegam a 10% se considerar o negro puro. Agora se querem ver negros puros em grande quantidade vão a qualquer baile fank ou onde tem batuques. Eventos esses raros acontecer. Pelo menos na região.

    Interessante a professora afirmar “No Brasil se a gente for fazer uma pesquisa científica não existe uma pessoa que não tenha a ancestralidade afro.” Eu conheço muitos descendentes diretos dos europeus aqui mesmo em Barra Mansa e em Volta redonda. Gente que não tem nada de sangue africano.

    • Avatar

      No Sul do Brasil, que recebeu muitos imigrantes europeus no final do século XIX e início do XX (ontem, para a história dos povos), não deu tempo para miscigenar todo mundo, já que foram poucas gerações. Deve ter pelo menos uns 5 milhões de brancos puros lá, e também há muitos em São Paulo… Amazonas, Mato Grosso e Ceará também têm muitos mestiços, mas a maioria é de origem indígena, não negra. As estatísticas erroneamente colocam como “negro” todo e qualquer tipo de pessoa parda ou mestiça…

      Mas concordo contigo. Se é fruto de mistura de cor, então há uma cor nova, que não pode ser associada a uma das originais. É argumento ora usado pelos brancos para se sentirem exclusivos em seu “status quo”, ora pelos negros para conseguirem peso estatístico para validar suas demandas e a adoção de políticas afirmativas. É conforme a conveniência, porque na hora da cota quem é mais clarinho é refutado pelo postulante de pele escura, o chamado “colorismo”…

    • Avatar

      Quase acertei na minha visualização nas missas. Segundo, um site pesquisado com muitas referências, o Censo 2010 do IBGE, 7,6% dos brasileiros se declaram pretos e 43,1% como sendo parda.

  6. Avatar

    Essa promoção somente dos negros não pode dar certo, pois eles mesmos são os primeiros a se separarem. Há exceções raríssimas. Chame todos amigos de todas as cores para uma reunião comunitária. Reparem quantos negros vão. Na faculdade do meu filho fiz questão de contar quantos negros entraram com ele. Dentre os 60, apenas 15. Mesmo com cotas, enem e concorrência plena, além de gratuidade na matrícula, ou seja, oportunidade era o que não faltava. E quantos terminaram? Nenhum negro com o meu filho entre os 15.

    Em vez dessa promoção toda procurando dividir a sociedade, deve em primeiro lugar promover o negro a se esforçar mais para se superar. Caso contrário, será uma eterna lutar de inclusão dos negros.

    Só para lembrar o que um amigo me mandou por conta do Dia da Proclamação da República: Um negro de origem pobre se forma em medicina. Até aqui tudo bem, mas veja que esse menino pobre de 19 anos é Juliano Moreira que foi formado no Brasil Império, época que muitos confundem com Brasil Colônia e metem o pau no imperador D. Pedro II. E os negros ainda são capazes de desprezar a princesa ISABEL, claro, que por desconhecimento.

    No Brasil esse negro de origem pobre realizou grandes feitos e ainda representou o País no exterior na sua área.

    https://www.facebook.com/arquivonacionalbrasil/photos/a.646412452119303/2492978670795996/?type=3&theater

    • Avatar

      Machado de Assis, Rebouças, José do Patrocínio, Nilo Peçanha, Lima Barreto (que infelizmente cometeu suicídio, afligido por questões morais advindas de sua condição racial), Luís Gama, Aleijadinho, dentre outros. Gigantes figuras históricas do Brasil… Em comum, todos tiveram pais brancos, ou seja, eram mestiços. Ainda falta um negro “de verdade”, um afro típico. Joaquim Barbosa pode vir a ser esse cara…

  7. Avatar

    Até pouco tempo atrás se matava 60000 pessoas no Brasil por ano, mas nós sabemos que aproximadamente 80% dessas pessoas assassinadas eram negras!
    Ainda bem que o governo federal atual, na pessoa do ex-juiz Sérgio Moro, decidiu acabar com essa política de branqueamento da sociedade brasileira que havia nos governos anteriores!
    Hoje, a mortandade diminuiu mais de 22% na população brasileira, é como se Jair Bolsonaro dissesse: “Vamos preservar a vida dos negros, pois eles também merecem VIVER!”.
    O que dizer dos governos petistas anteriores que não deixavam a raça negra viver?!
    Como diria o jornalista Boris Casoy: “Isso é uma vergonha!”.

    • Avatar

      Mirian Leitão do DV, Vai vendo e Emir, vocês estão falando sério? Quais os dados para colocar que tais afirmações? Somos um país racista, temos uma sociedade racista e temos um despreparado nos governando racista e preconceituoso. Aproveitem que estão na internet e busquem livros que contam a formação da nossa sociedade, busquem os resultados da inclusão do negro na sociedade com as políticas de afirmação. O texto de vocês é puro preconceito. Temos diariamente casos em todas as áreas da sociedade. E ler esses textos na semana da consciência negra chega a ser ultrajante!!!

    • Avatar

      Marcelo Bretas, vc quer a verdade ou quer se iludir com a desconstrução da verdade? De que dado vc precisa, meu filho? Os dados estão aí, na mesa, pra quem quiser ver e jogar…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Untitled Document