Motorista de aplicativo que agrediu mulher diz que vítima “quer aparecer”

[OUÇA O ÁUDIO] Ele foi indiciado pelo crime de lesão corporal e, se condenado, pode pegar 4 anos de prisão

by Lívia Nascimento

Volta Redonda – O caso do motorista de aplicativo flagrado por câmeras de monitoramento no domingo (31), arrastando uma mulher com uma criança no colo para fora do carro que ele conduzia, no bairro Conforto, ganhou novos contornos nesta quarta-feira (3). De acordo com a Polícia Civil, o homem – que foi conduzido e prestou depoimento na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) e foi indiciado pelo crime de lesão corporal com penas aumentadas por agredir mulher e criança – não só já tinha anotações criminais anteriores como respondeu, em 2020, por outra agressão praticada contra um passageiro em Barra Mansa.

Segundo o apurado pelo DIÁRIO DO VALE, o motorista tem anotações por furto; uso de documento falso; porte de drogas; dano; violência psicológica contra mulher e injúria. Além disso, em 11 de outubro de 2020 – segundo ocorrência registrada na 90ª Delegacia de Polícia –, ele teria agredido um trabalhador que saía da transportadora onde trabalhava para o bairro Paraíso de Cima. Segundo o relato da vítima, o motorista – mesmo depois de ter aceitado a corrida – disse que não iria leva-lo até o local, pois, segundo ele, lá “só mora bandido”.

O motorista, então, começou a discutir com o passageiro, chegando a empurrá-lo e a exigir que pagasse a corrida, mesmo só tendo andado vinte metros. Como o passageiro se recusou a pagar e ameaçou ligar para a Polícia, o condutor pegou o celular da vítima e o quebrou. Com medo e na intenção de se defender, o passageiro pegou uma pedra – foi quando o motorista fugiu em disparada do local.

Repercussão

Os vídeos mostrando o motorista arrancando uma mulher e uma criança para fora do carro na Rua 2, no bairro Conforto, repercutiram em todo o país. Em Volta Redonda, outros motoristas de aplicativo ouvidos pelo DIÁRIO DO VALE fizeram um perfil do suspeito. “Ninguém gosta dele. É encrenqueiro, gosta de confusão, todo errado. Por isso que ninguém coloca ele nos grupos de WhatsApp. A vida de motorista de aplicativo não é fácil, também tem passageiro que é sem noção, mas nada justifica o que ele fez. Não dá pra defender”, disse um deles.

Outro acrescentou que, tão logo as imagens da agressão vieram a público, pelo menos quinze motoristas teriam cercado a casa do agressor. “Ele ia ser linchado. Certeza. Mas não estava lá”, contou. “Disseram que o pessoal do movimento (tráfico, grifo nosso) ia pegar ele”, pontou.

“Ela quer aparecer”

Em um áudio que circula pelas redes sociais e é atribuído ao motorista, ele parece estar menos preocupado com a acusação de agressão do que com a própria imagem. E também teria afirmado não ter medo de ser pego pelo tráfico, conforme diziam os boatos.
“Eu não tô preocupado com traficante, essas coisas, não. Eu tô preocupado é com a minha imagem, né? Ela (a passageira, grifo nosso) só filmou um trechinho, aquele trechinho em que eu tô indo embora. Ela falou aquela m**** pra aparecer, né? Porque não tinha nada dentro do meu carro. Eu botei a mulher pra fora, entendeu?”, diz em certa parte.
“Aí eu vou embora. Eu vou embora, por quê? Por que eu vou ficar lá batendo papo com ‘pé de rato’? Não vou, cara. A pessoa quer confusão, quer treta, quer encheção de saco, entendeu? Eu vou embora! Eu vou embora e vou pegar a próxima corrida, depois a próxima, e a próxima, e a próxima… Depois de uma corrida ruim sempre tem uma corrida boa”, acrescenta ele, que finaliza: “Se eu tivesse bola de cristal, eu não teria feito essa corrida. A gente não tem como prever que vai pegar uma ‘bucha’ dessa. Se eu soubesse, não tinha levado essa gente. Nem tinha cara, assim, de que iam me arrumar encheção de saco, treta, querendo ‘meter o louco’. Nem pareciam ter esse tipo de perfil, sabe? Eram duas ‘mulé’”.

“Não reconheço”

Em seu depoimento na DEAM, no bairro Aterrado, nesta quarta-feira (3), o motorista disse que “foi hostilizado” pelas passageiras e que não agrediu, nem arrastou ninguém para fora carro. Mais: confrontado com as imagens das câmeras de monitoramento, disse que “não reconhece” as imagens. À DEAM ele teria comparecido sozinho, sem advogado que o representasse.

Ficha criminal

Embora tenha enviado a alguns jornais uma nota afirmando “lamentar o caso”, a assessoria de imprensa 99 não atendeu aos questionamentos do DIÁRIO DO VALE, assim como a assessoria da Uber – também procurada pela reportagem, já que o motorista rodava com ambos os aplicativos.

Tanto à 99 quanto à Uber, a reportagem questionou se há uma pesquisa mínima sobre a vida pregressa dos motoristas cadastrados, sobretudo em relação a antecedentes criminais; se é comum haver motoristas com ficha criminal trabalhando com o aplicativo e se as plataformas iriam, ou não, expulsar o motorista.

Também foi perguntado à 99 se a empresa está prestando alguma assistência psicológica, médica ou jurídica para as vítimas. Até o fechamento desta edição, nenhuma das duas assessorias havia dado qualquer retorno.

Relembre o caso

O motorista de aplicativo foi flagrado por câmeras de monitoramento no domingo (31), arrastando uma mulher com uma criança no colo para fora do carro que ele conduzia, na Rua 2, no bairro Conforto, em Volta Redonda. Ele realizava uma corrida com início no Retiro, parada prevista no bairro 249 e destino ao Eucaliptal.

Segundo o registro da ocorrência, o motorista se irritou quando a irmã da vítima solicitou que ele seguisse o GPS, após ele alegar que estava perdido no bairro. O motorista, então, parou o carro na Rua 238 e mandou que todos dessem. Apenas a irmã da vítima e o seu sobrinho conseguiram sair do carro antes que o motorista arrancasse com o veículo. Na sequência, ele seguiu até a Rua 2, onde retirou a mulher e a criança à força do carro. Ambas tiveram ferimentos e foram socorridas no Hospital Dr. Nelson Gonçalves, antigo Cais do Aterrado.

Veja, na íntegra, a nota enviada à imprensa pela 99:

“A 99 lamenta profundamente o caso. Assim que a denúncia foi registrada em sua Central de Segurança, a empresa bloqueou preventivamente o agressor na plataforma enquanto as autoridades apuram o caso e mobilizou uma equipe que busca contato com a passageira para oferecer acolhimento e informações para o acionamento do seguro para cobertura de despesas médicas. A empresa está disponível para colaborar com as investigações das autoridades”.

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3 comments

Curiango 4 de abril de 2024, 08:16h - 08:16

Pra quem tem diversas passagens tá durando muito, uma hora o povo coloca a mão nele.

Reply
Jorge Lucas 4 de abril de 2024, 06:07h - 06:07

Precisamos de um suporte melhor em segurança, para utilizarmos carros de aplicativos. Com um transporte público de passageiros com a baixa qualidade que temos, a opção é o carro de aplicativo ou o Taxi. Um bom suporte de segurança para o usuário seria bem vindo.

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duolfo 3 de abril de 2024, 20:47h - 20:47

Vocês já repararam que todos os problemas com motoristas de aplicativos sempre são mulheres?

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