quinta-feira, 15 de novembro de 2018

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Crônica: Aos Amigos

Matéria publicada em 20 de agosto de 2018, 08:42 horas

 


No sítio, madrugada bem fria e, mesmo assim, o sono partiu sem dizer adeus. Uma saudade nostálgica de tudo que passei, aqui e em Volta Redonda.
Um silêncio enorme, povoado por ruídos distantes também tristes e cheios de esperanças pelo novo dia que se aproxima: são 5.51h.
Os galos emendam suas cantigas, um, no outro canto prolongado. Parecem disputar quem alonga mais a nota final da cantoria.
Algumas pombas rolas já dão o ar da graça. É um canto mais triste que o dos galos: parece um lamento de perda.
Há também uns cães que me deixam preocupados se estão sentindo frio. Latem de forma lamentosa também.
Eu estou com frio. Um, no corpo; outro; na alma.
Quando venho aqui, me sinto assim. Há três meses não vinha.
Passam por minha cabeça 40 anos de vida com muito mais alegrias que tristeza. Um privilégio dado a poucos. Aqui, tive um ninho construído por mim, com meu esforço, sozinho.
Aqui, tive amores, tenho amigos. Aqui, minha juventude se foi, deixando marcas visíveis, só por mim, em minha alma. Algumas, bonitas como belas tatuagens que não se apagarão nunca: irão comigo até o meu fim. Outras, verdadeiras cicatrizes mal curadas, feias, feitas, na sua maioria, sem a minha permissão.
Aqui, comecei a conhecer o abandono, quando, no meu primeiro ano de vida, meu pai se foi para sempre e o que poderia ter sido, nunca aconteceu.
Aqui, tive que aprender a ser forte, na marra; e estou aprendendo até hoje. Tenho a certeza de que irei aprender até o meu último suspiro.
Tudo foi aqui.
Por motivos alheios a minha vontade, fui-me embora para o Rio.
Estou feliz lá?
Ainda não, ainda não me acostumei com a nova vida. Mas nunca fui de desistir de procurar a minha felicidade: estou investindo muito nela neste meu período de canto de cisne. Vou achá-la, tenho certeza disso. Já fiz alguns amigos novos, já curto minha nova rotina, aliás isso fiz mais depressa. É um bom avanço.
Já tenho o respeito dos vizinhos, a admiração de algumas pessoas, do que sempre preciso e a vida está tomando a sua nova forma, aos poucos, sem pressa. Não é preciso, nem possível, correr, neste período da vida.
Quem corre cansa e pouco alcança devido ao cansaço.
Lá vou eu, sempre aprendendo, sempre com humildade para dizer que não sei e aberto para permitir que me ensinem
Vou fazer meu café!
Por: Ernani Mazza, Membro da Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil.


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