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Entre a cruz e a cafeína, a História de Volta Redonda

Matéria publicada em 17 de julho de 2021, 16:11 horas

 


Como os acontecimentos da História do Brasil e do mundo ajudaram a moldar o nascimento e a cultura de uma das mais prósperas cidades do país

Aurélio Paiva

A história cultural que deu origem a Volta Redonda talvez tenha sua origem mais forte há dois mil anos, quando dois pedaços de madeira em formato de cruz se ergueram nas imediações de Jerusalém em um monte chamado Calvário ou Gólgata (ambos significando caveira). À sombra desta cruz,  por conta do significado do homem nela pregado, uma teia histórica que mudaria os rumos do mundo seria formada até que, como parte dela, no futuro surgiria Volta Redonda.

A morte de Cristo – e o surgimento do Cristianismo – não influenciaria no futuro apenas a formação religiosa ou cultural da cidade, mas sua própria existência. Há detalhes incríveis. Como, por exemplo, dois ingleses chamados João (John)  utilizariam o mesmo livro monástico cristão e se uniriam em um ato que revolucionaria o parlamento britânico,  mudando o que ocorreria no outro lado do mundo: a região Sul Fluminense, incluindo a futura Volta Redonda.

Falando desde um pequeno livro monástico a uma simples xícara de chá, tentaremos recompor parte da teia histórica que levou à criação da cidade que seria o símbolo da industrialização e da modernidade do Brasil.


Entre a cruz e a cafeína, a História de Volta Redonda
‘Já temos alguns bons motivos para celebrar’
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Um salto da industrialização para o setor do comércio
Estrutura hospitalar é reforçada e vacina contra Covid-19 avança
Voltaço leva o nome da cidade para gramados do Brasil
Câmeras de alta definição monitoram Centro e bairros
História nas ruas do município é marcada por obras de arte
Programação dos 67 anos inclui carreata em pontos históricos
Comemorações terão lives de dois grupos em redes sociais

A princesinha portuguesa levou o chá à Inglaterra; e o chá fez revoluções

Foi a princesinha portuguesa Catarina de Bragança quem levou o chá aos ingleses

Foi a princesinha portuguesa Catarina de Bragança quem levou o chá aos ingleses

Catarina de Bragança era uma jovem princesa portuguesa de 23 anos de idade quando mandada à Inglaterra para se casar com o Rei Carlos II, em 1662. Levou na bagagem algo na prática desconhecido dos ingleses e muito comum em Portugal: folhas de chá. Mandou que trouxessem água quente, misturou as folhas e bebeu.

Claro que a Corte inteira queria provar. A bebida foi considerada uma maravilha. Não só pelo sabor, mas pela disposição que dava a todos. Parecia que a pessoa havia ingerido bebida alcoólica mas não ficava bêbada, mas com a mente desperta e sagaz.

Motivo: o chá – que mais tarde seria chamado de “chá inglês” – tinha uma grande quantidade do estimulante cafeína.

Portugal era mesmo uma potência. A mesma cruz das caravelas que havia chegado ao Brasil e feito a primeira missa em solo brasileiro, em 1500, havia, logo em seguida, aportado do outro lado do mundo, na China. Mais especificamente em Macau, que seria colônia portuguesa por 400 anos e de onde viria o chá.

Não só a Inglaterra como suas colônias ficaram “viciadas” na cafeína do chá. Em uma destas colônias, hoje chamada Estados Unidos da América, a quantidade de chá consumida era tão grande que a Inglaterra (quase quebrando financeiramente na época) resolveu instituir um imposto sobre todo o chá vendido àquela colônia pela Companhia Britânica das Índias Ocidentais.

Resultado?

Uma revolta, em 1773, entre os colonos, apelidada de “Boston Tea Party” (Festa do Chá) em que o carregamento de chá de três navios ingleses foi jogado nas águas do porto de Boston. Um evento chave na revolução que daria causa à Independência dos EUA, iniciando um efeito dominó na América Latina.

Um pouco mais de cafeína; e junto com ela mais escravidão

Usando escravos, café enriqueceu fazendeiros da região

Usando escravos, café enriqueceu fazendeiros da região

Enquanto os colonos ingleses na América jogavam o chá nas águas de Boston, no Brasil, o Vale do Paraíba recebia com prazer uma planta com pelo menos o dobro de cafeína que o chá e que iria viciar quase todo o mundo: o café.

Trazido da Guiana Francesa, não se deu muito bem no Norte do Brasil – mas encontrou no Vale do Paraíba não apenas terra fértil, mas também infraestrutura: as estradas novas e velhas no Vale do Paraíba do já encerrado “ciclo do ouro” do Brasil, eram perfeitas para o transporte e exportação do café.

Neste ciclo, uma família se destacou: a família Breves. Vindos de Rio Claro,  estabeleceram fazendas de café de Mangaratiba à divisa de Minas, passando por Bananal e, principalmente, pelo Sul Fluminense, incluindo áreas onde estão hoje Resende, Quatis, Porto Real, Barra Mansa, Volta Redonda, Pinheiral, Barra do Piraí e mais uma vastidão.

Joaquim Breves, um dos patriarcas, se tornou o homem mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo. Mas o café cobrava um preço humano alto: a escravidão.

Navios negreiros desembarcavam às pencas nos portos de Mangaratiba e Bracuhy. A brutalidade do tratamento dispensado aos escravos é algo que já vai mais do que narrado em milhares de textos. O preço da riqueza do café no Sul Fluminense era infame.

Mas havia um pequeno livro escrito quase 300 anos antes cujas ideias ajudariam a mudar mais uma vez a História. O livro, escrito em 1441 pelo monge agostiniano alemão Tomás de Kempis, chamava-se “A Imitação de Cristo”.

Ele não iria começar a derrubar o café. Esta era apenas a consequência. Ele iria começar a derrubar a escravidão.

Um capitão de navio negreiro muda sua vida e a história

John Newton: de traficante de escravos a abolicionista inglês e autor da música “Amazing Grace”

Pouco antes da primeira muda de café chegar ao Vale do Paraíba nascia em Londres um sujeito chamado John Newton.

Cresceu e viveu como traficante de escravos. Filho de pai rico, tinha prazer no negócio do tráfico. Até que um dia, em 1748, aos 23 anos de idade, viajando como passageiro em um navio que vinha da África, assustou os tripulantes por tantas blasfêmias e xingamentos contra Deus e toda a misericórdia.

Só que algo inesperado aconteceu: na costa brasileira, o navio foi atingido por uma forte tempestade. O naufrágio era iminente. Tripulantes culpavam John Newton e queriam jogá-lo fora do navio. Especialmente depois que, saindo ele de um ponto do convés do navio, o marinheiro que ocupou seu lugar foi jogado ao mar.

Desesperado, John Newton buscou no navio algo que pudesse ler: havia a Bíblia e o livro “A Imitação de Cristo”- de Tomás de Kempis. O navio escapou por muito pouco do naufrágio. Ao ler este último livro repensou sua vida. Decidiu se tornar cristão.

Mas – em um mundo em que a escravidão era vista como normal por séculos – ele acreditava que ser cristão era tratar bem os escravos. E assim se tornou um “humanitário” capitão de navio negreiro.

Até que, em uma segunda experiência, quase morreu adoecido no mar.

Repensou melhor e descobriu que o cristianismo para qual teria sido chamado não era o de tornar humanitário o tráfico de escravo.

Era o que ajudaria a acabar com o tráfico de escravos. E John Newton ainda iria compor uma das canções mais cantadas no Ocidente: “Amazing Grace” (Incrível Graça).

De imediato John Newton retornou à Inglaterra, tornou-se pastor anglicano e encontrou outro John para a sua luta: John Wesley. Este era o homem que iriar revolucionar a religião e a política coincidentemente depois de ter o mesmo livro que o outro John: “A Imitação de Cristo”.

E até reis tremeriam diante de suas ideias.

Primeira vitória na luta contra navios negreiros

Em 1850 o Brasil aprovou a Lei Eusébio de Queiroz, que proibia o tráfico de escravos no Brasil

Em 1850 o Brasil aprovou a Lei Eusébio de Queiroz, que proibia o tráfico de escravos no Brasil

John Wesley, pastor anglicano, criou um movimento chamado metodismo. Em seu seio o fim da escravidão. Primeiro passo: aprovar uma lei que proibisse o tráfico de escravos em todas as colônias inglesas.

Os cultos de Wesley lotavam não mais apenas igrejas, mas praças inteiras. Grupo de senhoras na Inglaterra, que os seguiam, arrecadavam dinheiro para campanhas pelo fim da escravidão. Sua forte religiosidade se espalhou pelas colônias e, nos EUA, suas mensagens chegaram tão forte através de discípulos que terminaram arregimentando os quadros para fazer a independência americana.

Na Inglaterra, ele e John Newton se tornaram os maiores conselheiros e apoiadores de um jovem parlamentar: Willian Wilbeforce.

Com muita luta e trabalho conjunto, após anos de tentativas e rejeições, finalmente Willian Wilberforce conseguiu aprovar a primeira lei, em 1807, que aboliu o tráfico de escravos no Império Britânico.

Não havia acabado. Mas a porteira havia sido aberta: o movimento metodista de Wesley nos EUA ajudou a criar o chamado Segundo Despertamento (que sacramentou a abolição da escravatura nos EUA).

Além disso, após a iniciativa da lei de Wilberforce, a Inglaterra avançou e declarou que consideraria como pirata todo navio que traficasse escravos em qualquer local do mundo e seus oficiais estariam sujeitos à execução.

No Brasil, o movimento abolicionista também avançava. O cerco contra a escravidão se fechava.

O fim da lei para inglês ver e enfim o fim da escravidão

Em 1850 o Brasil aprovou a Lei Eusébio de Queiroz, que proibia o tráfico de escravos no Brasil. Outras leis parecidas haviam sido aprovadas, mas, como diziam os donos de escravos, eram “para inglês ver”. Não eram cumpridas.

Mas desta vez o governo brasileiro foi implacável. E os últimos a descobrirem que a lei era para valer foram os Breves, no Sul Fluminense.

O episódio é conhecido como “Caso Bracuhy”, em que em plena Lei Eusébio de Queiroz os Breves desembarcaram um navio americano com escravos africanos no Porto Bracuhy, Angra dos Reis. Agentes do governo souberam do desembarque e prenderam todos os oficiais. O comandante americano fugiu vestido de mulher, porém logo foi preso no Caribe e enforcado nos EUA por ordem do presidente Abraham Lincoln – que aliás havia feito a abolição dos escravos nos EUA.

Foi o último navio negreiro a aportar no Brasil.

O que poucos sabem é como o governo brasileiro soube do desembarque. Simples: o escritório da Inglaterra no Brasil havia infiltrado um espião entre os traficantes de escravos locais. E eles entregavam todos os planos aos ingleses, que por sua vez repassavam ao governo brasileiro.

Além disso, o próprio Brasil contava com um já forte movimento abolicionista.

Não demorou muito até que a Princesa Isabel decretasse o fim da abolição da escravatura no Brasil – para desespero dos cafeeiros do Sul Fluminense, cuja economia declinou rapidamente.

Os escravistas se vingam; mas o café morre ainda mais

A grande vingança dos donos de escravos foi apoiar a proclamação da República.

Os paulistas – que de bobos não têm nada – mantiveram a produção de café usando mão-de-obra imigrante e aproveitando vastos planaltos onde, ao contrário do Rio de Janeiro, as terras não haviam sido desgastada.

Mas o preço do café ia caindo com a produção asiática e, para se salvar, os paulistas se uniram aos mineiros na famosa “politica do café com leite”.

Em resumo, nesta política mineiros e paulistas se alternavam na presidência da República.

E o governo garantia aos credores externos que ele próprio pagaria dívidas dos agricultores paulistas se estes não pudessem pagá-las.

Sem falar que em 1906 foi feito o Convênio de Taubaté, determinando ao governo comprar a produção excedente, a fim de que os produtores não tivessem prejuízo. Estoques de café eram simples e literalmente queimados.

Sobrava cafeína no planeta.

O resultado óbvio era que a burguesia cafeeira paulista se enriquecia enquanto o governo se endividava.

A produção asiática de café não parava de crescer. E o preço desabando. A dívida do governo aumentando, obras públicas sendo abandonadas (exceto em Minas e São Paulo) e o país empobrecendo.

Em 1929 o pior aconteceu: com a quebra da Bolsa de Nova York o preço do café fez água. O negócio acabou. Os paulistas, então, decidiram encerrar a política do café com leite e indicaram um paulista, Julio Prestes, para suceder outro “paulista”, Washington Luiz.

Minas se rebelou, junto com Paraíba e Rio Grande do Sul, e em 1930 caiu a Velha República assumindo então Getúlio Vargas como presidente.

Sua missão? Tirar a economia do buraco, enterrar a velha política e tirar o Brasil da era rural para a era industrial.

É quando começava a nascer a ideia de Volta Redonda.

Nasce uma usina e com ela nasce também uma cidade

Fechando a história, Volta Redonda ganha a maior indústria da época e, junto, uma cidade

Fechando a história, Volta Redonda ganha a maior indústria da época e, junto, uma cidade

Para os planos de Getúlio Vargas de modernizar o país uma indústria de base, como uma grande siderúrgica integrada, era fundamental. Afinal, desde antes da libertação dos escravos no Brasil o inglês Henry Bessemer já havia descoberto um método de produzir aço de alta qualidade e em grande quantidade, usando ventaneiras em fornos (depois ainda mais aprimorado).

Para construir uma grande siderúrgica, as desvalorizadas terras de uma área como Volta Redonda traziam consigo um bom valor estratégico militar e político – já que Getúlio era, por exemplo, amigo pessoal de Sávio Gama – o dono da Fazenda Retiro.

A partir daí a história já está bem contata em estudos, artigos e livros.

Foi construída uma usina, uma cidade integrada a ela e, finalmente, pela influência de Sávio Gama veio a emancipação e a criação do município de Santo Antônio de Volta Redonda.

O laço final de uma longa teia histórica.


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5 comentários

  1. Uau, 4 comentários.

  2. Mais uma vez Parabéns Aurélio.
    Continue sempre aqui.

  3. Gostei muito de uma matéria de alguns anos atrás o nome se não me engano era: De Volta Redonda a Resende, todos já foram paulistas um dia.

    Podiam republicar!

  4. Maria Angela da Silva Cunha

    Parabéns Aurélio Paiva pela narrativa, adorei muito inteligente. Sou de Barra Mansa, mas escolhi Volta Redonda pra trabalhar e criar minha família. Amo essa cidade. Parabéns Volta Redonda. Adoro história. Parabéns Aurélio Paiva

  5. Texto muito bom, como sempre nos traz o Aurélio. Mas a história de Volta Redonda, que deveria ser o mote principal, é praticamente uma nota de rodapé, um detalhe e consequência da história principal, que é a importância do tráfego marítimo nas relações econômicas, políticas e sociais ao redor do mundo…

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