terça-feira, 22 de junho de 2021 - 11:14 h

TEMPO REAL

 

Capa / Sa√ļde / Vacina para comorbidade causa corrida por atestado e suspeita de ‘fura-fila’

Vacina para comorbidade causa corrida por atestado e suspeita de ‘fura-fila’

Matéria publicada em 17 de maio de 2021, 16:48 horas

 


S√£o Paulo – Iniciada em grande parte do Pa√≠s nas √ļltimas semanas, a vacina√ß√£o contra a covid-19 da popula√ß√£o com comorbidades provou uma corrida por atestados m√©dicos e at√© mesmo suspeitas de fraudes. Poss√≠veis casos de “fura-fila” s√£o investigados em Estados como Amap√° e Para√≠ba, mas tamb√©m t√™m sido relatados por profissionais de sa√ļde de outras partes do Pa√≠s.

As comorbidades consideradas prioritárias pelo Plano Nacional de Imunização (PNI) incluem doenças que atingem parte significativa da população brasileira, como diabete e cardiopatias. Porém, em alguns casos, como no da hipertensão, a imunização é permitida só para pessoas que estão em estágios mais avançados da patologia.

Ao todo, a estimativa federal √© de que 17,7 milh√Ķes de pessoas de 18 a 59 anos se encaixem nesse grupo. A data de in√≠cio da vacina√ß√£o da popula√ß√£o com comorbidades varia entre os Estados, que t√™m optado pela libera√ß√£o aos poucos, geralmente pelas faixas et√°rias mais altas.

No Amap√° e na Para√≠ba, procedimentos foram instaurados pelos Minist√©rios P√ļblicos estaduais e o Federal, e seguem em apura√ß√£o Detalhes sobre os casos n√£o foram divulgados pela assessoria de imprensa.

Em João Pessoa, a prefeitura anunciou na semana passada que passaria a vacinar apenas pessoas com laudos médicos para comorbidades. O imunizado precisa deixar no posto uma cópia do comprovante, que será encaminhada para apuração por uma comissão municipal e outros órgãos de fiscalização.

A situa√ß√£o no Estado tamb√©m motivou a publica√ß√£o de um comunicado do Conselho Regional de Medicina. “√Č imprescind√≠vel que as informa√ß√Ķes prestadas pelo m√©dico sejam verdadeiras, conforme considera o artigo 80 do C√≥digo de √Čtica M√©dica: ‘√Č vedado ao m√©dico expedir documento sem ter praticado ato profissional que o justifique, que seja tendencioso ou que n√£o corresponda √† verdade’.”

No Estado de S√£o Paulo, por sua vez, a prefeitura de Mar√≠lia informou no dia 13 que identificou que moradores apresentaram receitas de familiares ou falsificadas para conseguirem a imuniza√ß√£o. “Estamos com uma equipe capacitada para analisar essas informa√ß√Ķes”, declarou a coordenadora de imuniza√ß√£o, Juliana Bortoletto, em comunicado do munic√≠pio.

No Rio, o prefeito de Barra Mansa, Rodrigo Drable (DEM), tamb√©m relatou ter recebido den√ļncias de atestados e laudos falsos. Parte delas teria partido de m√©dicos que se recusaram a fornecer o documento indevidamente, mas souberam posteriormente que um colega de profiss√£o fez o oposto.

“Fiquem atentos, senhores m√©dicos, vou denunciar no CRM e no MP. √Č uma vergonha alguns m√©dicos se prestarem a isso. Como tamb√©m sempre foi uma vergonha m√©dico se prestar a dar atestado falso para a pessoa faltar servi√ßo”, afirmou o prefeito em rede social

Press√£o

Profissionais de outros Estados tamb√©m t√™m relatado a press√£o de pacientes para a emiss√£o de atestados de comorbidades. Uma m√©dica que atende em UPA de Bel√©m e em UBS no interior do Par√° contou: “Por ser rec√©m-formada, muita gente quer se aproveitar para tentar passar a frente da fila da vacina, pedindo receita de medicamento para comorbidade e at√© mesmo atestado. A procura aumentou depois que liberaram a vacina√ß√£o para pacientes que t√™m comorbidades”. Ela diz que colegas j√° receberam proposta em dinheiro para fazer o laudo.

Tamb√©m h√° relatos de m√©dicos de Sorocaba, no interior de S√£o Paulo. Um deles, cardiologista, comentou que uma paciente de 51 anos foi ao consult√≥rio pedir um atestado para uma doen√ßa que n√£o possui, pois alegou que precisava ser vacinada. Segundo ele, a mulher ficou insatisfeita com a recusa e disse que esperava que fosse “mais amigo” e que procuraria um m√©dico “mais compreensivo”.

Relatos semelhantes tamb√©m t√™m sido postados em redes sociais. “Antigamente, o pessoal queria atestado de boa sa√ļde para praticar esportes e (prestar um) concurso p√ļblico. Por causa da vacina, hoje a pedida √© (por) atestado de doen√ßa. ‘Tem como me ver uma asma a√≠?'”, desabafou um profissional de sa√ļde do Amap√°

Laudos

Preocupada com a fraude de laudos e receitas para a vacina√ß√£o de pessoas com comorbidades, a Secretaria da Sa√ļde de S√£o Paulo ir√° monitorar os n√ļmeros dos registros profissionais dos m√©dicos que assinam os documentos. “No sistema Vacivida h√° um campo para o CRM de quem assina o laudo de comorbidade. Se percebermos, por exemplo, 300 laudos com o mesmo CRM e o mesmo c√≥digo de doen√ßa, vamos alertar o conselho”, disse a coordenadora do Programa Estadual de Imuniza√ß√£o SP, Regiane de Paula.

Falta de transparência

Ex-presidente da Anvisa e professor da Universidade de S√£o Paulo (USP) e da FGVSa√ļde, o m√©dico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, colunista do¬†Estad√£o, avalia que a forma como o Plano Nacional de Imuniza√ß√£o (PNI) foi desenvolvido impacta hoje na difus√£o de informa√ß√£o na pandemia. “(O plano) deveria ter sido colocado em consulta p√ļblica para que a sociedade soubesse o que estamos propondo e fazendo. O fato de isso n√£o ter sido feito cria um clima de barata voa, de gente com dificuldade para demonstrar ter comorbidade e gente buscando facilidades”, comenta Vecina.

A falta de transpar√™ncia faz, por exemplo, com que as pessoas tenham d√ļvidas se fazem parte ou n√£o de algum grupo priorit√°rio para a vacina contra a covid-19. “N√£o resolveria 100%, mas, certamente, se fosse mais transparente, provavelmente ter√≠amos comunica√ß√£o diferente e o povo tomando atitudes menos ruins. Quando o problema come√ßou no Estado, a√≠ n√£o tem jeito”, lamenta. “Est√° todo mundo perdido, isso √© muito ruim.”

Para ele, a prioridade neste momento deveria ser dos trabalhadores de servi√ßos essenciais, como de atendimento em supermercados e farm√°cias, por exemplo, que se exp√Ķem mais ao v√≠rus por seguirem com o trabalho presencial em toda a pandemia. “Quem est√° em home office n√£o deveria tomar nesse momento (mesmo com comorbidade)”, avalia o sanitarista.

J√° o presidente da Sociedade Brasileira de Imuniza√ß√Ķes (SBIm), o tamb√©m m√©dico Juarez Cunha, acredita que √© correta a prioriza√ß√£o das pessoas com comorbidades por serem mais propensas ao desenvolvimento de casos moderados e graves da covid-19. “Chama a aten√ß√£o desde o in√≠cio da pandemia que pessoas com doen√ßas cardiovasculares e diabete s√£o mais afetadas”, comenta.

Cunha considera, contudo, que a lista das comorbidades apontadas no PNI pode deixar de fora pessoas com outras situa√ß√Ķes de sa√ļde que tamb√©m est√£o em risco, como no caso de doen√ßas graves. Al√©m disso, destaca que no caso das pessoas com obesidade m√≥rbida, em que n√£o deveria ser exigida a apresenta√ß√£o de atestado e afins, j√° que que o √ćndice de Massa Corp√≥rea (calculado a partir do peso e da altura) pode ser aferido no local.

As comorbidades previstas no grupo priorit√°rio do PNI s√£o:

– Diabete

– Pneumopatias cr√īnicas graves

РHipertensão arterial resistente, hipertensão arterial estágios 1 e 2 com lesão em órgão-alvo ou hipertensão arterial estágio

РInsuficiência cardíaca (IC): IC com fração de ejeção reduzida, intermediária ou preservada; em estágios B, C ou D

– Cor-pulmonale cr√īnico e hipertens√£o pulmonar prim√°ria ou secund√°ria

– Cardiopatia hipertensiva

– S√≠ndromes coronarianas cr√īnicas

– Valvopatias: les√Ķes valvares com repercuss√£o hemodin√Ęmica ou sintom√°tica ou com comprometimento mioc√°rdico

– Miocardiopatias e pericardiopatias: miocardiopatias de quaisquer etiologias ou fen√≥tipos, pericardite cr√īnica, cardiopatia reum√°tica

– Doen√ßas da aorta, dos grandes vasos e f√≠stulas arteriovenosas: aneurismas, dissec√ß√Ķes, hematomas da aorta e grandes vasos

– Arritmias card√≠acas: arritmias card√≠acas com import√Ęncia cl√≠nica e/ou cardiopatia associada

РCardiopatias congênitas

– Portadores de pr√≥teses valvares biol√≥gicas ou mec√Ęnicas e dispositivos card√≠acos implantados

РDoença cerebrovascular

– Doen√ßa renal cr√īnica: doen√ßa renal cr√īnica est√°gio 3 ou mais e/ou s√≠ndrome nefr√≥tica

-Imunossuprimidos: Indiv√≠duos transplantados de √≥rg√£o s√≥lido ou de medula √≥ssea, pessoas vivendo com HIV e CD4 <350 c√©lulas/mm3, doen√ßas reum√°ticas imunomediadas sist√™micas em atividade e em uso de dose de prednisona ou equivalente > 10 mg/dia ou recebendo pulsoterapia com cortic√≥ide e/ou ciclofosfamida, demais indiv√≠duos em uso de imunossupressores ou com imunodefici√™ncias prim√°rias, pacientes oncol√≥gicos que realizaram tratamento quimioter√°pico ou radioter√°pico nos √ļltimos seis meses, neoplasias hematol√≥gicas

– Anemia falciforme

РObesidade mórbida: índice de massa corpórea (IMC) = 40

РSíndrome de down

– Cirrose hep√°tica.

As informa√ß√Ķes s√£o do jornal¬†O Estado de S. Paulo.

Por Priscila Mengue, José Maria Tomazela e Fabiana Cambricoli


Comente com Facebook
(O Di√°rio do Vale n√£o se responsabiliza pelos coment√°rios postados via Facebook)
Untitled Document