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Mãe do jogador Arthur Vinícius fala sobre o descaso do Flamengo

Matéria publicada em 22 de setembro de 2019, 10:00 horas

 


‘A decepção só não é maior que a dor’, disse em entrevista do DIÁRIO DO VALE

Volta  Redonda-  Marília Barros soube na manhã do dia 8 de fevereiro que havia perdido o único filho, Arthur Vinícius, de 14 anos, durante um incêndio ocorrido na madrugada, no Ninho do urubu, Centro de Treinamento e local de moradia dos garotos da base do Flamengo. Arthur era zagueiro e morreu na véspera do aniversário. Da comoção da época e da exposição na mídia, restou pouco sobre a tragédia: dona Marília não tem contato com qualquer pessoa do Flamengo desde o dia 21 de fevereiro. Não há proposta de acordo em discussão e ela não sabe o que será sobre o desfecho do caso.

Nesta entrevista ao DIÁRIO DO VALE, ela fala um pouco sobre tudo que envolve o caso. E dos sonhos de Arthur Vinicius. Pelo menos um deles ainda pode ser realizado, dependendo do que Justiça decidir.

DIÁRIO DO VALE – Como estão as relações da senhora com o Flamengo nas questões que envolvem o processo sobre a morte do Arthur?

Marília Barros – A relação, podemos dizer, é difícil. Desde o início que tudo aconteceu da maneira mais difícil e complicada. Atualmente não há contato nenhum. O último contato que tive foi no dia 21 de fevereiro, discutindo os termos de um acordo. Mas só que os valores que eles ofereceram realmente não são aceitáveis. Na verdade, da diretoria eu nunca estive contato diretamente com ninguém para tratar do assunto. No dia da morte, eu tive um psicólogo, médico, assistente social. Foi esse o contato que tive no dia. No velório, veio um representante do Flamengo. No dia seguinte, um diretor me entregou a camisa do Fla-Flu (homenagem feita pelo clube às vítimas).

Esses foram os contatos. Aí, no dia 21 de fevereiro, houve aquela reunião com o Ministério Público e um vice-presidente do Flamengo esteve lá, mas não ficou até o final. Quando os pais não concordaram com os valores que o clube ofereceu, ele levantou e foi embora.

DV – Quantas reuniões de tentativa de conciliação já foram feitas? O que deu errado?

Marília Barros – Na verdade, só teve uma reunião. De errado deu o valor que eles oferecem. Nem o mínimo que o Ministério Público (*) pediu eles aceitam. Todos os pais ali gostariam é da presença dos filhos. Eu gostaria muito que meu filho estivesse aqui, pois nenhum dinheiro paga a vida do meu filho. Mas nem por isso preciso aceitar o pouco que eles oferecem. O que eles oferecem, realmente é injusto demais, demais.

DV – A senhora está em um processo coletivo ou move um caso à parte? Como está sendo feito?

Marília Barros – Estamos em um processo coletivo. Fala-se que duas famílias aceitaram (proposta fora da ação coletiva). Hoje, cada família tem seu advogado, mas a ação é coletiva. Não tenho contato com as outras famílias. No dia do incêndio, fui uma das primeiras a chegar no Ninho do Urubu, até pela proximidade do Rio com Volta Redonda, mas não tive contato com as famílias, fora o dia da reunião com o Ministério Público.

DV – Ao que parece, o Flamengo tentou fazer acordos em separado com algumas pessoas. Tentaram isso com a senhora?

Marília Barros – Não tentaram fazer acordo comigo, não me chamaram separadamente. No dia 15 de maio, um suposto advogado me ligou e disse ser representante do Flamengo, querendo conversar. Passei o telefone do meu advogado e nenhum contato foi feito depois disso. Não sabemos nem mesmo se era realmente um representante do Flamengo.

DV- A senhora sabia dos problemas estruturais e/ou documentais do Ninho do Urubu?

Eu não sabia dos problemas estruturais ou documentais do Ninho do Urubu. Acho que ninguém tinha ideia, até a tragédia acontecer. Sabia que eles ficavam num container, mas não que tinham problemas. Isso, não. No dia que fui conhecer o Ninho, eu vi as instalações, mas não entendo. Não sabia que havia algo de errado na estrutura e nos documentos.

DV – Acha justo o Flamengo gastar tanto dinheiro com o time profissional e deixar esta questão dos meninos da base ainda de lado?

Marília Barros – Não acho justo. Não tenho nada contra o time profissional, nada contra os profissionais. Não que eles não mereçam, pois eles devem ser valorizados. Acompanhei com meu filho o sacrifício que eles passaram para chegar até ali. Cada um deles já foi como o Arthur Vinícius um dia. Quando jovens, eles deixam de ir a festas, passam dificuldades na alimentação, ficam longe das famílias, tudo isso quando são muito novos. Como a carreira acaba cedo, a responsabilidade começa cedo. Mas acho injusto, pois se podem contratar jogadores por milhões, porque não acertam com as famílias dos jovens que defendiam o clube. São dez famílias. Eu ainda tinha meu filho mais perto, e sou tão grata a Deus por isso. Eu tive mais finais de semana que muitas das outras mães, e serei sempre grata a Deus por ter tido ele comigo. (Dona Marília se emociona muito neste trecho)

DV – A perda do único filho não é fácil…

Marília Barros – Perdi meu único filho, na véspera dele fazer 15 anos, com uma vida toda pela frente, um sonho para realizar. Por isso que proporcionei isso ao meu filho, pois ele era feliz com o que fazia. Penso: porque não fazem (Flamengo) esse acordo e encerram esse “assunto de Flamengo” na vida desses pais. Fica uma coisa pendente. Minha vida é assim: essa pendência. Já tem essa saudade. Deus vai confortando, mas essa saudade e essa dor nunca mais vão acabar. Será que eles têm essa consciência? sabem o que é isso? No dia que fui deixar o Arthur lá (no Ninho do Urubu), um diretor me perguntou “Mãe você está chorando?”. Contei a ele que tinha uma grande preocupação com a violência do Rio de Janeiro. Se ele sabia o que era deixar o único filho em uma cidade grande, com tanta violência. E tudo acabou ali, justamente no único lugar onde eu achava que ele estava seguro no Rio de Janeiro.

DV – Teme que o caso caia no esquecimento?

Marília Barros – Meu filho dizia que Deus age sempre na hora certa. Era o que ele colocou no Instagram dele. A Justiça aqui dos homens pode estar falha, mas Deus não esquece. Não esquece, não. Foram dez sonhos interrompidos, dez jovens vivendo longe da família. Ele ficava doido quando sabia que ia chegar em casa. Ele abria a janela do carro e dizia: “Ah, Volta Redonda, minha casa”. Pode cair no esquecimento para eles, para Deus não.

DV – Todos sabem que nenhum dinheiro do mundo vai trazer o Arthur de volta.
No entanto, a senhora aponta que ele morreu no local de trabalho. Realmente Aquele era o início da carreira do Arthur. O que espera da diretoria do Flamengo neste sentido?

Marília Barros – Sendo o time que é e pela estrutura que tem, esperava mais. A decepção é muito grande. Só não é maior que a dor. Desde o dia que aconteceu…eu não queria ser recebida pelo presidente, mas queria mais dignidade e respeito. Meu filho estava ali, vivo e servindo ao Flamengo. Beleza! Ele morreu e acabou? Eles tinham família. Às vezes ele ficava com saudade e dizia: “Queria ficar em casa mais um dia”. E se ele tivesse faltado a um treino ou a um jogo? Como seria isso? Ele tinha responsabilidade com o clube. Agora, falta respeito do clube perante os familiares. A gente vai aguentando, a gente vai sofrendo as consequências. Sofre a mãe, os avós, os tios, primos. Tem gente com depressão. Isso será para o resto da vida. Eu queria meu filho, com todas as dificuldades que passamos ao longo da nossa vida. Por tudo que passamos em dois anos, lutando um sonho para ele, por ele. Eu ia para jogo e sempre fazia o possível para ele ficar bem. Às vezes ele não ficava menos 24 horas em casa e já voltava para o Rio, mas estava feliz.

DV – Como ficou sabendo do incêndio e quando soube que o Arthur estava entre as vítimas?

Marília Barros – Fiquei sabendo quando me arrumava para sair e ir trabalhar. Eu e minha sobrinha estávamos em casa. Morávamos juntos eu, minha irmã, minha sobrinha e o Arthur. Minha irmã havia saído mais cedo neste dia. Chegou um primo meu em casa. Estranhei esse meu primo chegar por volta das 7h ou 7h30 em casa. Nisso, toca meu telefone e um amigo do meu trabalho me conta sobre o incêndio no Ninho do Urubu. Só aí meu primo me falou que veio falar a mesma coisa. Liguei a TV e já estava transmitindo. Veio chegando parentes, vizinhos, amigos, mas não sabia do Arthur.

O tio dele, Andinho, me levou ao Rio junto com o Felipe, um amigo. Eu falava o tempo todo: “Felipe, se você souber de algo, me fala”. Meu telefone não tocava, estava com minha sobrinha, eu mandei colocar crédito para não perder nenhuma ligação. Numa parada, em um posto de gasolina, um amigo falou: “Marília, e isso do Arthur?”. Aí eu olhei para os meninos que estavam comigo. Disse: “Vocês deveriam ter me contado”. Antes disso eu ficava imaginando “o Arthur era esperto é saudável, ele escapou”. Mas todos ali eram, né? Espertos e saudáveis. E isso não torna meu filho menos esperto.

DV – Para qual time a senhora torce? Ainda consegue ver futebol?

Venho de uma família de tricolores. Sempre fui uma apaixonada por futebol. Arthur teve primo no Voltaço, primo no Vasco. Hoje não tenho mais prazer nenhum em ver futebol. Ele queria ser famoso e dar melhores condições para a família, para mim. Quando vejo amigos dele jogando penso: “era o sonho dele”. Ao mesmo tempo, agradeço muito a Deus pelo que passei de bom com ele. Passamos alguns apertos, algumas saudades, amadurecimento. Ele passou por um time que qualquer garoto gostaria de passar. Foi chamado para seleção, esteve na Granja Comary aos 14 anos.

Por isso, com todas as dificuldade, eu proporcionei algo bom a ele e agradeço a Deus por isso. O mais difícil é de noite, sem ninguém para falar. Nos finais de semana sem ele aqui também dói muito. Tínhamos uma ligação forte eu e ele. Era eu por ele e ele por mim. Sobre futebol, ainda acho linda a festa das torcidas, sobretudo a do Flamengo. Hoje meu coração é rubro negro, mas esse coração sangra. Isso nunca mais vai passar.

(*) Na saída da reunião no Ministério Público do Trabalho, no dia 21 de fevereiro, a proposta do Flamengo, segundo o MP informou foi de R$ 300 mil a R$ 400 mil de indenização por atleta morto, somado a salários mínimos por dez anos pagos às famílias. Enquanto isso, o Ministério Público queria R$ 2 milhões e o pagamento de salários de R$ 10 mil até o momento que o atleta completaria 45 anos, ou seja, por mais trinta anos em média.


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8 comentários

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    capeta da grota do Santa cruz

    ABSURDO TOTAL. POXA E NADA DA TORCIDA SER SOLODARIA EMBORA NÃO TENHA NADA A VER COM O PEIXE. MAS DEVERIA BOICOTAR OS JOGOS ENQUANTO TORCEDORES ATÉ QUE TUDO SE RESOLVA

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    Estão fazendo muito oba-oba sobre esse caso. A indenização é justíssima, mas os valores que as famílias estão pedindo são surreais… Os jogadores era jovens, ainda amadores. O futuro era incerto, ninguém sabe se vingariam como jogadores profissionais e, ainda que seguissem carreira, ninguém sabe se seriam bem sucedidos. Advogados espertalhões estão querendo tirar prêmio de loteria do clube. Quantos trabalhadores de carteira assinada morrem no trabalho sem que suas famílias recebam indenizações vultosas? Os garotos eram filhos ainda, não arrimos de família. Pelo menos não deveriam, há outras pessoas que deveriam estar trabalhando…

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    Ela é uma ingrata. Falou mal do meu Voltaço e ainda por cima recusou uma homenagem que o Voltaço faria a ela e ao filho.

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    Dinheiro e fama e título isso é o que interessa aos diretores nojentos….Não culpo a instituição Flamengo.e sim os que comandam o Flamengo….esses deveriam ter mais amor com os jogadores que se foram

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    E os baba ovos da ” torcida” ficam em êxtase com um clube pagando salários de 2 milhões para cada jogador, no entanto não ” remediam” o sofrimento de uma mãe ou famílias que eternamente sofrerão com a falta de seu ente querido ! Queria saber se fosse com os filhos dos mais ardilosos torcedores, o que eles pensariam ! Lamentável, aumenta ainda mais o ódio deste clube asqueroso !!

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      Mais tive conversando com a Marilza irmã da Marília ,A direção do Flamengo vai ter enrolar…O tempo passou seu batata assada. Por exemplo : tenho uma simpatia pelo Vasco , Mais sou torcedor fanático do meu bolso . Quando meu bolso está fazio , fico muito triste . Vejo torceldor se matar por uma aventura que é o futebol. Estou sempre alertando meus amigo. Pegue esse dinheiro do ingresso do futebol vai comer uma pizza ou pagar um motel. É por isso que os políticos aproveita os torcedores fanáticos para fazer politicagem .

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      A Marília estava certíssima , iriam usar o nome do falecido para fazer propaganda e politicagem … parabéns Marília pela atitude!!

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