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A grande terra do frio

Matéria publicada em 11 de julho de 2019, 09:00 horas

 


Massas polares que gelaram nossas noites tem origem na Antártida

Depois de uma semana de temperaturas amenas, nossa região foi invadida por uma massa polar que chegou no sábado passado, fazendo as temperaturas despencar a níveis raramente vistos. No alto do Itatiaia e temperatura chegou a oito graus negativos. Em São Paulo a geada negra dizimou plantações de café e o frio matou moradores de rua. Em Volta Redonda e Barra Mansa os termômetros de rua andaram registrando temperaturas de sete, oito graus centigrados durante as madrugadas.

A origem de todo esse frio é a Antártida, o continente gelado que mergulha numa noite continua nesta época do ano, que dura seis meses devido a inclinação do eixo da Terra. Mergulhado na escuridão o continente vira uma gigantesca geladeira. Satélites artificiais já mediram temperaturas de 89 graus negativos durante o inverno antártico. Isso cria uma imensa massa de ar gelado, afinal a Antártida é um continente com duas vezes o tamanho da Austrália.

A rotação da Terra faz com que bolhas desse ar gelado escapem, subindo em direção ao Equador. À medida que sobe, saindo da escuridão polar, esse ar gelado esquenta. Mesmo assim quando chegam aqui, na nossa latitude, as massas polares ainda têm temperaturas em torno de cinco, oito graus centigrados. O que é muito frio para os nossos padrões subtropicais. E ao contrário das frentes frias, que não duram mais do que alguns dias, uma massa polar pode ficar estacionada aqui no sul e no sudeste durante uma semana.

A Antártida, origem de todo esse frio, é um dos lugares mais fantásticos do planeta Terra. Ela é tão remota e hostil que só foi descoberta em 1820, no século dezenove, e foi só em 1911 que o primeiro homem chegou no polo sul. Foi o explorador Roald Amundsen que colocou a bandeira da Noruega no polo geográfico, no meio do planalto antártico. A partir do final da Segunda Guerra Mundial a Antártida foi invadida por equipes de cientistas de vários países, que instalaram bases permanentes por lá. As maiores pertencem aos Estados Unidos e a Rússia.

Apesar de toda a tecnologia moderna, a Antártida ainda é um lugar perigoso para os seres humanos, como foi enfatizado pela tragédia do Monte Erebus em 1979. Na década de 1970 uma companhia aérea da Nova Zelândia começou a organizar viagens de turismo pela Antártida. Os passageiros embarcavam em jatos comerciais DC-10 que sobrevoavam os principais locais históricos do continente. Tudo correu bem até a manhã fatídica de 28 de novembro de 1979, quando o DC-10 da Air New Zeland decolou para sobrevoar a Antártida com 237 passageiros e um guia a bordo. O piloto perdeu a orientação espacial devido ao fenômeno conhecido como “whiteout”, quando o céu nublado reflete a luz da superfície gelada e o horizonte desaparece, e o DC-10 se espatifou na encosta do vulcão Monte Erebus matando todos os ocupantes.

Foi o fim dos voos turísticos sobre a Antártida, mas ainda existem empresas que organizam excursões em navios, muito mais seguras. Elas acontecem durante o verão, com as temperaturas mais amenas e percorrem as bases que ficam nas margens do mar antártico.

Hoje, no século 21, a Antártida continua a ser um local de grande importância científica. Tanto para estudos sobre o clima quanto para as ciências espaciais. Os americanos tem uma enorme base perto do polo sul que opera o ano inteiro. Lá foi instalado um telescópio de neutrinos que estuda as partículas atômicas que vem do espaço.

O continente gelado vem registrando aumentos de temperatura devido ao fenômeno do aquecimento global. O que tem provocado o desprendimento de icebergs gigantescos. Mas continua a ser o grande freezer do planeta Terra. A massa polar desta semana não foi a primeira nem será o última, o jeito é se preparar e manter um bom estoque de casacos no armário.

Por: Jorge Calife


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