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Ordem do Dia – Despedida

Matéria publicada em 2 de fevereiro de 2020, 16:45 horas

 


Cleber Silva Maia

10 de Janeiro de 2019. Nesta data, que coincide com o aniversário de minha mãe, assumi o Comando do 5º CPA. Estava na DGP à disposição do Comandante Geral aguardando movimentação e função. Não tinha mais perspectivas na Corporação e apenas esperava o decurso do tempo para ingressar na inatividade. Para minha grata surpresa, fui convocado pelo atual Secretário de Estado de Polícia Militar para assumir este Comando Intermediário.

Não imaginava que naquele momento estava recebendo um agradável presente. Está sendo muito prazeroso encerrar a carreira aqui. Poderia falar dos resultados de nossa gestão à frente do 5º CPA. De todos os números e índices alcançados, dentro e fora do Sistema de Metas. Mas não perderei tempo com isso. Os números estão devidamente registrados. Como é minha despedida do serviço ativo da Corporação, quero ir um pouco além.

Gostaria de falar da minha trajetória de vida e dos resultados que não ficarão registrados em nenhum dos anais da corporação, mas estarão fortemente marcados no coração das pessoas que ombrearam comigo. Esses resultados sim, são eternos. Os demais, o tempo se encarrega de levar ao esquecimento.

Oriundo de Mesquita, hoje um dos municípios da Baixada Fluminense, e filho de família humilde e simples, passou por todo tipo de privação e necessidade. Iniciou a vida cedo, trabalhando aos 11 anos na feira daquele mesmo município, numa barraca de verduras. Nessa mesma feira, tempos depois, fazia carreto, o que hoje não existe mais, que era um carro de rolimã fechado onde colocávamos as compras das Senhoras e levávamos até suas casas para ganhar um trocado. Me lembro bem que foi meu falecido avô João que fez esse carreto pra mim.

Logo depois iniciei como faxineiro num escritório de advocacia e administração de imóveis, cujo dono era o Sr José Montes Paixão, que veio a ser o primeiro Prefeito de Mesquita. Nesse mesmo escritório em seguida fui office boy, função que hoje já não mais existe. Também tentei a carreira no futebol, tendo passado por alguns clubes da Baixada e da capital.

Mas a necessidade de ter um retorno rápido e ajudar a família falou mais alto. Como estudei numa escola de rígida disciplina, apesar de não ser um colégio militar, percebi minha fácil adaptação àquele regime. Ingressei então no CPOR do Rio de Janeiro em 1987, pelo serviço militar obrigatório, quando decidi então seguir a carreira militar. Em 1989 ingressava na então Escola de Formação de Oficiais, hoje Academia de Polícia Militar Dom João VI. Após os três anos de formação, iniciei minha carreira como Aspirante no 24° BPM, em Queimados. Além da Baixada, servi na Capital, em Unidade de Ensino, em Unidade Administrativa e no Interior.

Exerci todas as funções relativas aos postos que fui galgando, onde destaco o de Chefe da Divisão de Ensino da APM D. João VI, Sub Cmt do 38º BPM, Sub Chefe da PM/4, Secretário do EMG, Cmt do 30° BPM, Diretor da DGP e, por derradeiro, Cmt do 5º CPA. Vi muita coisa nesses mais de 30 anos de serviço e sempre me preocupei em fazer diferente, em quebrar paradigmas.

Percebi que existem duas formas de se Comandar: pela conciliação ou pelo conflito. Esta última é a mais fácil, pois basta apenas se colocar na condição de Cmt e aplicar o regulamento. Optei pela primeira, que é a mais difícil, pois é preciso ouvir, entender e se colocar muitas vezes no lugar do outro. Não me arrependo. Fui feliz agindo assim por onde passei.

Me considero um privilegiado. Encerro a carreira tendo feito muitos amigos, com saúde, vivo, com planos e projetos futuros, respeitado pela cúpula da Corporação e pela tropa, sendo avô e com meus pais ainda vivos. Só tenho a agradecer. Por isso gostaria de agradecer primeiro à Deus, por me permitir chegar até aqui, me livrando de muitas situações ruins. Aos meus pais, Humberto e Sueli, que acompanham minha jornada na Corporação desde o início.

Semana passada, quando meu pai soube que estava indo para a reserva remunerada, ele não se conteve e disse: “Que bom! Agora a gente fica mais tranquilo!”. Só assim pra perceber o nível de preocupação que nossos pais ficam quando optamos por essa profissão. Ao Sr Cel Figueredo, Secretário de Estado de Polícia Militar, pela oportunidade e pela confiança em mim depositada. Ao Sr Cel Basílio, Subsecretário de Estado de Polícia Militar, amigo de longa data, por todo apoio nessa e em outras Unidades por onde passei. Aos Srs Coronéis Nogueira e Castro Neto, respectivamente Subsecretário de Gestão Operacional e Administrativa da Corporação, pela amizade, companheirismo e apoio. Ao Cel Vinícius, Chefe do EM do 5º CPA durante nossa gestão, por todo trabalho, dedicação e lealdade. Aprendi muito com este Oficial em razão da sua ampla experiência operacional. Apesar de sermos contemporâneos de formação, apenas agora no final da carreira tivemos a oportunidade de trabalharmos juntos. Esse foi mais um grande presente. Já disse a ele em particular e agora digo em público que é um Oficial que merecia alçar voos mais altos na Corporação.

Aos meus Oficiais e Comandantes de Unidades, pelo incansável trabalho de fazermos o melhor pela sociedade. Aos meus praças do 5º CPA, por entenderem a filosofia de trabalho deste agora ex Comandante, porém eterno amigo de todos vocês. A todos os parentes e amigos que sempre acompanharam minha trajetória, em especial aos meus tios padrinhos Gilson e Ana Maria, que apesar da distância sempre estiveram presentes, me orientando, aconselhando e orando por mim. E por último, porém o mais importante, à minha família. Minha esposa Ana Lúcia e filhos Gustavo e João Vítor, que durante muito tempo sofreram com a minha ausência em razão das responsabilidades com a Corporação. Agora estou de volta pra casa de corpo e alma. Obrigado pela compreensão e pela força nos momentos mais difíceis. Como a família aumentou, meu agradecimento à minha nora Taiane e à minha neta, a pequena Helena, que veio trazer mais alegria para a família. Ao meu sucessor, Cel Arlem, contemporâneo de turma e companheiro de futebol naqueles campos na Invernada dos Afonsos, desejo toda sorte e sucesso. Saiba que não estou apenas passando o Comando do 5º CPA, mas o estou entregando a direção de uma verdadeira casa de família. Tenho plena certeza que serás feliz aqui como eu fui.

Me despeço desejando que Deus ilumine o Comando da Corporação para que continue fazendo o melhor pela sociedade carioca, bem como que abençoe e proteja todos os nossos policiais militares. Como disse Paulo de Tarso: “combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.”
Um forte e fraterno abraço em todos!


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4 comentários

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    Porque ainda continuo vendo esta matéria?

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    espero que oque entre veja essa situação ai de policia não poder adentrar em alguns bairros sendo que até uma coisa que era difícil acontecer policial baleado e morto Divinéia complexo Vila Brasília l santo Agostinho Roma santa cruz etc a população pede socorro eucalipto que tem uma coisa estranha muito bandido a prender descance e ao novo siga nos ajudando
    Ass população

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    Sem palavras pra externar a falta que o Sr° fará na Corporação… Quando disse que escolheu comandar pela forma mais difícil, a da conciliação, sabemos que poucos ousam trilhar por este caminho, sabemos que a empatia não é para qualquer um, mas acredito que Deus sempre esteve e sempre estará ao lado daqueles que o acompanharam nesta difícil caminhada. Vitória, essa é a palavra, um vitorioso, diferenciado ser de luz, exemplo de ser humano. Força e honra sempre! Seja muito feliz. Forte abraço!!!

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    Embora estando em instituições diferentes digo que foi um prazer trabalharmos juntos. Sua história também muito bonita. Exemplo a ser seguido. Desejo tudo de bom pro senhor nessa nova etapa. SRN

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