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Irmãs de Rio Claro passam por cirurgia delicada e já se recuperam em casa

Matéria publicada em 9 de fevereiro de 2020, 15:39 horas

 


Trigêmeas Gabriella, Raphaella e Isabella completarão um ano de vida no próximo dia 19

Treinamento: Cirurgia inédita foi realizada no Hospital da Criança, no Rio, conveniado pelo SUS (Foto: Divulgação)

Rio Claro – As trigêmeas de Rio Claro que se tornaram notícia em todo o país por ser caso raro de xifópagas – onde duas delas nascem com partes dos corpos unidos – completam um ano de vida no próximo dia 19. A festa será realizada com apoio da comunidade. Os pais das meninas trigêmeas Gabriella, Raphaella e Isabella trabalham como caseiros e comemoram a data após meses no Rio de Janeiro, onde as meninas nasceram e foram separadas através de cirurgia inédita realizada no Hospital da Criança, conveniado pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

O jovem casal descobriu ainda no quinto mês de gestação das trigêmeas que duas das meninas eram xifópagas. O caso raro surpreendeu a todos: era inédito na literatura médica brasileira esse tipo de registro envolvendo trigêmeos. Acompanhados no SUS ao longo de todo o processo, por conta da complexidade da gestação, em 3 de fevereiro de 2019, já então com sete meses, Sarah deu à luz às filhas na capital do estado, a 150km de casa, no Hospital Escola da UFRJ.

Dez dias depois, a família chegava ao Hospital da Criança, na Zona Oeste do Rio de Janeiro para a continuidade do tratamento e preparo para a cirurgia de separação de Gabriella e Raphaella, que nasceram unidas pela região abdominal, com fusão do fígado e uma pequena parte do osso esterno.  Para não se distanciarem e poderem ter o apoio emocional um do outro, enquanto um dos pais acompanhava as siamesas no hospital, o outro ficava com Isabella na Paroquia São Roque, em Vila Valqueire, com a Fraternidade das Irmãs, que os acolheu durante esse período.

Na unidade estadual, Gabriella e Raphaella foram acompanhadas durante cinco meses por uma equipe multidisciplinar, envolvendo pediatras, cirurgiões, nutricionistas, entre outros profissionais de saúde até que crescessem mais e ganhassem peso para, então, estarem aptas a realizar a cirurgia de separação.

Se por um lado as meninas se desenvolviam para o procedimento, a equipe médica também se preparava. Um mês antes da cirurgia, foi feita uma simulação com manequins, desde as crianças saindo da UTI Neonatal, entrando no Centro Cirúrgico até a intubação. Para simularem a forma siamesa, os bonecos foram amarrados com fitas especiais.

Foi testado também o final da separação das crianças, quando uma delas seria levada para outra mesa, de forma estéril para que não houvesse contaminação, que já deveria estar rigorosamente pronta com outra equipe médica. Todas as etapas foram filmadas e estudadas para evitar erros no procedimento real.  O cirurgião Francisco Nicanor foi o responsável.

– O Hospital Estadual da Criança é um centro de referência de doenças complexas do recém-nascido e por isso foi indicação para o caso das meninas. Foram mais de 50 profissionais, com muito preparo e capacidade, envolvidos na cirurgia, que durou nove horas. Foram montados dois centros cirúrgicos em um único ambiente para atender as duas meninas ao mesmo tempo. É um orgulho muito grande para nós, de um pequeno hospital da rede pública no subúrbio do Rio de Janeiro, fazermos uma medicina similar à que se faz nos melhores hospitais do mundo – disse Dr. Nicanor.

Após a cirurgia, em julho, veio a fase de as gêmeas aprenderem a viver separadas, experimentando novas impressões, sensações e orientações espaciais. Outras especialidades médicas entraram em ação nessa etapa do desenvolvimento, como fisioterapeutas e fonoaudióloga, até que Gabriella e Raphaella tivessem mais independência para comer e se movimentar. Depois de nove meses de internação, no último dia 19 de novembro, elas receberam alta e se despediram da equipe do Hospital Estadual da Criança entre lágrimas, abraços e sorrisos.

Um ano de festa e superação

Mesmo com apenas um ano de vida, a história da Gabriella e Raphaella é cheia de superação. E, há 75 dias, uma nova fase começou: a adaptação à própria casa, em Rio Claro, que elas ainda não conheciam. Mas, segundo a mãe, Sarah, não poderia estar sendo mais fácil, assim como sua evolução.

– Nem parece que elas e a Isabella não moraram juntas tanto tempo. Elas se dão super bem, conversam entre si numa linguagem própria e só querem saber de dormir juntas. Agora estão na fase engatinhar e começar a andar e eu e o Agnaldo nos desdobramos para acompanhar o ritmo – contou.

Qualificação SUS

Além da raridade da gestação, outra questão diferencial no caso das trigêmeas de Rio Claro é que todo o acompanhamento foi feito na rede pública de saúde, desde pré-natal na unidade básica municipal até o parto e a cirurgia de separação. Para o secretário de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, Edmar Santos, isso evidencia a competência das unidades e profissionais à serviço do SUS.

– Essa é uma prova da qualidade do SUS e mostra o amadurecimento da medicina brasileira. Hoje já não existe mais a ideia de que só hospital particular é bom. Temos profissionais renomados em nossa rede de assistência. A etapa no Hospital Estadual da Criança foi pioneira porque não houve necessidade de ‘importar’ médicos para a cirurgia ou tratamento. Toda a equipe multidisciplinar envolvida era pra própria unidade – ressaltou.


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2 comentários

  1. Deus abençoe estes anjos e toda equipe médica!

  2. Exemplos como esse são um bálsamo em meio a tanta notícia ruim, ainda mais envolvendo o serviço público. Parabéns à toda a equipe envolvida no bem-sucedido procedimento. Parabéns à toda à comunidade envolvida no apoio de retaguarda às crianças e a seus pais, que precisaram ficar próximos ao hospital mas sem meios para tal. Vida longa e plena às crianças… Garanto que há muitos outros exemplos como esse, mas não chegam ao conhecimento geral. As pessoas só ficam sabendo das mazelas e quando acontece alguma desgraça no atendimento dos hospitais públicos…

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