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Dia Mundial da Poesia: Slam cria geração de poetas urbanos

Matéria publicada em 22 de março de 2019, 09:00 horas

 


Conheça a “batalha de poesia”, movimento criado nos EUA que tem se tornado fonte de conscientização no Brasil

Nesta quinta-feira, dia 21 de março, comemoramos o Dia Mundial da Poesia que foi criado na XXX Conferência Geral da UNESCO, em 16 de Novembro de 1999, com o objetivo de promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da poesia internacionalmente. No Brasil, o dia nacional é comemorado em 31 de outubro, nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade.
Entre as vertentes da poesia, temos o Poetry slam (traduzido literalmente do inglês, “batida de poesia”) ou simplesmente “Slam”. É uma competição em que poetas leem ou recitam um trabalho original (ou, mais raramente, de outros). Estas performances são, em seguida, julgadas por membros selecionados da plateia ou então por uma comissão de jurados. Geralmente, as notas vão de zero (a pior) a dez (a melhor). Retiram-se, então, as melhores e as piores notas, mantendo-se apenas as três notas do meio. Dessa forma, a maior nota que uma pessoa pode tirar é trinta, e a menor é zero.
Aos 21 anos, Nega Lu descobre poesias em coisas que nunca vira antes. Do cabelo ao colar étnico que exibe orgulhosamente no peito, tudo é inspiração para suas criações. As palavras não saem da boca como se fossem um simples ato de comunicação. Transformam-se em política. Brotam guerreiras do corpo de mulher negra e periférica da cidade de Santa Maria.
Aos 27 anos, Araian arrancou da gaveta dois livros de poemas que guardou por uma década, quando lutou contra depressão. Hoje, as frases de sua autoria correm pelo corpo como se fossem o próprio sangue. Intensa, é capaz de contagiar a plateia nos primeiros instantes de performance poética. As ideias dão identidade à miscigenação de negros e índios que acolhem a trajetória feminina de luta fincada na Ceilândia.
Nega Lu e Araian se enchem de pertencimento quando se identificam como poetas do slam (em inglês, batida) – movimento de rua nascido no círculo operário norte-americano, na década de 1980, que contagiou a França no começo do século XXI e, agora, espalha-se em velocidade pelas periferias brasileiras.
– Houve um engajamento feminino imediato no slam porque as expressões culturais de rua são machistas e tentam pôr as mulheres como coadjuvantes da cena – aponta Nega Lu, graduada em Assistência Social.
Universo feminino
O slam trata de temas mais ligados ao universo feminino, que geralmente não têm espaço em outras manifestações artísticas do movimento de rua, como o hip hop. Os chamados “slammers”, poetas de slam, falam livremente sobre misoginia, homofobia e machismo.
– Uma das poesias mais fortes que recito fala de feminicídio. Certa vez, uma das mulheres que assistiam à performance ficou muito tocada porque circulava com o papel da medida protetiva contra o marido na bolsa – revela Araian.
– Os poetas têm um papel fundamental de conscientização da plateia, que aumenta de acordo com a militância de cada um – conta Will Junio, poeta e professor, que trouxe a primeira batalha de slam ao DF, a Slam-déf, em 2015.
Nessa época, Will conheceu a atriz e ativista cultural Roberta Estrela Dalva, que trouxe, junto ao grupo teatral Núcleo Bartolomeu de Depoimentos (SP), o slam para o Brasil, produzindo as primeiras batalhas na capital paulista.
– Foi paixão à primeira vista. Ela me ensinou as regras, mostrou vídeos e, de repente, fizemos a primeira edição em Brasília. Ali, já fiquei entre os primeiros colocados – lembra-se o poeta, que foi classificado para seletiva nacional e esteve num mundial sediado no Rio, quando viu o mar pela primeira vez.

Ambiente de escuta
O slam é organizado em batalhas competitivas com júri popular (escolhido na hora) e etapas regional, nacional e internacional (realizada em Paris). O clima, no entanto, não é como as conhecidas pelejas de “sangue” dos MCs, quando no improviso, um tenta “desmerecer” o outro, atingindo os “pontos fracos” do adversário. No slam, a voz é a arma do poeta. E a emoção, munição.
O ambiente das batalhas é de aprendizado e de escuta. A palavra é soberana. Não há melodias que sobreponham os versos. São três poesias de até três minutos cada uma, ditas na crueza do silêncio.
– No máximo, uma música ambiente, em algumas batalhas, para entrada dos slammers – conta o DJ Chris, organizador do Slam DF.
Numa batalha, os poetas entram em cena com a voracidade de quebrar o silêncio e lançam seus versos que não necessariamente estão organizados em métricas. Podem ser completamente livres. A nota é uma consequência. O que vale é a liberdade de expressão em dizer o que sai da verdade de cada um.
– O slam respeita a diversidade e a interlocução de vários sotaques – pontua Nega Lu, que organiza o Poetisas em Cena, slam de Brasília.

Literatura na rua
Quem assiste à batalha de slam tem a sensação de que a poesia saiu dos bem-comportados saraus para se esbaldar pelo mundão das ruas. Há uma mudança do estado corporal de cada slammer. Eles gesticulam, circulam, quase dançam com a musicalidade das próprias palavras. Araian busca intuitivamente o teatro para impulsionar as muitas vozes que habitam em sua poética. Em nenhum momento, deixa a emoção esvair porque a carrega nos olhos.
O slam é engajador porque habilita jovens, que socialmente estão colocados à margem, como criadores potentes de suas narrativas poéticas. Tornam-se autores e, alguns, interessam-se pela poesia, antes vista como algo distante e estático. Assim, as ruas viram uma gigante sala de aula de literatura, onde se aprende num processo livre. Em São Paulo, a arte está dentro das escolas públicas.

Como surgiu o slam
Poeta de Chicago (EUA), Mark Kelly Smith criou o slam na década de 1980 porque acreditava na poesia como uma forma de comunicação imediata entre as pessoas. Via a narrativa poética “morta” nas academias e salas de aula. Resolveu assim criar sessões de microfones abertos para a poesia falada. Virou uma febre. Em 1990, ele organizou a primeira competição nacional de slam poetry, que se espalhou pelo país e pelo mundo, tendo a França como um dos primeiros países a abraçar o movimento (hoje, há 500 comunidades registradas no mundo).
No Brasil, o slam chegou primeiramente, em São Paulo, trazido por Roberta Estrela Dalva, que, ao lado de Tatiana Lohmann, dirigiu o documentário “Slam: a voz de levante” (2017), vencedor do Festival do Rio e do Festival Internacional Mulheres no Cinema. Que tem recursos da Ancine.

 

* As informações são da Secretaria Especial da Cultura – Ministério da Cidadania


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