sábado, 19 de outubro de 2019

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Virtudes e vícios

Matéria publicada em 26 de julho de 2019, 09:17 horas

 


Por que ser bom quando vivemos em um mundo corrupto? Na verdade, somos o quê: generosos, gananciosos, justos, intolerantes, piedosos ou preguiçosos? Quem somos nós neste Universo de bilhões de pessoas espalhadas pelos quatro cantos desse “infindo” planeta?

Um encontro entre o filósofo, educador e escritor Mario Sergio Cortella e a monja zen-budista Coen Murayama fez constatar a soma inteligente entre a filosofia e a espiritualidade. A partir daí, nasceram muitas perguntas, como as que citei acima, além de outras como: O que torna alguém virtuoso? São as circunstâncias que definem a nossa trajetória? É possível perdoar sempre? Existe um limite para a prática do bem e do amor?

São perguntas assim que nos provocam, que criam a meu ver, o encontro e a discussão entre o bem e o mal, pois, ao nos depararmos com a vida lá fora, o dia a dia caótico, em que imperam o medo e a violência, quando já não sabemos exatamente em quem confiar, é que nos tornamos, de fato, seres ávidos pela felicidade, muitas vezes tendo que passar, antes de achá-la, pelo terreno pantanoso do vício.

O medo toma conta de nós em vários momentos, e acabamos ficando à mercê do acaso, deixando-nos seduzir por algo que não entendemos por completo, como simples espectadores de uma luta entre anjos e demônios.

O encontro entre estes dois nomes, Cortella e Coen, fez nascer o livro “Nem anjos, nem demônios”, em que a humana escolha entre vícios e virtudes se mostra com enorme clareza. Veja que, na tradução do Latim, as duas palavras não são antagônicas, pois antagonismo de bondade é maldade, e antagonismo de falha é conserto.

O sentido de virtude, algo que fora apregoado pelo filósofo grego Aristóteles, a cada dia ganha mais relevância sob os pontos de vista da moral e do comportamento social. Para Aristóteles, não existem virtudes inatas, já que todas adquirem, pela repetição dos atos, algo que gera o costume e, que acaba, por conseguinte, gerando as virtudes. Entende-se por virtude ações na medida justa, ações essas que devem ser sempre aprimoradas, para que o seu resultado acabe nos levando inevitavelmente ao caminho da felicidade.

O vício e a virtude fazem, desde sempre, parte da história do mundo. De maneira objetiva, a pluralidade de opiniões, de vivências e de perspectivas contribui sobremaneira para aumentar o nosso nível de acerto, aproxima-nos de relações mais completas e nos dá, de certa forma, a opção de reconhecer a virtude e o vício – e a partir daí fazermos a nossa opção. Isso porque todos nós estamos à procura de uma nova maneira de ser, tentando aplacar um pouco as nossas dores e sofrimentos, que, no fundo, foram causados por nós mesmos; afinal, quem criou tudo isso que está lá fora?

Existe um provérbio judeu muito interessante que nos faz pensar: “O seu inimigo existe até o momento em que você ouça a sua história.” Isso nos diz que devemos ouvir, entender as diferenças e até compartilhá-las. A nossa interseção é infinitamente maior do que os conjuntos; sendo assim, o que nos une é bem mais poderoso do que o que nos difere. A virtude da cooperação, que se traduz em soma, deve superar por completo o terrível vício da superioridade, algo que nos isola e aniquila.

A virtude e o vício estão constantemente em pleno conflito, gerando uma polarização entre a bondade e a falha propriamente dita. A falta da virtude condiciona o vício. O vício, que significa a falha, está em nós, mas, se quisermos, podemos controlá-lo. Já a virtude, que significa bondade, também está em nós, porque todo mundo é bondoso ou tem em si uma parcela desse bem.

Exercitar um ou outro cabe a cada um de nós. A diferença entre virtude e vício está nas ações – nunca devemos nos esquecer disso -, bem como saber que um e outro podem caminhar juntos. Vício e virtude são nada mais do que atitudes criadas pelo homem, e como tal podem ser modificadas por ele. A virtude provoca o prazer, e o vício, a dor; sendo assim, escolher um ou outro cabe a nós e a nossa inteligência.


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