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(Re) Legião Urbana

Matéria publicada em 2 de outubro de 2018, 09:19 horas

 


Por resolução própria, fazia muito tempo que não ouvia nada da Legião Urbana. Já gostei demais, mas como muitas coisas que a gente gosta, tem horas que alguma coisa fica para trás e só nos resta virar a página. É virando páginas que a gente lê outros livros.
Seja como for, por obra do acaso, numa solitária viagem de carro, recentemente acabei ouvindo de novo e sem interrupções o álbum “As 4 Estações”.
Assim como o título sugere, o CD alterna diferentes andamentos e estações. Vai do lirismo barroco de Monte Castelo à crueza roqueira de Feedback song for a dying friend. Da depressiva Pais e Filhos à acelerada 1965.
Mas ouvir esse disco desapaixonadamente (e até com uma ponta de má vontade, admito) me fez perceber sutilezas antes ignoradas. A principal delas é o flerte com a morte, já que esse foi o primeiro álbum de inéditas após Renato Russo descobrir que tinha Aids, o que nos anos 80 equivalia a uma irrevogável sentença de morte.
“Somos cabras marcados para morrer”, sabemos disso desde o nosso primeiro dia de vida, gravado que está em nossa moleira. Mas a iminência da morte é uma coisa muito mais poderosa e devastadora do que a mera certeza de uma morte que não se sabe para quando foi agendada.
O disco inteiro trafega nesse fio condutor. Citações bíblicas, passagens budistas, transcendência, amor incondicional, tessituras oníricas… tudo compondo o belo mosaico de um artista perturbado com seus fantasmas. A urgência de dizer o que precisa ser dito antes que a vida escorra pelos magros dedos das mãos. Não é a toa que o disco se inicia com os versos “Parece cocaína/mas é só tristeza” e termina implorando o perdão divino: “Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo/Tende piedade de nós/Dai-nos a paz”.
O álbum traz canções memoráveis. Eu era um lobisomem juvenil é inesquecível. Monte Castelo mistura a poesia de Camões com trechos bíblicos. O disco consegue a proeza de não soar piegas mesmo repleto de passagens doces e românticas. Nem soar panfletário mesmo com tanto engajamento a rigor questionável. Mistura rock com orquestração árabe. Bíblia com Camões. Confissão e redenção.
A história da arte é farta em mostrar que momentos de crise e perturbação pessoal são excelentes combustíveis para a criatividade.
Em 1990, tive o raro privilégio de assistir a um show da banda, notória pela escassez de apresentações. Duas horas e meia de catarse coletiva. Um Renato Russo tripolar, visivelmente transtornado e com o magnetismo de um líder ecumênico. Um show intenso, visceral e até um pouco perturbador.
Ao som dos últimos acordes de “Se fiquei esperando meu amor passar” encerrei, depois de muitos anos, a audição desse disco que à época me marcou.

Tão satisfeito quanto saciado, guardei reverentemente o CD em sua caixa prateada. Não é um álbum para se ouvir a toda hora, nem tampouco para se jogar fora.
Virei a página, mas guardei o livro.


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5 comentários

  1. LEGIÃO ETERNAMENTE!

  2. Belíssima crônica Alexandre! Também tive o privilégio de assistir a esse memorável show de 1990 em Volta Redonda…realmente o Renato tava transtornado, mas paradoxalmente o gênio criador e artístico dele pulsava assim. Tem um livro mais recente (Só por hoje e para sempre) publicado pelo filho dele, em que o Renato registrou em seu diário o martírio que foi para ele fazer o show em Volta Redonda, devido a problemas com seu empresário. O gozado é que pra mim, foi tudo tão perfeito que nem sequer me importei de ter ter pago 200.000 cruzeiros na época, comprado no caixa do Banerj (acho que eu recebia uns 600.000 limpando chão numa farmácia!!!). Com 16 anos a vida é mágica e ao som da Legião, ela era fantástica mesmo com todos os senões…A poesia e filosofia de vida expressa nas músicas da Legião moldaram o caráter de toda uma geração! Urbana Legio Omnia Vincit!!!

  3. Que bela crônica sobre a Legiao! Parabéns amigo, desse disco tem versos profundos e melodias marcantes. salve Renato

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