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Coletivo vai lançar bloco de carnaval formado só por mulheres em 2021

Matéria publicada em 16 de fevereiro de 2020, 16:40 horas

 


A luta contra o feminicídio é um dos principais temas do bloco ‘Marias da Penha’

Mulheres lançam bloco ‘Marias da Penha’ em
protesto aos casos de feminicídio na região
(Foto: Redes sociais)

Volta Redonda – Um coletivo feminista formado inicialmente por quatro mulheres de Volta Redonda pretende lançar um bloco de Carnaval em 2021 formado só por mulheres com o objetivo de protestar contra o aumento da violência doméstica na região, principalmente sobre casos de feminicídio. O bloco “Marias da Penha” é uma homenagem a Maria da Penha Maia, que foi agredida pelo marido durante seis anos até se tornar paraplégica, depois de sofrer atentado com arma de fogo, em 1983. A lei Maria da Penha foi criada em setembro de 2006 e torna mais rigorosa punição para agressões contra mulheres.

As fundadoras do futuro bloco já ganharam 50 foliãs ainda em 2020, todas dispostas a lutar pelo fim das mortes de mulheres por causas violentas. As idealizadoras são: Elisângela Fleming, Fátima Santos, Iara Malvino e Rosilene Souza pretendem acompanhar neste Carnaval de 2020 algumas apresentações de blocos tradicionais de Volta Redonda e confeccionaram camisas que trazem dados sobre os índices de feminicídio na cidade. O coletivo ainda luta pela igualdade de gênero e quer através do bloco conscientizar a sociedade sobre os números de violência que foram registrados em Volta Redonda.

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública, o município registrou em 2018 49 estupros; três tentativas de estupros; duas tentativas de feminicídios; e nove atentados ao pudor. Dos 49 casos de estupros, 77,5% são de crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos. Mais: 73,5% dos casos acontecem na própria residência. Para piorar, 46,9% são de crianças de 0 a 11 anos e 30,6% de 12 a 17 anos.

Para a jornalista Fátima Santos, o ódio ao gênero feminino é “reflexo de uma sociedade patriarcal”, que “denota aos homens uma autoridade superior às mulheres”, seja economicamente, profissionalmente, fisicamente e emocionalmente.

– Precisamos dar um basta na misoginia, na repulsa e no ódio ao gênero feminino. Esses sentimentos fazem parte da educação pautada no patriarcado. Esse tipo de educação influência os homens a acharem que são donos do corpo e da vida das mulheres. O patriarcado ensina ainda que as relações de poder entre os gêneros devem colocar a mulher numa posição subalterna a do homem, fazendo-a mera coadjuvante e vítima de sua própria vida, sendo o gênero masculino detentor de poder sobre a mulher, podendo ter controle do seu corpo, sua mente e até mesmo de sua sexualidade – disse.

Outro ponto que o coletivo feminista traz à tona é a liberdade feminina em diversos aspectos e a união entre as mulheres.

– Nosso objetivo é de criar espaços para que as mulheres se fortaleçam e saibam que não estão sozinhas. Esse é apenas um passo de fortalecimento das mulheres. Vamos para a rua mostrar que somos donas das nossas vidas e que não queremos morrer nas mãos de homens que acreditam serem os nossos donos – comentou Fátima, acrescentando que a ideia de criar o bloco “Marias da Penha” surgiu através de uma reportagem sobre um bloco formado só por mulheres em Salvador, na Bahia.

– Vi uma matéria sobre um bloco em Salvador que é formado só por mulheres, contra o feminicídio. Daí me veio à vontade de chamar algumas amigas para fazer um bloco aqui em Volta Redonda – falou.

A proposta do bloco também inclui pautas LGBTQI+. Iara Malvino, outra fundadora do bloco, destacou que mulheres trans, lésbicas e travestis são bem-vindas ao coletivo e a participar do bloco.

– Essas mulheres sofrem a mesma violência que nós, em alguns casos até pior. Acho que o objetivo principal é unir forças – reforçou Iara, que é professora de biologia e especialista em sexualidade humana.

A técnica de segurança do trabalho, Rosilene Souza, também faz parte do coletivo e comentou que além da atuação no ano que vem no Carnaval, o grupo quer atuar em outras datas reforçando o respeito às mulheres.

– Queremos dar um passo de cada vez. Esse é o começo. Estamos plantando uma semente. Mas temos outros planos para o futuro – disse.

Em relação às críticas ao feminismo, a administradora de empresa Elisângela Fleming, comentou que há ignorância sobre o tema no Brasil e que o país tem foco na moral sexual da agenda conversadora, fruto de uma influência religiosa.

– Na verdade, existe muita desinformação quanto ao que o feminismo reivindica. E em um país de maioria conservadora, fundamentalista, uma sociedade ainda com forte influência religiosa, vê na emancipação da mulher um inimigo a ser combatido. O que nós buscamos é respeito. Que possamos fazer nossas escolhas, decidir sobre nossos corpos e vidas sem que sejamos rotuladas, objetificadas e mortas apenas porque homens se sentem donos ou nos veem como usufruto único de seu prazer. Atualmente a nossa voz já está sendo ouvida, mas ainda estamos sendo mortas. Existe muito caminho a ser percorrido ainda. Precisamos ainda unir cada vez mais, mais mulheres nesta luta – enfatizou.

Lei Maria da Penha completa 14 anos

A lei Maria da Penha completará 14 anos de vigência em 22 de setembro deste ano e o primeiro caso de prisão com base na lei foi de um homem que tentou estrangular sua mulher, no Rio de Janeiro. O Brasil foi o 18º país da América Latina a adotar uma legislação para punir agressores de mulheres.

A reportagem perguntou as organizadoras do bloco “Marias da Penha” se elas conheciam alguma mulher que tenha sofrido violência e a resposta veio com outra pergunta: “você conhece alguma mulher que nunca sofreu algum tipo de violência”?

– Todas nós já passamos por algum tipo de violência. Eu, por exemplo, sofri por anos de violência psicológica. Foi um período difícil e que só consegui superar com a ajuda da minha filha – declarou Fátima Santos.

Com a Lei Maria da Penha, a violência doméstica passou a ser tipificada como uma das formas de violação aos direitos humanos e os crimes a ela relacionados passaram a ser julgados em Varas Criminais, até que sejam instituídos os juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher nos estados.

De acordo com informações da Agência Senado, a violência de gênero contra a mulher é entendida como problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS), cujos estudos apontam índices entre 20% a 75% desse tipo de agressão em diferentes sociedades.

Serviço

Mulheres interessadas em participar do coletivo feminista e no desfile do bloco em 2021 podem entrar em contato com as organizadoras através das redes sociais: Instagram: @blocomariasdapenha ou pelo Facebook: Bloco Marias da Penha Volta Redonda. Nas redes há informações dos dias e horários das participações especiais em alguns blocos da cidade neste ano.


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