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Em meio à pandemia, país enfrenta aumento no número de casos de violência contra mulher

Matéria publicada em 14 de janeiro de 2021, 15:40 horas

 


Autor de livro sobre o tema, desembargador defende investimentos em mecanismos de prevenção

O isolamento devido à pandemia tem provocado um fenômeno mundial que preocupa os governantes, que é o aumento de casos de violência contra a mulher. Dados da ONU Mulheres apontam que o confinamento levou a aumentos das denúncias ou ligações para as autoridades por violência doméstica. Na França, por exemplo, foi de 30%, quanto que na Argentina, 25%. No Brasil, durante os meses de maior isolamento social, entre março e junho do ano passado, houve um aumento de 16% no número de feminicídios, em comparação a igual período do ano anterior. Segundo dados levantados pelo Instituto Igarapé, o número de chamadas ao Ligue 180 relacionadas à violência doméstica também subiu 36% na mesma comparação.

Entretanto, o desembargador Wagner Cinelli, que acaba de lançar o livro “Sobre Ela – Uma História de Violência”, em que traz justamente, a partir de sua experiência nos tribunais, um estudo sobre o tema, destaca que o problema não é novo e que já vinha crescendo mesmo antes da pandemia. Em 2017 foram registrados 4.473 homicídios dolosos de mulheres (um aumento de 6,5% em relação a 2016). No mesmo período, o número de estupros no Brasil cresceu 8,4%. “Provavelmente os números são bem maiores, pois muitos casos de violência que ocorrem nos lares sequer são notificados”, alerta Cinelli.

Para o desembargador, a história da humanidade tem sido a história da mulher subjugada pelo homem. “Isso tem reflexo na lei e é retroalimentado na cultura. Não são poucas as frases machistas que são ditas no dia a dia”, avalia. O resultado disso é que a violência abrange todas as classes sociais e etárias, sem fazer distinção.

Prova disso, é o caso recente de uma atriz que denunciou um ex-namorado funkeiro por agressão e ameaças. Ainda no início do relacionamento, a mídia destacou que os pais dela acusavam ele de agredi-la. Ainda assim, em um primeiro momento, ela saiu em defesa do então namorado. Cinelli explica que esse comportamento é comum de acontecer e comprova que a violência doméstica pode atingir qualquer mulher. “É comum a vítima ignorar as primeiras demonstrações de comportamento abusivo, que tende a se tornar frequente e escalar em termos de gravidade”, alerta.

Segundo o desembargador, é preciso um trabalho árduo da sociedade e dos governantes para mudar essa cultura. Além do aprimoramento da lei, defende Cinelli, são precisos mecanismos de prevenção, principalmente aqueles voltados para conscientização de todos desde pequenos. “Ninguém pode achar que a violência é normal”, afirma Cinelli, que também aponta a necessidade de se ter canais eficientes para denunciar os casos de agressão. “Precisamos tornar cada vez mais conhecido o número da Central de Atendimento à Mulher, que é o 180. Esse número precisa estar gravado em nossas mentes da mesma forma como sabemos que o 190 é o da Polícia Militar”, diz.

Casos chocam o país

No início do ano, dois casos de feminicídios ocorridos em menos de 12h chocaram a população do Estado do Rio. Em um dos casos, o suspeito é ex-companheiro da vítima. Em Teresópolis, na Região Serrana, uma mulher de 29 anos foi assassinada no último dia 4. Natália da Silva Fonseca de Souza foi morta a tiros em sua casa no bairro de Barra do Imbuí. O suspeito é ex-marido da vítima, Alexsandro Fonseca de Souza, que ainda tentou tirar a própria vida. Ainda no mesmo dia, uma adolescente de 14 anos morreu após ser baleada no bairro do Condado, em Paraty, na Costa Verde do RJ. A jovem, que completaria 15 anos neste mês, chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital.

Na véspera de Natal, outro caso que chocou a todos foi o assassinato da juíza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi, foi morta a facadas pelo ex-marido, Paulo Arronenzi, na frente das três filhas. O caso ocorreu na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio.

 

Capa do livro do desembargador Wagner Cinelli (Foto: Divulgação)

 

 


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