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Dependência química: Vivendo um dia de cada vez

Matéria publicada em 23 de agosto de 2015, 11:08 horas

 


Ex-dependentes químicos relatam como conseguiram se recuperar e destacam importância de projeto ‘Desafio Jovem’

Dependência em bebida  também é tratada em clínicas (Marcos Santos/USP Imagens)

Dependência em bebida também é tratada em clínicas (Marcos Santos/USP Imagens)

Volta Redonda –  Quem vê hoje o jovem casal B.S, 28 anos, e R.C, de 22 anos, não imagina o poder de superação do ser humano. Os dois foram dependentes químicos e conseguiram vencer os vícios. Com depressão, viciado em remédio e álcool, B. afirma, com orgulho, que está recuperado há oito anos. Detalhe: o sorriso de felicidade em seu rosto prova isso. “Hoje a minha vida é maravilhosa”, resume.

Quando tinha 19 anos, ele pulou do sexto andar de seu apartamento e sobreviveu. “Foi um milagre. Não queria viver, me joguei da janela do meu apartamento. Rompi o baço, perdi o rim esquerdo e tive fratura em todo corpo. Fiquei no hospital por um tempo”, conta. “Mesmo assim, um mês após a tentativa de suicídio, voltei ao uso de drogas”.

A história da mulher dele não é muito diferente. “Queria me matar usando drogas. Comecei com maconha e logo fui para a cocaína. A minha degradação foi quando me viciei no crack, aos 17 anos”, relembra:

– Roubei tudo que tinha em casa e dos meus vizinhos para sustentar meu vício. Ficava mais na rua do que em casa – conta a mulher, que está sem usar drogas há cinco anos.

O encontro dos dois aconteceu numa forma inusitada. O casal foi internado na mesma instituição de recuperação de dependentes químicos: o Projeto Desafio Jovem, na cidade mineira de Pouso Alto – a 135 quilômetros de Volta Redonda.

Hoje eles ocupam o cargo de coordenadores do projeto, que atende mais de 80 dependentes químicos buscando a recuperação e uma nova maneira de viver. Quem queria morrer, hoje ajuda a salvar vidas. Entre elas, está a do adolescente de 16 anos de Volta Redonda. “Estou aqui um ano. Gosto muito daqui, aprendo todos os dias”, relata.

O pai do menino diz que não havia outra solução. “Estava insustentável a situação. Todos da família estavam sofrendo”, diz o pai. “Não conseguia render no meu trabalho, nem 30% da minha capacidade profissional, por causa do uso do meu filho”, conta o pai, que é metalúrgico.

 Sindicato e empresas firmam parceria

Sensibilizado com a história do filho do metalúrgico, o presidente do sindicato da categoria, Silvio Campos, reuniu representantes de empresas do setor metalúrgico para firmar uma parceria com o projeto de Pouso Alto para que os metalúrgicos e filho deles recebam tratamento adequado para vencer a dependência.

– Sabemos que é uma doença e que precisa de tratamento adequado. Estamos constatando um número elevado de metalúrgicos e de seus filhos na dependência química. Isso reflete diretamente no bem estar dos nossos trabalhadores e no desempenho profissional deles – afirma o sindicalista.

Na semana passada, uma equipe do Sindicato dos Metalúrgicos, representantes do Metalsul (sindicato patronal) e da MAN Latin América visitaram as instalações do projeto na cidade mineira.

– Gostei muito do trabalho do projeto. A instituição é séria no tratamento dos dependentes químicos – diz a representante do Metalsul, Corina Santos.

O sindicato patronal representa mais de 130 empresas do setor metalúrgico e com quase 50 mil trabalhadores.

 Índice de recuperação chega a 70%

Embora o projeto Desafio Jovem tenha ligação com a igreja evangélica, o diretor-geral da instituição de Pouso Alto, Luiz Fernando Santos, recebe pacientes de todas as crenças e religiões. “Nosso objetivo é na recuperação dos dependentes químicos com os princípios de Deus. Ninguém é obrigado a se tornar evangélico. Queremos tratar a raiz do problema que faz a pessoa usar subsistências químicas. É mudança de vida”.

Segundo ele, o índice de recuperação chega a 70% dos internos do projeto. “Já conseguimos atender mais de 1,1 mil dependentes químicos”.

Dados do Ministério da Saúde, no Brasil, em torno de 18 milhões de pessoas sofrem com algum tipo de dependência química.

 Primeiro passo é querer parar de usar drogas, afirma especialista

O tratamento de dependência é simples, desde que o paciente já tenha se conscientizado de sua doença e realmente esteja disposto a entrar em recuperação. A afirmação é do médico psiquiatra Antônio Carlos Cardoso, da Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista em dependência química. “No entanto, tratamento simples não quer dizer fácil, e se o paciente não está disposto a enfrentar o tratamento de frente, não conseguirá a recuperação”, constata.

De acordo com ele, os primeiros dias sem a droga são difíceis, pois o corpo e a mente do dependente exigem a droga. Os sintomas de abstinência têm curta duração: entre 5 a 10 dias.

– Qualquer sintoma de abstinência depois do décimo dia é de natureza psicológica ou sintomas de algum distúrbio físico ou mental desenvolvido durante o uso da droga e não percebido – conclui.

 Viver um dia de cada vez

“Só por hoje”. Este é o lema de grupos mútua ajuda que utilizam os 12 passos para a recuperação de dependentes químicos e alcoólicos. Em Volta Redonda, este método é usado há mais de 40 anos e existem 25 salas de reuniões destas irmandades.

Os 12 passos, que surgiu nos Estados Unidos há 80 anos, é recomendado por religiosos e profissionais de saúde. “A ideia do ‘só por hoje’ é viver um dia de cada vez. Assim, alivia a carga do passado, com o sentimento de culpa, e o medo do futuro – nos restando apenas o dia de hoje. Só por hoje não uso drogas e nem bebo”, explica um membro da irmandade, que preferiu o anonimato.

“O programa é espiritual e não religioso. Para respeitar a crença de cada um, os membros utilizam o termo de Poder Superior, ao invés da palavra Deus. Durante as reuniões, os membros compartilham suas experiências de vida. A identificação entre os membros é impressionante. E mais: tudo que é dito na sala fica na sala, com o anonimato total dos membros”.

Um que frequenta essas reuniões é J.L, de 44 anos. Ele afirmou que os 12 passos mudou a sua vida. “Fui internando duas vezes e quando sai da última internação comecei a frequentar as reuniões e não voltei a usar drogas e beber. Minha vida mudou radicalmente para melhor”, afirma J.L, que “está limpo” há 24 anos. Hoje ele trabalha com aqueles que buscam recuperação no CAPS-AD e numa clinica de recuperação dependência química em Arrozal, distrito de Piraí.

 Dar o que recebeu de graça

A vida de J.V.A, 48 anos, é um exemplo de determinação e superação. Venceu a dependência química, através dos 12 passos, superou um atropelamento de trem no qual o deixou em uma cadeira de rodas e, mesmo com a dificuldade física, faz um trabalho de prevenção contra o uso de drogas.

O trabalho dele é voluntário e a intenção é simples: dar o que recebeu de graça. Ele ministra palestra, conta a sua história, dá apoio aos familiares de dependentes químicos. Vai onde chamam por ele, desde igrejas a universidades. “A droga transforma as pessoas no que elas não são. Qualquer dependente químico pode parar de usar. Já vi acontecer verdadeiros milagres”, diz.

 *As iniciais dos nomes dos entrevistados foram trocadas.


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2 comentários

  1. Avatar

    Bom dia, Tive a oportunidade de conhecer o trabalho do Projeto Desafio Jovem e parabenizo a iniciativa do sindicato em apoiar esse projeto.

  2. Avatar

    A melhor forma é não começar, vamos mostrar para nossos jovens e crianças que o mundo é melhor sem drogas!

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