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Flip 2018: Hilda Hilst

Matéria publicada em 22 de julho de 2018, 07:51 horas

 


Abertura acontece na quarta-feira (25), com a participação de Fernanda Montenegro e Jocy de Oliveira

Foto: Divulgação

Na próxima quarta-feira (25) a Festa Literária Internacional de Paraty chega a sua 16ª edição. Desde 2003, a Flip oferece todos os anos em Paraty uma experiência única, permeada pela literatura. Sempre em conexão com a cidade que a recebe, a festa é mais do que um evento, é uma manifestação cultural. Numa interlocução permanente entre as artes, propaga vivências focadas sobretudo na diversidade.

Após homenagear Lima Barreto, autor cuja obra dialoga com as questões sociais e políticas de seu tempo, a Flip homenageará este ano a escritora Hilda Hilst, escritora que fez sua literatura em torno de temas como o amor, a morte, Deus, a finitude e a transcendência. Com curadoria de Joselia Aguiar, a Flip 2018 acontece de 25 a 29 de julho, em Paraty.

De acordo com o diretor geral da Flip, o arquiteto Mauro Munhoz, a escolha de Hilda Hilst como autora homenageada se deu pelo fato de sua obra extrapolar fronteiras. Assim como os outros poetas brasileiros, leu Drummond, Bandeira e Cabral, mas leu também Fernando Pessoa, o francês Saint-John Perse e o alemão Rainer Maria Rilke. O resultado é uma literatura inovadora do ponto de vista da linguagem que exerce, por exemplo, forte influência na cena da dramaturgia brasileira de hoje. Além disso, a criação pioneira de um espaço voltado à literatura e às artes, a Casa do Sol, inaugurada em 1996, se encontraria, sete anos depois, com a concepção da Flip.

– A Casa do Sol, sua residência literária, habitada pelo seu oficio de escritora e que foi lugar de convívio com artistas de múltiplas áreas como Caio Fernando Abreu, guarda a memória de um fazer artístico cuja singularidade esta homenagem se propõe a revelar – conta o diretor, acrescentando que esta edição será intimista, com muita poesia e teatro, um pouco de irreverência e debates sobre a criação artística, a arte e a natureza, a literatura e a filosofia.

Para a curadora, Joselia Aguiar, a pesquisa de repertório foi a mesma, ou seja, foram mantidos a preocupação em ter autores e autoras plurais, do mesmo modo que na Flip 2017.

– Lima Barreto e Hilda Hilst foram transgressores, cada um à sua maneira e em seu tempo, e se dedicaram à escrita de modo tal que ultrapassaram o limite do que era esperado de cada um: ele como autor negro de baixa renda, ela como mulher livre numa sociedade que não estava acostumada com isso – explica.

A abertura, que acontece na quarta-feira (25), irá reunir duas grandes artistas brasileiras, de gênio e de força, que há mais de meio século brilham nos palcos: a atriz Fernanda Montenegro, um dos maiores nomes da dramaturgia do país, e a maestrina, compositora e pianista Jocy de Oliveira, pioneira da música de vanguarda eletroacústica e da ópera multimídia.

– Fernanda e Jocy construíram suas trajetórias com primor: realizaram trabalhos com ousadia e transgressão, alcançaram prestígio tanto no Brasil quanto no exterior, e é impressionante acompanhar a sua produção de tanta vitalidade. As duas continuam a inventar, a atuar, a desafiar os limites, sem concessão, sem desistir – diz Joselia, acrescentando varias coincidências giravam em torno das duas convidadas, como o fato de ambas nutrirem uma admiração por Hilda Hilst e  de terem realizado coisas juntas há mais de meio século.

 

Sobre Hilda Hilst

Hilda Hilst (1930-2004) – escreveu poesia, ficção, teatro e crônica, tendo construído uma obra singular em língua portuguesa na segunda metade do século 20 em torno de temas como o amor, o sexo, a morte, Deus, a finitude das coisas e a transcendência da alma.

O interesse pela literatura se deu desde a infância. Era leitora de Samuel Beckett, Friedrich Hölderlin, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, René Char e Saint-John Perse.

Estreou na literatura aos 20 anos com um livro de poesia e foi recebida com entusiasmo por Cecília Meireles e Jorge de Lima, de quem era leitora. Aos 22, formou-se em direito pela Universidade de São Paulo, onde conheceu a escritora Lygia Fagundes Telles, com quem manteve laço duradouro. Após a formatura, viajou pela Grécia,Itália e França.

Em 1966, passou a residir na Casa do Sol, uma chácara que construiu em Campinas, no interior de São Paulo, cercada de árvores e bichos, para servir como espaço de estudos e criação artística. Foi casada com o escultor Dante Casarini e não teve filhos. Distante dos grandes centros,recebia para temporadas breves e longas artistas e escritores como Mora Fuentes e Caio Fernando Abreu.

A Casa do Sol funciona hoje como sede do Instituto Hilda Hilst, onde se realizam residências artísticas e encenações de peças de teatro.

 

Sua Obra

Hilda Hilst reúne dezenas de títulos, entre os quais obras-primas como Cantares de perda e predileção (poesia), Rútilo nada (ficção) e A obscena senhora D (ficção).

A sua curiosidade intelectual incluía, além da literatura, a física e a filosofia. Realizou na década de 1970 uma experiência literário-científica que chamou de Transcomunicação Instrumental, quando deixou gravadores ligados para registrar vozes de espíritos. Como marcas de sua personalidade, são apontadas a dedicação obsessiva à escrita, o cultivo da amizade, a irreverência e a curiosidade.

Recebeu prêmios como o Jabuti, o APCA, o Pen Clube São Paulo, o Cassiano Ricardo e está traduzida para o inglês, francês, espanhol, basco, alemão, italiano, norueguês e japonês. Grande parte de seus livros foi publicada pelo célebre editor artesanal Massao Ohno em volumes feitos com apuro estético, mas de reduzida circulação. Após sua morte, a Globo Livros relançou toda a sua obra sob os cuidados do crítico Alcir Pécora e, atualmente, tem em catálogo os títulos Pornô chic e Fico besta quando me entendem, compilação de entrevistas com a autora. A reunião de sua obra poética, Da poesia, foi publicada neste ano pela editora Companhia das Letras, que tem uma série de publicações sobre a autora previstas para 2018, como Da prosa; a adaptação para quadrinhos de A obscena senhora D., por Laura Lannes; uma coletânea ilustrada de suas poesias de amor e a edição de Amavisse para a Poesia de Bolso. Em 2019, a Companhia lançará uma trilogia erótica e, em 2020, a biografia da autora. Daniel Fuentes,o detentor dos direitos autorais, vem negociando com outras editoras para publicar o que falta de Hilda Hilst, como cartas e inéditos. Sua ideia é ter a obra completa disponível nas livrarias até julho de 2018.

Tem crescido o interesse pela literatura de Hilst por parte de leitores, críticos e realizadores do cinema e do teatro: a cada ano, acontecem dez novas montagens em companhias de pequeno e médio porte.

 

 

Programação:

* Quarta-feira, 25

Abertura às 20h

Mesa 1 “Hilda, Fernanda e Jocy” com Fernanda Montenegro e Jocy de Oliveira

 

* Quinta-feira, 26

Mesa 2, às 10h

“Performance sonora” com Gabriela Greeb e Vasco Pimentel

 

Mesa 3, às 12h

“Barco com asas”, com Júlia de Carvalho Hansen,  Laura Erber e Maria Teresa Horta

 

Mesa 4, às15h30

“Encontro com livros notáveis”, com Christopher de Hamel

 

Mesa 5, às 17h30

“Amada vida”, com Bell Puã, Djamila Ribeiro e Selva Almada

 

Mesa 6, às 20h

“Animal agonizante”, com Gustavo Pacheco e  Sérgio Sant’Anna

 

* Sexta-feira, 27

Mesa 7, às 10h

“Poeta na torre de capim”, com Lígia Ferreira e Ricardo Domeneck

Mesa 8, às 12h

“Minha casa”, com Fabio Pusterla e Igiaba Scego

Mesa 9, às 15h30

“Memórias de porco-espinho”, com Alain Mabanckou

Mesa 10, às 17h30

“Interdito”, com André Aciman, Leila Slimani e Ricardo Domeneck

Mesa 11, às 20h

“A santa e a serpente”, com Eliane Robert Moraes e Iara Jamra

 

* Sábado, 28

Mesa 12, às 10h

“Som e fúria”, com Jocy de Oliveira e Vasco Pimentel

Mesa 13, às 12h

“O poder na alcova”, com Simon Sebag Montefiore

Mesa 14, às 15h30

“Obscena, de tão lúcida”, com Isabela Figueiredo e Juliano Garcia Pessanha

Mesa 15, às 17h30

“Atravessar o sol”, com Colson Whitehead, Geovani Martins e Reuben da Rocha

Mesa 16, às 20h

“No pomar do incomum”, com Liudmila Petruchévskaia

 

* Domingo, dia 29

Mesa 17, às 10h

“De malassombros,  mesa Zé Kleber” com Franklin Carvalho e Thereza Maia

 

Mesa 18, às 12h  – Sessão de encerramento

“O escritor e seus múltiplos”, com Eder Chiodetto, Iara Jamra e Zeca Baleiro

 

Mesa 19, às 15h30

“Livro de cabeceira” com mediação de Liz Calder

 

 

 


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