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Capa / Espaço Aberto - Por Jorge Calife / A Luluzinha solitária e o Clube do Bolinha da Nasa

A Luluzinha solitária e o Clube do Bolinha da Nasa

Matéria publicada em 26 de julho de 2019, 09:21 horas

 


Frances “Poppy” Northcutt foi a única mulher no controle da missão Apollo

A turma que tem mais de 40 anos deve se lembrar das histórias em quadrinhos da Luluzinha e do Bolinha. Elas foram muito populares aqui no Brasil, nas décadas de 1960 e 1970. Luluzinha era uma menina que vivia as turras com seu melhor amigo, o Bolinha. Tudo porque ele tinha um clube, numa casinha no alto de uma árvore, onde não era permitida a entrada de meninas. A história fez tanto sucesso que a expressão “Clube do Bolinha” virou sinônimo de grupos e instituições que boicotam o sexo feminino.

A NASA, na época da chegada do homem na Lua, era assim. Todos os astronautas eram homens, mulheres não podiam ir ao espaço sideral. Elas só eram permitidas em funções de apoio, como enfermeiras e calculadoras, mesmo assim eram minoria. Há dois anos Hollywood fez um filme, cheio de erros, chamado “Estrelas além do tempo” sobre três matemáticas afrodescendentes que trabalharam nos cálculos de órbita do programa Mercury. Que enviou os primeiros americanos ao espaço.

Mas não foram as únicas. Quem assiste aos vídeos do voo da Apollo 11 vai notar uma loira solitária no meio daquela multidão de homens. A única mulher controladora de voos que atuou durante as missões lunares de 1968 e 1969. Durante as comemorações dos 50 anos da descida na Lua, semana passada, o site space.com entrevistou a moça, hoje uma senhora de idade. O nome dela, Frances “Poppy” Northcutt parece tirado de uma história em quadrinhos da Marvel.

Pioneira: Northcutt achava o caminho certo para a Terra
(Foto Frances Northcutt)

A senhorita Northcutt tinha 25 anos e trabalhava para a empresa TRW, um dos muitos gigantes da eletrônica sub-contratados pela Nasa na época das missões Apollo. Chamada de “gênio da matemática” num anuncio da empresa, Northcutt desenvolvia os programas de computador que guiavam as naves Apollo no arriscado retorno de suas missões lunares. Quando as naves deviam atingir um “corredor de reentada” fino como uma folha de papel ou se queimariam na atmosfera da Terra.

Se fizerem um filme sobre a vida dela, acho que a atriz ideal para interpreta-la seria a Gwyneth Paltrow. A matemática gênio tinha certa semelhança com a Pepper Potts, aquela secretária do falecido Homem de Ferro. Na entrevista para o Space.com, Northcutt lembra que nem devia estar no controle da missão, durante a decolagem da Apollo 8. Porque seu trabalho era guiar as naves no retorno a Terra, não na partida. Mesmo assim a loira fazia questão de acompanhar todas as fases da missão.

A Apollo 8 foi a primeira nave que orbitou a Lua, no Natal de 1968. Quando a nave entrou na trajetória correta, depois de acionar os motores sobre o lado oculto da Lua, o astronauta James Lovell disse no rádio: “Papai Noel existe”. O Papai Noel era aquela moça de 25 anos, sentada diante de um console eletrônico no Centro de Espaçonaves Tripuladas em Houston, no Texas. “Aquelas manobras eram realizadas atrás da Lua, sem comunicação com a Terra. Era a primeira vez que ficávamos sem comunicação com a Terra” ela relembra.

Seu trabalho era tão importante que foi celebrado num anuncio de página inteira, publicado pela TRW nas revistas da época. Além de orientar a Apollo 8, Northcutt também esteve presente nas missões seguintes das Apollos 9, 10 e 11. E como diz o anuncio aí em cima: “Poppy continuou trazendo nossos astronautas para casa”.

Hoje a Nasa tem muitas mulheres tanto no espaço quanto em seus centros de controle. O tempo do clube do Bolinha acabou com os ônibus espaciais, na década de 1980. E as próximas missões lunares farão parte do projeto Artemis. A irmã de Apollo. Mas é importante lembrar o papel das pioneiras, nos tempos heroicos da Apollo. Elas serviram de inspiração para todas aquelas que seguiram seus passos na estrada para as estrelas.


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Um comentário

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    Muito legais estas histórias dos bastidores da corrida espacial. Só lembramos dos astronautas, mas havia muitos heróis anônimos que foram fundamentais para que a humanidade fosse ao espaço.

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