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Carl Barks e o lado mais obscuro da Disney

Matéria publicada em 12 de maio de 2015, 07:06 horas

 


Criador do Tio Patinhas trabalhou no anonimato imposto pela empresa

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Barks: Sucesso depois da aposentadoria (Foto:Divulgação)

Barks: Sucesso depois da aposentadoria (Foto:Divulgação)

No filme “Walt, nos bastidores de Mary Poppins” Tom Hanks faz um Walt Disney gentil e bondoso, procurando a escritora P.L. Travers para filmar seu livro Mary Poppins. Na vida real o criador do Mickey pagava péssimos salários aos seus empregados e frequentemente os levava a exaustão. Disney também exigia que seus desenhistas trabalhassem no anonimato e recebia os créditos por suas criações. É o caso de Carl Barks, o homem que criou personagens como o Tio Patinhas, a Margarida, o Gastão e o Professor Pardal. Barks trabalhou na Disney de 1947 a 1966 criando personagens, fazendo os roteiros e os desenhos. Mas a assinatura no trabalho dele tinha que ser a do seu patrão, Walt Disney.

O que tirou Barks e outros desenhistas da Disney do anonimato foi o seu talento. Embora não pudessem assinar seus trabalhos, esses artistas tinham um estilo único, facilmente reconhecível. Quando saiu da Disney, o criador do Tio Patinhas foi logo identificado pelos fãs de suas histórias. Acabou famoso e recebendo prêmios, como a inclusão na galeria da fama Will Eisner.

Tio Patinhas

Eu era fã dos quadrinhos de Barks, antes mesmo de saber o nome dele. Barks satirizava o capitalismo e o estilo de vida americano nas histórias do Tio Patinhas. Um magnata que explorava o trabalho do seu sobrinho, o Pato Donald na cidade imaginaria de Patópolis. Na verdade o Pato Donald daquelas histórias é um alter ego de Barks. O desenhista passou a vida sem dinheiro, pulando de um emprego para outro e sendo explorado pelos seus patrões. Exatamente como acontecia com o pato em suas aventuras tragicômicas. No império do Tio Patinhas ele era uma espécie de faz tudo, viajando para os cantos mais remotos do planeta (e do sistema solar) e recebendo um salário mínimo, quando recebia alguma coisa. Acho que Walt Disney nunca percebeu que era a versão humana do tio do Donald.

Barks não tinha dinheiro para viajar, mas não perdia um número da National Geographic Magazine. Inspirado nas fotografias da revista ele criava histórias em países distantes, mandando o Pato Donald para os fiordes da Noruega, as florestas da América Central ou os templos imponentes da Tailândia e do Camboja. Com a corrida espacial ele passou a mandar seus patos para outros planetas em aventuras que marcaram época.

A mais conhecida é “Ilha no Céu”, de 1960, que proporcionou uma homenagem singular ao desenhista. Na aventura os patos vivem em uma cidade do futuro, onde as viagens pelo espaço já se tornaram comuns. Tio Patinhas resolve guardar sua fortuna nos asteroides, e parte com seu sobrinho para as vastidões inexploradas além de Marte. Por causa dessa história em quadrinhos um astrônomo americano batizou um asteroide com o nome de 2730Barks. Em outra aventura espacial Tio Patinhas assume a direção dos correios de Patópolis e descobre que tem que entregar uma carta para um destinatário no planeta Vênus.

Inspiração para artistas

Os quadrinhos de Carl Barks inspiraram muitos artistas e cineastas, como Steven Spielberg. Spielberg reconhece que a sequencia de abertura do “Indiana Jones”, com o herói fugindo de uma enorme pedra, foi tirada de uma história do Tio Patinhas. “A Cidade do Ouro” em que os personagens descobrem uma cidade perdida no deserto do Arizona. A cidade, oculta no desfiladeiro, tem uma armadilha contra ladrões. Se alguém mover a estátua de ouro na praça central o local inteiro desmorona em uma avalanche.

Adeus, Barks

Com a fama, Barks acabou recebendo um reconhecimento tardio da Disney. Que concedeu-lhe permissão para desenhar e vender pinturas dos personagens que tinha criado, o que ajudou muito o artista em sua aposentadoria. O criador dos patos mais famosos do mundo morreu no ano 2000. Ele trabalhou para outra editora, a Western Publishing e desenhou histórias em quadrinhos sobre personagens históricos, como Xerxes, mas sempre será lembrado pelo Tio Patinhas e sua família.

Jorge Luiz Calife/ jorge.calife@diariodovale.com.br


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Um comentário

  1. Avatar

    DESTA VEZ NÃO FALOU BESTEIRA…. QUE BOM!

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